Vergonha e honra: como o comando do Carrefour pode expiar os pecados

A renúncia da cadeia de comando pode ser a solução após a morte de João Freitas numa loja da empresa

Quando eu era menino, na década de 50, sem televisão e sem telefone, meu vício era a leitura. Tinha feito uma casinha em cima de um salgueiro à beira de um córrego cantarolante na fazenda onde cresci e aí passava as tórridas sestas de minha Mendoza natal devorando todos os livros que conseguia, principalmente os de Louisa May Alcott, Júlio Verne e Emílio Salgari. Acho que li todos os títulos deles entre os oito e os quinze anos de idade.

O Capitão Tormenta, de Salgari, é uma vívida descrição novelada das cruzadas, uma longa batalha entre europeus e otomanos pela cidade da Famagusta, no Chipre. Além de gostar do imaginário cavalheirismo entre rivais, uma imagem que ficou depois de cinquenta anos voltou ontem.

Quando algum oficial otomano cometia um ato vergonhoso, recebia do sultão uma bela caixa incrustada em madrepérolas, contendo uma fina corda de seda preta. O recado do sultão era claro: “se não quiser ser vergonhosamente executado em Constantinopla, peça para um colega lhe estrangular discretamente com este presente meu e sua honra será restaurada”.

Salgari era um veronês que nunca conheceu o mundo e era muito imaginativo. Mas na mesma época em que ele viveu, os samurais que sofriam uma grande vergonha, acudiam ao doloroso seppuku para lavar sua honra com o suicídio.

Ontem, o presidente mundial do Carrefour mandou uma caixa de madrepérolas para a gestão da empresa aqui no Brasil – na linguagem corporativa multinacional moderna, é claro.

Foi depois de um ser humano ser brutalmente assassinado frente às câmeras populares por funcionários do Carrefour dentro de uma propriedade dele. Foi também vinte meses depois de terem matado a pauladas uma cadelinha vira-lata nas propriedades da mesma empresa. A gestão local certamente vai trocar os terceirizados, colaborar nas investigações, des-terceirizar a segurança, retreinar todo mundo, adotar a família da vítima e tudo o que o gabinete de crise estiver desesperadamente pensando neste momento para evitar a vaporização da reputação e o impacto nas vendas.

Mas não é suficiente.

Em 1998 o deputado japonês Shokei Arai se suicidou antes de ser detido por extorsão. O ministro da fazenda japonês Toshikatsu Matsuoka enforcou-se com a coleira do cachorro em 2007 por ter sido descoberto recebendo dinheiro de corrupção.

Na nossa cultura não existe o suicídio ritual. E que nunca exista! Mas a nossa versão, no mundo corporativo, deve ser a renúncia da cadeia de comando. Todos falharam, e todos devem expiar estes horríveis pecados colocando seus cargos à disposição.

É uma histórica oportunidade de lavar a vergonha e recuperar a honra.

*Victor Baez é consultor de empresas

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