Estratégia e disciplina superam os modismos no longo prazo

A ação é o primeiro passo, depois vem a disciplina — o que fazemos no dia a dia para manter o plano nos trilhos

Enfim 2021! Há tempos eu não via tanta gente desejar o ano seguinte, talvez associando que, após 31 de dezembro de 2020, tudo se resolveria pulando algumas ondinhas ou comendo sementes de romã. Sabemos que essas superstições mal não devem fazer, mas que para efetivamente realizarmos mudanças é necessário agir. A ação é o primeiro passo, depois vem a disciplina, o que fazemos no dia a dia para manter o plano nos trilhos.

Quando se trata de “finanças pessoais e investimentos”, é impressionante o crescimento que esses assuntos tiveram nos últimos anos. É perceptível o maior espaço conquistado pelo tema nas rodas de conversa, na frequência de artigos e matérias em mídias não especializadas, nas publicações em redes sociais, rádio e TV, isso sem falar no volume exponencial de venda de relatórios e cursos. Em 2021 devemos seguir essa tendência de crescimento, e, é aí que mora o perigo.

Partindo da premissa de que a maioria dos investidores tem ou deveria ter horizontes de investimentos longos, sabemos que o foco não deveria estar no “investimento do ano”. Sabemos também dos desafios psicológicos e até sociais do investidor, pois é muito mais divertido tentarmos achar, quase que como em um casino, a bola da vez. Rende muito mais assunto com amigos e familiares quando você sabe comentar sobre o fundo ou ativo com melhor rentabilidade nos últimos 12 meses, ou melhor ainda, dizer que investiu nele.

Nessa euforia, esquecemos muitas vezes que há diversos estudos consolidados, desde, pelo menos, a década de 1980 com Gary Brinson e seus colegas, passando por Roger Ibbotson e Paul Kaplan mais tarde nos anos 2000, sem falar no renomado gestor do endowment da Universidade de Yale, David Swensen, que tratam dos fatores que respondem pelo retorno de um portfolio de investimentos e quanto cada um deles tipicamente contribui em janelas mais longas de tempo.

Em linhas gerais, aproximadamente 90% do retorno total de um portfólio de investimentos vem do retorno da política de alocação de ativos (“asset allocation”) combinada com o retorno dos respectivos mercados alocados. O restante, cerca de 10% vem da gestão ativa do portfólio (“market timming”). Esses percentuais podem ser decupados por meio da análise minuciosa dos artigos e estudos publicados, mas com esses números já conseguimos ter um pano de fundo importante para o que a maioria dos investidores me parece ainda não ter se atentado: foquem mais seus esforços em suas políticas de investimentos e menos em ficar entrando e saindo do mercado, comprando e vendendo ativos, tentando “gerir os gestores de fundos”.

Comece por um bom orçamento familiar, entendendo suas receitas, mas principalmente suas despesas e compromissos (pagamentos) futuros. Faça sua (agora tão famosa) reserva de emergência, que tem características específicas, mas o tamanho dela pode ser variado para cada um dependendo do seu ciclo de vida e objetivos.

Não se limite a se colocar em uma caixa com o rótulo “conservador”, “agressivo” ou “moderado”. Entenda qual nível de retorno necessário para alcançar suas metas, depois analise os riscos que precisarão ser incorridos para atingir esse retorno. Se não o deixar confortável, faça ajustes, pense em alternativas como aumentar o volume de recursos investidos, cortar despesas ou estender seu horizonte de investimento.

Todas essas informações e outras mais serão extremamente relevantes para definir não ‘uma’ política de investimentos, mas ‘a melhor’ delas para você. Aquela que se enquadra, exatamente, não só ao que você precisa, mas a que você consegue conduzir com disciplina ao longo do tempo. E esses serão os 90% do retorno da sua carteira. Entretanto, não menos importante, devem ser bem definidas as políticas para os tais 10% do retorno que virão da gestão ativa do portfólio. Defina quais são as regras para você comprar e vender um ativo, talvez quando oscilem mais de 10% ou 20% em um período de 15 dias, por exemplo. Tenha uma reserva de liquidez para aproveitar as oportunidades táticas, aquelas que normalmente as crises nos trazem.

Faça revisões periódicas dessas políticas, porém não é o ano novo que determina isso e tampouco as oscilações de mercado, mas a principal variável a ser lavada em conta é a sua vida. Ela é quem vai ditar as regras sobre essas mudanças: nível de despesas, tamanho da reserva de emergência, da reserva de liquidez para oportunidades, do retorno esperado da carteira, da tolerância a risco, e por aí vai.

Como já podem ter percebido, são múltiplas as informações necessárias para levarmos em consideração, o que faz o trabalho não parecer tão simples como muitos imaginam. Que tal admitir que uma ajuda profissional pode e deve ser crucial para obter êxito? Ter uma estratégia bem definida e segui-la à risca, com disciplina, tem sigo a grande fórmula de sucesso no longo prazo dos renomados investidores, mas infelizmente muita gente ainda prefere acreditar na “oportunidade do ano”.

Rodrigo Sgavioli, CFP® é o Head de Planejamento Patrimonial da Taler Gestão de Patrimônio desde 2019. Há 15 anos no mercado financeiro, foi o responsável pela área de expansão e atendimento a Planejadores Financeiros CFP® da Alocc Gestão Financeira. Atuou na área comercial da J. Safra Asset Management e foi sócio responsável por relações com investidores da gestora Capitânia de 2006 a 2011. É formado em Engenharia Mecatrônica pela Escola Politécnica da USP.

A Taler Gestão de Patrimônio é uma empresa independente de gestão e planejamento de patrimônio fundada em 2005 com mais de R$4 bilhões sob gestão em ativos locais e internacionais. Possui escritórios nas cidades de São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte.

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