Aos 70 anos, a TV deixa de ser TV

A TV tem se tornado um conjunto de dados e softwares conectados via internet, em que o conteúdo é transmitido via OTT, ou Over The Top

Ao completar 70 anos, a TV deixa de ser TV para se tornar, mais e mais, um conjunto de dados e softwares conectados via internet, em que o conteúdo é transmitido via OTT, ou Over The Top, a camada de aplicações web.

Sem necessariamente abandonar sua tradição linear, em que a programação segue uma lógica de grade fixa, seja na TV aberta ou fechada, a doce senhora septuagenária resolveu disromper-se desavergonhadamente, aplicando-se de streaming, em que o tráfego de conteúdos e dados é on demand, ou seja, quando e onde quisermos.

Essa nova lógica, tecno lógica, impactou de forma nunca antes conhecida o modelo de negócios das empresas do setor, abriu um sem número de oportunidades de acesso a programações agora prioritariamente digitais e pode estar levando ao colapso de setores altamente relevantes da indústria, como os formatos tradicionais de TV à Cabo.

Está também colocando no comando companhias que não tinham nada a ver, em princípio, com o que antes chamávamos de TV, como Facebook, Google, Apple, Amazon e Twitter. Ah, e Netflix.

Essa transformação não se dá de forma isolada no âmbito da TV. Vem embedada e é apenas uma das pontas aparentes da revolução econômica global promovida pelas empresas plataforma, em que grandes conglomerados rompem as barreiras de seus negócios de origem, para constituírem-se em ecossistemas setorialmente multi-diversos, tomando de assalto e passando a dominar as forças empresariais globais.

Estamos falando das empresas que citei acima e de outras como Tecent e Alibaba, que introduziram uma nova lógica econômica internacional. A dona TV se transformou, então, na sua versão remoçada e interativamente serelepe, como resultado dessa outra transformação maior, que até podemos chamar de Transformação Digital, mas que, de fato, é economicamente estrutural e bastante mais que isso.

Nesse novo ambiente, You Tube é TV. E TV é aplicativo. Essa senhorinha, hein, quem diria?

Por anos comentei em meus artigos que o grande sonho desses grandes conglomerados era virar TV. O Facebook, por exemplo, sempre quis virar TV. E agora compete diretamente com as empresas do setor para a transmissão de jogos de futebol. Em breve, entrará em outros gêneros de conteúdo. Anote aí.

E quando o Facebook vira TV, a TV vira outra coisa.

Movimentos cruzados e interconectados dessa natureza, uma natureza disruptiva, acabam por pulverizar e espalhar por diversificados canais de distribuição a antes cativa audiência televisiva. Num País como o Brasil, em que a TV tem cultural e economicamente a relevância e força que tem, vivenciamos, portanto, uma transformação histórica.

Essa revolução teve alguns pilares, como o incremento da banda larga e a popularização, via celulares, da emissão e recepção de conteúdos via plataformas mobile. Isso rompeu as barreiras de um horizonte antes circunscrito a transmissão via ondas eletromagnéticas convencionais, as mesmas utilizadas por Assis Chateaubriand, quando colocou no ar pela primeira vez na história do Brasil, em São Paulo, no dia 18 de setembro de 1950, sua pioneira TV Tupi e a primeira transmissão televisiva do País, cujos 70 anos comemoramos agora.

Outro pilar, como sabemos, foi a Netflix, que passou a transmitir conteúdo sobre IPs, ou Internet Protocols, transformando a TV num universo online, em tempo real e interativo.

O modelo por assinatura da Netflix colocou em cheque o modelo clássico de negócios do negócio da TV. Começou por ameaçar a tv paga de sempre, para também incomodar a lógica do modelo publicitário consagrado dos grupos de TV em geral, porque instigou anunciantes e patrocinadores a imaginarem que uma TV via internet pode vir a permitir não só a interação direta com a sua base de audiência, como também a captura de dados de comportamento e consumo desses TV-internautas, algo hoje considerado como o novo petróleo da indústria da comunicação e do marketing.

Essa revolução impactou toda a indústria do cinema, tornou empresas de telefonia em potenciais players de conteúdo, acendeu a faísca de uma competição grandiosa e inédita conhecida como a guerra do streaming, que envolve, além da Netflix, também a Disney, a Apple e a Amazon.

Recentemente, a Rede Globo lançou seu serviço de T-Commerce, ou TV Commerce, ou comércio eletrônico e digital via TV.

Esse novo modelo de TV permite que o espectador ative chaves online de interação com o conteúdo transmitido, e possa comprar produtos e serviços que estejam sendo mostrados em qualquer conteúdo exibido em seu televisor. Ou celular, já que hoje podemos perfeitamente, via aplicativos móveis, assistir TV num aparelho telefônico móvel.

É a senhora TV virando e-commerce.

E ela vai se descabelar mais e mais ainda com a chegada do 5G, o protocolo de telefonia móvel que vai permitir que todas as coisas que puderam carregar um chip e estejam conectadas possam se transformar em, digamos, TV. Geladeira TV. Liquidificador TV. Carro TV. Você entendeu.

Assim, 70 anos estão ficando para trás e um novo horizonte futuro de uma TV que nem TV será mais, entra no ar.

Vai ser um programão e tanto assistir tudo isso.

 

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