A Ressureição da Renda Fixa? Isso não necessariamente é o mais importante

Um projeto personalizado, estruturado e de longo prazo é um robusto caminho constantemente atrapalhado por modismos, manchetes e impaciência

Nos últimos anos foi muito comum ver youtubers, especialistas e instituições trabalharem manchetes como “O Fim da Renda Fixa” ou “A Morte do CDI”. Milhões de pessoas foram estimuladas a mudar o padrão de suas aplicações financeiras de forma repentina e radical. Aceitar temporariamente uma remuneração baixa vinculada a Taxa SELIC de 2,00% ao ano, mesmo que apenas para uma parcela de seus recursos, seria algo inaceitável.

Neste período, tive contato com investidores que estavam desestruturando suas reservas de liquidez para emergências, pois se encontravam totalmente direcionados para portfólios agressivos (sem nunca terem vivido essa experiência anteriormente) e obcecados por rentabilidades mais elevadas. Importante citar que em nenhum destes casos ocorreram alterações nas vidas dessas pessoas para que suas reservas de liquidez fossem reduzidas. Todas as potenciais necessidades de utilização de dinheiro ainda estavam presentes. Eram apenas casos de ansiedade e ambição que distanciariam ainda mais esses indivíduos de um projeto financeiro sólido e seguro. Quantificar e alocar com precisão as reservas de caixa de uma família são a base para o sucesso de qualquer planejamento.

Investidores iniciaram uma busca desesperada e superficial por todos os tipos de investimentos agressivos para tentar conquistar retornos mais elevados. Faria sentido um movimento tão intenso para responder a uma situação temporária da economia brasileira de juros excessivamente baixos por uma janela entre 12 e 24 meses? Será que todo investidor impactado por campanhas publicitárias bem elaboradas a favor da tomada de riscos a qualquer custo (importante citar que os instrumentos mais agressivos e sofisticados geram normalmente as maiores receitas e pagam os maiores comissionamentos) foi devidamente alertado e preparado para lidar com adversidades por períodos mais longos (durante meses e até mesmo anos de resultados negativos ou inferiores aos benchmarks) ou com fracassos estruturais e perdas definitivas de dinheiro que vários investimentos agressivos podem proporcionar? Apenas como exemplo, essa possibilidade de perda estrutural poderia ocorrer com um crédito privado agressivo, com a ação de uma companhia, com fundos imobiliários, com uma cripto moeda ou com empresas investidas de um fundo de Private Equity.

Se para alguns a única motivação para a tomada de riscos foi o CDI no patamar de 2,00% ao ano, o que esses mesmos indivíduos deveriam fazer com o novo cenário de juros que se desenha pela frente, com a possibilidade de fecharmos 2021 em 5,00% ao ano, seguidos por altas adicionais em 2022 que poderiam colocar a taxa de juros no Brasil em torno de 6,00% ou 6,50% ao ano? O correto seria desmontar as posições agressivas e voltar para o conservadorismo da renda fixa?

Após a expressiva elevação da curva de juros futuros ocorrida no país nos últimos meses motivada por uma maior expectativa de inflação, mas também estressada por problemas políticos, maior intervencionismo e, principalmente, pela dificuldade de estruturação de um plano que encaminhe a solução do grave problema fiscal no Brasil, já é possível comprar títulos públicos prefixados com prazos entre 2 e 5 anos com rentabilidade entre 6,70% e 8,50% ao ano ou com juros reais entre 2,10% e 3,50% ao ano + IPCA. Ativos de crédito privado bancário ou corporativo não financeiro, até mesmo de alta qualidade de crédito, oferecem taxas ainda mais superiores à atual Taxa SELIC. Esses comentários não representam sugestões de alocação, dados os riscos crescentes acima citados, mas apenas uma constatação de que o mercado de renda fixa é amplo e extremamente dinâmico, com oportunidades para os portfólios de diversos perfis de investidores.

Vale ressaltar que o processo de amadurecimento e aprofundamento financeiro dos investidores é um movimento fundamental para viabilizar o sucesso patrimonial das famílias e indivíduos. Aprender a lidar com operações mais sofisticadas, instáveis, agressivas e voltadas para o longo prazo será de grande importância para todos.

No entanto, é necessário trabalhar de maneira planejada, com uma abordagem didática e consciente para que os investidores vivam uma experiência saudável, sem retrocessos e evitando prejuízos desnecessários em seu processo de modernização e de tomada de riscos. A parceria com empresas e profissionais especializados, independentes e isentos de conflitos de interesses que estejam do mesmo lado da mesa que o cliente pode ser fundamental neste processo.

Investir, planejar as finanças e garantir o futuro são atividades complexas e desafiadoras. Sem dúvida é algo personalizado e sem uma receita padronizada. Evitar a busca de produtos da moda, a influência de manchetes apelativas, fugir de rankings e de visões de curto prazo e acreditar que não existem atalhos mágicos já ajudará muito a evitar perdas recorrentes de tempo e de dinheiro. Acredite que você, sua família, suas preferências, necessidades e sonhos devem sempre estar no centro das discussões. Gradualmente virá o amadurecimento como investidor e o caminho para o sucesso patrimonial estará cada vez mais próximo.

Fabio Freitas, CFP ® é Economista formado pela Universidade Federal Fluminense, Consultor de Valores Mobiliários e Sócio Fundador da Progredir Investimentos responsável pela Estratégia e Alocação de Recursos. A Progredir Investimentos é um Multi Family Office fundado em 2010. Atua de forma independente e isenta de conflitos de interesses, integrando investimentos e planejamento financeiro e patrimonial de famílias com no mínimo R$ 1 milhão em liquidez.

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