O valor real de um IPO

Abertura de capital aumenta a visibilidade e a reputação das empresas, além de facilitar acesso ao mercado para captação de recursos para investimentos

Por Rogerio Santana*

Os IPOs estão novamente sob os holofotes. Desde o início de 2020, a B3 registrou mais de 50 ofertas desse tipo. No Brasil, o recorde de IPOs (“Initial Public Offerings”) ocorreu em 2007, com 64 operações – mas os tempos eram outros. A taxa básica de juros (Selic) oscilava na casa dos 12% anuais, bem acima dos atuais 3,5%.

Essa queda na taxa de juros básica reduziu a atratividade perante os olhos do investidor de alguns produtos de renda fixa. Como resultado, vimos um volume inédito de novos investidores ingressando no mercado acionário, mesmo durante a pandemia iniciada em março de 2020. Essa nova demanda dos investidores por ativos de renda variável deu um novo impulso às ofertas de ações em bolsa.

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Há várias causas para o fenômeno. O nível dos juros – o mais baixo da história brasileira – é a explicação mais comum para o pequeno boom de IPOs e investidores. Mas não a única. É preciso lembrar que a tecnologia vem tornando muito mais simples o processo de investimento por parte das pessoas físicas.

Além disso, nunca houve tanto conteúdo disponível sobre educação financeira e o mundo dos investimentos, graças ao trabalho da imprensa, de influenciadores digitais, corretoras, reguladores, da própria bolsa e demais participantes do mercado. Portanto não são apenas os juros que tornam a maré favorável. O mercado de capitais tem se tornado cada vez mais democrático.

Diante disso, surgem especulações e receios. Qual será o próximo IPO? Quais setores irão liderar as ofertas? Essa onda é, afinal, sustentável?

São todas questões relevantes. Porém valeria a pena considerar também outras perguntas, aquelas que frequentam com menos assiduidade os cadernos de economia ou os relatórios dos analistas financeiros: qual o custo para manter como companhia aberta? Como ter sucesso em uma oferta pública inicial? Em quais circunstâncias vale a pena ter uma companhia listada em bolsa?

Essas são, afinal, as questões mais importantes para os verdadeiros protagonistas dos IPOs, os fundadores, os sócios e os gestores das empresas.

Não há duas empresas iguais. Cada uma tem objetivos próprios e, para alcançá-los, recorre à modalidade de financiamento que lhe parece mais adequada. O IPO é uma delas, e o mercado oferece alternativas para todos – da produtora de commodities, com faturamento bilionário, até a startup promissora, cuja receita ainda é de poucos milhões ao ano. Cabe a cada empreendedor avaliar vantagens e desvantagens da abertura de capital para decidir o melhor para sua companhia. No entanto alguns dados podem orientar essa decisão.

Uma das funções básicas de um IPO é a possibilidade de a companhia captar recursos de investidores para projetos e expansões, como investimentos em novas unidades produtivas, ampliações ou mesmo aquisições. E a possibilidade de captar recursos não se resume a companhias que buscam recursos na casa dos bilhões de reais.

A consultoria Deloitte, parceira da B3, realizou uma pesquisa com dezenas de empresas de capital aberto e apurou que mais da metade delas captou no mercado montantes acima de 500 milhões de reais com o IPO. Para apenas 10% dessas empresas, o valor ficou acima dos 2 bilhões de reais. A mesma pesquisa também afirma que mais de 90% dos gestores consideram a abertura de capital como a melhor estratégia de captação de recursos.

Mas, uma vez realizado o IPO, quais seriam os custos para se manter como uma companhia listada em bolsa? No mesmo levantamento, a Deloitte concluiu que, para empresas com faturamento anual inferior a 300 milhões de reais, a média dos gastos com a manutenção do capital aberto é de 800 mil reais ao ano, ou seja, cerca de 0,3% do faturamento.

Já entre companhias com receita líquida superior a 2 bilhões de reais, esses custos são, em média, de 3,85 milhões de reais, ou menos de 0,2% do faturamento. Em outras palavras, o custo de manutenção como companhia aberta varia de acordo com o porte da empresa.

Mesmo assim, a decisão de realizar um IPO não pode se resumir aos fatores preço e custo. A decisão de obter recursos por meio da oferta de ações traz também vantagens intangíveis, para além da captação dos valores. Quase 80% dos gestores apontam o aumento de visibilidade no mercado como um dos principais benefícios de um IPO.

Outras vantagens mencionadas frequentemente são a melhoria de processos e controles internos da empresa, a maior facilidade para continuar captando recursos e atraindo investidores após a oferta inicial e a capacidade de reter talentos.

Em suma, a listagem na bolsa traz um ganho para a reputação da empresa. Embora esse seja um valor que não pode ser facilmente precificado, ele exerce enorme influência sobre o desempenho concreto de qualquer companhia.

O valor de estar na bolsa é válido para um grande varejista que pôde adquirir uma operação de e-commerce complementar aos seus negócios sem utilizar recursos do caixa, pagando pela aquisição com ações próprias, em um processo relativamente rápido e ágil. Assim como também é válido para uma startup que, devido aos mecanismos de controle e governança exigidos para a listagem na B3, foi capaz de conquistar a confiança do mercado para estabelecer parcerias estratégicas.

Pesquisa recente do Valor Data apontou que das 170 empresas que estrearam na bolsa entre 2004 e 2019, 107 continuaram listadas, sendo que 101 delas ampliaram sua receita líquida. A maior parte das demais só não permaneceu listada porque, muitas vezes, passou por fusões ou vendas – processos, aliás, que pode ser facilitado pelo fato de a companhia ser listada em bolsa.

Isso confirma que a abertura de capital é mais do que apenas uma modalidade de captação de recursos que tem sido cada vez mais considerada pelas empresas. Embora 70% dos gestores afirmem que esse foi um motivo decisivo para a realização do IPO, cresce também a noção de que a listagem em bolsa é elemento estratégico de qualquer plano de crescimento.

A Deloitte apurou que, no momento do IPO, mais de um terço dos gestores preocupavam-se com futuras fusões e aquisições, com a sustentabilidade do negócio a longo prazo e com a redução do custo de capital. Sinais claros do amadurecimento do mercado brasileiro.

A abertura de capital amplia a notoriedade de uma empresa, franqueando-lhe o acesso a milhares de novos sócios, contribuindo para o crescimento, o fortalecimento e a perenidade do negócio. É animador, portanto, que tantas companhias, de diferentes portes e setores, estejam enxergando no IPO um mecanismo de agregação de valor. Ganham as empresas, os investidores, o mercado de capitais e toda a economia brasileira.

*Rogerio Santana é diretor de Relacionamento com Clientes da B3.

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