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O que nos dizem os preços das ações

É bastante vento contra, mas será que o suficiente para justificar a liquidação corrente?

Por: Igor Barenboim*

O anúncio do desejo do governo de rever o teto de gastos para cima foi a pá de cal para o preço das empresas brasileiras. Elas estão sendo negociadas a preços promocionais se levarmos em conta padrões históricos.

De fato, tivemos uma sucessão de notícias negativas no último quadrimestre além do já anotado maior apetite para gastos públicos por parte do governo. A lista de más notícias é composta de pelo menos as seguintes pautas: (I) redução do crescimento chinês por conta dos excessos no mercado imobiliário, (II) redução dos estímulos monetários nos países centrais por conta da inflação mais alta por lá, (III) aperto monetário relevante no Brasil por conta da inflação elevada com consequência negativa para o crescimento do ano que vem aqui nos trópicos. 

É bastante vento contra, mas será que o suficiente para justificar a liquidação corrente?

O ser humano tem alguns vieses comportamentais muito bem documentados.  Por um lado, costumamos projetar o futuro extrapolando as tendências correntes, então se a vida está difícil ficamos pessimistas e projetamos que isso deve perdurar. Por outro temos memória curta e sempre damos peso para o evento mais recente.

Então, só compramos seguro de viagem quando estamos no aeroporto, fazemos seguro de enchente depois que chove. E, quando enfrentamos uma crise, costumamos nos basear no último episódio para entender o que está ocorrendo.

As empresas brasileiras negociadas na B3 estão valendo sete vezes o lucro delas projetado para o ano que vem. Contra um histórico médio de doze vezes. Uma outra forma de ver o número é lucro dividido pelo preço que dá um percentual retorno implícito de mais de 14% ao ano em termos reais, num mundo em que os juros reais ainda são negativos no mundo e as principais bolsas mundiais negociam próximas dos seus picos, podemos dizer que vivemos uma aberração na Ilha de Vera Cruz.

Analisando os preços pela lente dos vieses comportamentais que elencamos acima, de fato tivemos uma sucessão de notícias negativas recentemente que nos colocou numa trajetória pessimista. Mas talvez mais importante do que isso, nós novamente estamos sendo confrontados com o desafio fiscal que colocou o Brasil na pior recessão e sua história que culminou com o impedimento da presidente Dilma. Nossa memória é muito trágica ao lidarmos com esse assunto.

Embora a questão fiscal seja importante e desafiadora, estamos vivendo um momento muito diferente de 2015/2016. O teto mais alto irá representar um gasto maior em 1 ponto percentual do PIB e no novo regime, se aprovado pelo congresso, seguiremos com um mandamento constitucional travando o gasto. Isso é diferente das sucessivas desonerações fiscais e pedaladas que deterioram nosso primário em mais de 5 pontos percentuais do PIB na década passada. Claro que é uma deterioração do quadro, mas diante do que tínhamos no meio da pandemia, estamos em uma situação até favorável e penso que ainda contornável.

Na última crise econômica que tivemos antes do COVID, mergulhamos em uma recessão profunda não só porque o estado teve que se retrair, mas porque a forma de fazer negócios no país foi questionada através da Lava-Jato com o encarceramento de atores macroeconomicamente relevantes no cenário nacional e a falência de empresas gigantescas. Agora teremos sim um crescimento pífio em 2022, talvez uma pequena recessão, mas não uma destruição permanente de capital como tivemos naquele episódio.

A queda de 25% na bolsa, leva em conta uma redução permanente do crescimento potencial da economia brasileira e um aumento significativo e permanente do juro real muito provavelmente por conta de nossos vieses comportamentais de extrapolação de tendência e representatividade dos últimos eventos. Não estou convencido que o cenário que está nos preços seja o mais provável. Penso existir bastante assimetria, afinal, independente do resultado da eleição ano que vem, todas as matizes partidárias já aprenderam o valor da responsabilidade fiscal.

*Igor Barenboim é sócio diretor da Reach Capital e Professor da Escola de Economia de São Paulo da FGV

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