Uma praga de queixas mesquinhas

Está cada vez mais claro que a corrida para retomar a vida normal nos Estados Unidos foi um gesto de tremenda insensatez

O grande refechamento da América está começando. A Califórnia está entrando em um segundo lockdown de fato. Muitos Estados do Sul, que na prática têm passado por surtos piores que o da Califórnia, deviam estar fazendo o mesmo, embora pareça bastante provável que os governadores republicanos, fiéis ao seu estilo, vão esperar até a última hora para tomar medidas efetivas. De todo modo, agora está claro que a corrida para retomar a vida normal nos Estados Unidos foi um gesto de tremenda insensatez, pelo qual vamos pagar um preço alto em vidas e dinheiro.

Em um artigo recente, eu enfatizei, em particular, a loucura de liberar grandes aglomerações e a abertura de bares. Isto foi em parte, devo admitir, porque me agradou o recurso retórico de sugerir que nós comprometemos o futuro das nossas crianças para que pudéssemos sair bebendo. Mas também é verdade que beber em grupos, situação em que as pessoas naturalmente tendem a se tornar barulhentas e encrenqueiras, deve estar entre as atividades que têm mais chance de alimentar uma pandemia que se propaga pelas gotículas que circulam pelo ar.

Me ocorreu, porém, que talvez alguns leitores pensem que eu tenho algum problema com a ideia de as pessoas se divertirem, ou que eu acredito que entramos nesta confusão porque as pessoas queriam se divertir. Quanto às duas acusações, eu alego inocência.

Pode haver um quê de reprovação em algumas críticas à reabertura; chega de fotos de praias lotadas! Contudo, puritanismo, que o crítico cultural americano H.L. Mencken descreveu de modo célebre como “o medo obsessivo de que alguém, em algum lugar, possa estar feliz”, não foi o fator principal na inquietação que eu e outras pessoas sentimos à medida que partíamos com tudo rumo à nossa crise atual.

Fora isso, não sei se faz diferença, mas ainda que bares não sejam a minha praia, shows de música independente – um monte de gente de pé num espaço pequeno, cervejas na mão, enquanto os artistas e em alguns casos o público cantam – são.

Nem por isso eu acredito que o desejo humano e natural de diversão seja o que nos botou na crise atual.

As pessoas são como são, e não se pode esperar delas que se comportem com níveis inumanos de autocontenção. Qualquer um que ache que nós podemos reabrir faculdades e espera que os universitários pratiquem distanciamento social está se esquecendo de como foi ter 19 anos.

A questão é que jovens que adoram diversão não encabeçaram a desastrosa pressão de março e abril para LIBERAR (como disse o presidente Trump) os Estados que estavam em lockdown. Muito dessa pressão, na verdade, começou de cima para baixo – de Trump e seus aliados, que queriam dar uma turbinada no mercado de ações, além de parceiros de negócios que queriam recuperar os lucros perdidos.

Além disso, a psicologia por trás da oposição popular ao distanciamento social – por trás de todas aquelas pessoas se manifestando contra a exigência de usar máscara facial – não tem muito a ver com um desejo de curtir a vida, se é que tem alguma coisa a ver.

O que ela reflete, em vez disso – pelo menos, é no que eu acredito – é um ressentimento generalizado entre alguns americanos à ideia de que eles possam ser convocados a arcar com algum tipo de fardo, uma inconveniência pequena que seja, pelo bem dos outros. De fato, são as pequenas inconveniências que parecem provocar as maiores demonstrações de fúria.

Eu notei este fenômeno pela primeira vez décadas atrás, quando estava morando em Massachusetts e vi como um apresentador de um programa de rádio local despejava ódio contra a lei que tornou o cinto de segurança obrigatório no Estado. (A lei voltou após uma alta no número de mortes.) Eu já vi isso nas questões ambientais, com comentaristas de direita sugerindo ação violenta contra as autoridades locais por coisas como o banimento do fosfato nos detergentes – sim, a ideia era impedir a proliferação de algas tóxicas, mas também pode significar que sua máquina de lavar não vai funcionar tão bem.

Em outras palavras, o problema não são as pessoas que querem se divertir, e sim as que agem movidas por queixas mesquinhas – incentivadas e fortalecidas pelo homem mais mesquinho e mais cheio de rancor que já ocupou a Casa Branca. E diante de uma pandemia, a mesquinharia pode ser fatal.

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