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COP26: Todas as mãos precisam estar no convés

A boa notícia é que ainda podemos virar a mesa e mudar muita coisa. Contudo, é necessário reagirmos o mais rápido possível

Christian Bruch, CEO e Presidente da Siemens Energy

O mundo parece estar fora dos trilhos: os efeitos das mudanças climáticas causadas pelo homem são enormes e já estão levando várias regiões à beira de um colapso. Eventos climáticos extremos, como os que ocorreram ao redor do mundo neste ano, ameaçam se tornar padrão, o que nos leva a uma perspectiva nada boa para o futuro.

O Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas já alertou que a temperatura média da Terra pode subir mais de 1,5 grau antes de 2030, ou seja, a meta climática de Paris, acordada por cerca de 200 nações em 2015, seria, portanto, em menos de oito anos. Dentro desse cenário, a promessa feita por cerca de 200 países de salvar o mundo do colapso seria inválida.

A boa notícia é que ainda podemos virar a mesa e mudar muita coisa. Contudo, é necessário reagirmos o mais rápido possível. Declarações de intenções e a superação inflacionária de metas sem as medidas correspondentes não são mais suficientes. Quem promete neutralidade climática para 2050 deve dizer hoje o que pretende fazer em um, cinco ou dez anos.

Se o evento de Glasgow vai realmente marcar o início da década de implementação, somente poderá ser avaliado quando a Cúpula Mundial do Clima terminar. Entretanto, parece que as esperanças depositadas na COP26 não se concretizarão. O que devemos tirar de Glasgow é o compromisso de conseguir mais do que pode ser descrito apenas pelas declarações finais.

No topo da lista de tarefas para uma grande parte dos países está o compromisso com a descontinuidade do uso do carvão. Cerca de 70% das emissões globais de CO2 provenientes da geração de eletricidade são causadas por usinas de energia a carvão. De acordo com a think tank E3G sediada em Londres, a quantidade de novas usinas a carvão planejadas em todo o mundo caiu em dois terços desde a cúpula do clima da ONU em Paris em 2015, entretanto, vários países influentes ao redor do mundo ainda dependem do carvão. Não há dúvida: essa descontinuidade gradual custará dinheiro e será um esforço internacional.

Nesse cenário, o potencial do Brasil, com sua matriz energética majoritariamente renovável, se destaca. O país tem a capacidade de exportar energia verde para o resto do mundo e ser um dos grandes protagonistas da transformação energética global. Um futuro de energia limpa com hidrogênio, por exemplo, poderia estar mais perto do que pensamos, mas depende fortemente do ambiente regulatório e político.

Sem barreiras tecnológicas

O Reino Unido mostra que é possível uma descontinuidade gradual mais rápida do carvão. Bem a tempo para a cúpula mundial do clima em Glasgow, a participação do carvão na matriz energética caiu para o nível mais baixo de todos os tempos; o combustível fóssil ainda é responsável por pouco menos de 2% do mix de eletricidade - Há dez anos, representava cerca de 40%. Boris Johnson e sua confederação de estados querem descontinuar completamente a geração de energia a carvão em apenas três anos. Tais medidas estão surtindo efeito: nos últimos 30 anos, as emissões provenientes da geração de energia no Reino Unido caíram quase dois terços.

O Reino Unido conseguiu isto não apenas com o aumento do uso de energias renováveis (e da energia nuclear), mas também com o uso de gás natural. Enquanto grupos de ambientalistas criticam o uso desde combustível, o fato é que o gás natural pode sim ajudar a reduzir significativamente as emissões de CO2imediatamente. Claro, quanto mais energias renováveis, melhor. Mas as quantidades disponíveis estão longe de serem suficientes para atender às necessidades mundiais por eletricidade. Se o gás nos ajuda a construir uma ponte, reduzindo as emissões de CO2 em cerca de dois terços, em comparação com o carvão, garantindo ao mesmo tempo a segurança do abastecimento, então devemos usar essa ponte. O gás ainda será a abordagem correta daqui a 25 anos? Provavelmente não. Mas devemos parar de falar sempre sobre metas de longo prazo e agir imediatamente.

Outro fator importante para o sucesso de Glasgow será se os países industrializados cumprirão sua promessa de apoiar a transformação energética de nações mais pobres com USD 100 bilhões anuais. Isso foi decidido pela primeira vez em 2009 na Conferência Mundial do Clima em Copenhague, e o dinheiro deveria começar a fluir em 2020. Entretanto, esse fato não ocorreu de forma eficiente; especialistas estimam que a meta de USD 100 bilhões por ano não será atingida nos próximos dois anos. Por isso, os países mais pobres precisam urgentemente de apoio, e não apenas para a descontinuidade gradual do uso do carvão. Os efeitos da mudança climática são distribuídos de forma desigual, sendo que os países em desenvolvimento e o hemisfério sul, incluindo o Brasil, são os mais afetados. Esse fato não só foi afirmado no Acordo de Paris, como também é uma obrigação moral dos países industrializados, que construíram sua prosperidade ao longo de décadas às custas do meio ambiente e, portanto, às custas dos países mais pobres.

Uma década de ação – vai depender de nós

Finalmente, não podemos evitar a introdução consistente de um preço de CO2 se agirmos de forma séria. Sem os incentivos apropriados, o comportamento não mudará, nem dos países individualmente nem da indústria. Qual deveria ser o preço por tonelada, para fazer algum efeito, pode variar de setor para setor. Já existem estudos e opiniões suficientes de especialistas sobre o assunto. Entretanto, é importante que haja um sistema comum de preços justos no maior número possível de regiões, que leve em consideração a concorrência internacional e evite os encargos sociais e, portanto, a divisão da sociedade, por meio de mecanismos de compensação.

No Brasil, o setor privado já vem expressando a necessidade de implementação de um mercado nacional de carbono. O Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável (CEBDS) destaca que a transição para uma nova economia de baixo carbono posicionaria estrategicamente o enorme potencial do Brasil para energias renováveis ​​e inovação tecnológica global, criando um ambiente favorável para a produção e exportação de hidrogênio verde.

Não devemos aceitar ficar abaixo da reivindicação original. Não importa o que os representantes em Glasgow decidirem, no final também cabe a cada um de nós voltarmos aos trilhos e mudarmos as coisas ao nosso redor. Cada político, empresa e, em última análise, cada consumidor tem uma responsabilidade. É necessário um consenso social de que a mudança é necessária e positiva e que a sustentabilidade tem valor. Já estamos no meio da tempestade e, nesse momento, mais do que nunca, precisamos de todas as mãos no convés.

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