O Centrão é o novo posto Ipiranga. E? Ótimo!

Na última quarta feira, 23, o titular oficial do ministério da Economia, Paulo Guedes, protagonizou uma cena emblemática na coreografia do poder

Na última quarta feira, 23, o titular oficial do ministério da Economia, Paulo Guedes, protagonizou uma cena emblemática na coreografia do poder. Estava ele numa coletiva falando sobre questões tributárias quando, delicadamente, foi tangido pelo líder do governo na Câmara, deputado Ricardo Barros, e pelo ministro responsável pela articulação política, Luiz Ramos. O ministro foi interrompido. O ministro da Economia parou de falar de…economia. E?

Foi suficiente para que as sirenes de histeria que ensurdecem metodicamente Brasília e o mercado decretassem o passamento do posto Ipiranga 01 do atual governo. Nada mais verdadeiro e simultaneamente mais simplista. Por favor, pegue o copo, o lápis e uma folha de papel. Vamos desenhar. O novo ministro da Fazenda chama-se Centrão. Sim senhor. Novo ministro da Fazenda, da Infraestrutura, põe quantos ministérios quiser aí. Ou pode chamar de “governabilidade”.

Havia uma “falha de São Francisco” que ameaçava trincar as placas tectônicas do governo Bolsonaro, em seu início, e provocar um terremoto. O “general-presidente” existiu até a Constituição de 1988. Depois dela, criou-se o Frankenstein do “semi-presidencialismo: metade do poder presidencial está com o presidente, metade com o Congresso. O presidente Bolsonaro tentou ser um “general-presidente” sem decretos leis, sem atos institucionais, sem regimes de força, na democracia. Resultado? Curvou-se ao óbvio e entendeu que ou era a convivência com o parlamento ou “tchau querido”, talquei?

A consequência lógica da “morte” do “general-presidente” é a extinção de outra figura dos regimes de força, “o superministro”. O posto Ipiranga agora é o Centrao, é a base de sustenção do governo. Ou falando de uma forma mais suave: o posto Ipiranga não está mais instalado no Executivo. Mas no Legislativo.

E Paulo Guedes? Acabou? Não! É um importante propositor de ideias, um importante adaptador de soluções políticas de temas econômicos, enfim, um agregador. Agora, esqueçam Guedes como um novo Delfim por um simples motivo: Bolsonaro não é um novo Médici. E isso é ótimo! O governo perdeu a condução da política econômica? Não! Poderá propor. Mas terá de ouvir e fazer ajustes. O Brasil perde com isso? Não! A base do governo é pró-reformas, modernizadora, liberal. Então o que muda? Muda que as coisas ficam mais verdadeiras: no semipresidencialismo, não há superministros. Não na democracia. E quanto mais claras as coisas são, mais previsíveis, embora viver no mundo das ilusões seja sempre mais confortável.

Até porque os simulacros de superministro, na democracia, foram todos farsas que viraram poeiras com seus planos megalomaníacos que não pararam de pé. Certo mesmo deu o plano Real, sem superministro, mas com o ex-senador e sibilino encantador de serpentes Fernando Henrique Cardoso, que aprovou o plano Real no Congresso, pela política, e depois ganhou a faixa presidencial de brinde.

O noticiário político especialmente e o econômico, em particular, precisam acabar com o mundo várias vezes por ano. E ressuscita-lo miraculosamente outras tantas, também. A rigor, no que concerne a Brasília, meu mais de meio século vivendo na cidade como um ácaro de Palácio me fazem cada vez mais descrer dos fatos súbitos, dos lances imprevisíveis, das balas de prata, sobretudo quando os temas são econômicos. A observação mostra que os grandes temas nacionais vão “amadurecendo”, ganhando contornos, consistência, vida, como numa longa gestação, através de legislaturas e mandatos. Brasília está mais para um aterro do que para um cassino. As camadas vão se sedimentando. A adrenalina das roletas existe mais no noticiário do que na capital.

 

Mario Rosa é jornalista escritor e palestrante

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