Mito da Mulher Perfeita

A igualdade não é errada. Não deve ser temida. Combatida. A igualdade liberta não só as mulheres, mas os homens também

Estamos em pleno ano 2020, mas, segundo o Fórum Econômico Mundial, ainda precisamos de 99,5 anos para eliminar a desigualdade de gênero. Ocupamos a 92ª posição no ranking do índice Global de Desigualdade de Gênero entre os 153 países analisados. O interessante disso é que somos vistos como o país da euforia, do brilho, da nudez. Somos confundidos pelo país da liberdade. Mas isso não passa de uma fantasia de Carnaval. Somos um dos países que mais lutam para manter estruturas sólidas do que é certo ou errado. Dos costumes tradicionais. Onde o feminino nada mais é do que uma construção masculina. Um dos maiores preconceitos vistos na história. Afinal, mulheres, quem somos nós além de uma construção do que deveríamos ser? Está aí o motivo do Mito da Mulher Perfeita – esse conjunto de padrões e estereótipos, de corpo e comportamento, que fomos condicionadas a pensar ser o certo, mas que ainda tolhe nossa potência. Tolhe a potência do mundo. E por isso estamos aqui na busca por uma única coisa: igualdade.

Se olharmos para a história, a figura mais antiga que representa uma mulher é a Vênus de Willendorf, uma estatueta que estima-se ter 24 mil anos, com seios e barriga grandes, vulva ressaltada – sem braços. Características que nos mostram que o feminino é representado por seu corpo fértil. Somos nosso corpo. Somos nossa fertilidade. E é assim que até hoje ainda somos colocadas. Um ser que seu único objetivo deve ser o de ser mãe, casar e atingir um padrão ideal de beleza. Outra obra que me chama atenção para esse aspecto é o Nascimento de Vênus, de Botticelli. Essa obra mostra uma mulher que cobre levemente seus seios e sua vulva, tem cabelos longos e um olhar distante, sem voz. Ela está em cima de uma concha, símbolo da genitália feminina. O que Botticelli representa nessa obra? De novo, uma construção de um ideal de beleza, mas agora vemos uma mulher que se cobre. Uma mulher que não pode mostrar totalmente sua sexualidade. E seu olhar distante mostra fragilidade, vergonha, como se tivesse um nó na garganta sem poder falar. Seu cabelo mostra ainda ser disponível. Ah, e como o cabelo diz tanto, ou tenta dizer, sobre a mulher! Até hoje ainda questionamos a mulher que deixa o cabelo natural e não alisado como diz o padrão.

Na Idade Média, por causa da forte influência da Igreja Católica, vemos mulheres retratadas como santas ou pecadoras. Vemos a mãe sendo representada como uma virgem, algo impossível para uma mulher real. Ou você é pura ou pecadora. Nunca somos mulheres de verdade. Essa influência segue marcando a sexualidade feminina até hoje. Pulando alguns anos, vemos a influência da mídia de como uma mulher “deveria” parecer. Das silhuetas mais curvilíneas como a de Marilyn Monroe e Sophia Loren à magreza acentuada, em alguns casos até esquálida, de top models a partir dos anos 1960 até o começo dos 2000. Período que coincide com o aumento de relatos de transtornos alimentares, dietas malucas e cirurgias plásticas. Sempre tivemos essa influência nociva do que seria uma aparência feminina agradável. E todas que não se encaixavam em padrões muitas vezes inalcançáveis sofriam ou tinha uma relação não saudável com seu corpo. Quem quiser conhecer mais, pode pesquisar a exposição “The Body: Fashion and Physique” (O Corpo: Moda e Físico), com curadoria de Emma McClendon, que retrata como ao longo dos anos uma indústria, que é a da moda, celebrou certas silhuetas, enquanto marginalizou ou estigmatizou outras. Até chegarmos à obra de Lucien Freud, com sua modelo Big Sue, que ousa fazer algo que rompe com tudo isso e mostra a mulher em sua humanidade. Mostra uma mulher confortável e feliz em seu próprio corpo. Mostra uma mulher sendo ela. Um respiro, uma alegria. Lembrar que somos de verdade. Só isso.

Pode não parecer, mas toda essa construção ainda tem grande efeito no nosso inconsciente e nossos costumes hoje. A mulher que decide não casar, falhou. A mulher que decide não ser mãe, deve ter algum problema. A mulher que decide seguir seus sonhos profissionais, abriu mão do seu destino: o casamento. Hoje já temos no Brasil o direito de votar (1932), de nos divorciarmos (1977) e fomos consideradas iguais aos homens em direitos e obrigações (1988). Somos líderes – poucas ainda, mas somos. E ainda existe um julgamento que vai além do nosso direito. Afinal, toda essa construção foi fruto de uma visão masculina sobre nós na arte, na bíblia, na moral. Isso é a cultura gritando o que podemos ou não ser. E aquelas que ousam ser diferentes, aquelas que ousam seguir sua verdade, vivem com culpa, medo e vergonha. E todo esse estudo, foi fruto de uma aula que dei durante a semana para a turma de direito da PUC, a convite de Valéria Scarance, promotora de justiça e coordenadora do Núcleo de Gênero do Ministério Público de São Paulo.

Schopenhauer uma vez disse que mulheres devem obedecer. E quando mulheres não faziam isso, como foi o caso das Suffragettes na luta pelo direito ao voto, elas sofreram violência, prisão e campanhas seríssimas que as retratavam como vilãs indo contra a tradição. Enquanto estavam na rua trabalhando nos movimentos por essa conquista, seus maridos eram retratados como vítimas: “Case-se com uma Suffragette” e na imagem estavam os homens cuidado dos afazeres domésticos e nos cuidados com os filhos com a casa bagunçada, crianças chorando abandonadas pela mãe. Só que vamos lembrar que ambos saíam para trabalhar, só que a culpa da casa e dos filhos era apenas da mulher. Isso talvez tenha tido pequenos avanços nos dias de hoje, mas essa realidade ainda é comum. São as mulheres ainda as responsáveis em levar os filhos ao médico. São as mulheres que ainda pedem desculpas pela casa não estar impecável. São as mulheres que hoje estão trabalhando, mas têm a tal da jornada dupla, tripla. São as mulheres que perdem seus empregos quando voltam da licença-maternidade. Quase 50% delas são demitidas no retorno. Segundo o IBGE, mulheres trabalham dez horas a mais em serviços domésticos do que os homens.

Tudo isso para dizer que mesmo hoje tendo os direitos previstos na lei, os costumes são duros com nós mulheres. Ainda seguimos a busca por uma perfeição de beleza, de casamento, de maternidade. Só que para isso precisamos anular quem somos. Precisamos oprimir nossa potência. E para que? Ou melhor para quem? Por que uma mulher livre ainda incomoda tanto? Por que uma mulher de sucesso ainda é motivo de questionamentos? Mesmo quando estudos da McKinsey demonstram que empresas com lideranças femininas têm um faturamento 15% maior do que empresas que não as têm. Mesmo quando mostramos que para uma sociedade com menos violência é preciso tirar a pressão do homem provedor, que não falha. Mesmo quando falamos que para uma sociedade mais justa e igual, mulheres precisam ser vistas. Não só como corpos férteis que estão ali para servir. Mas como potências que são parte da mudança que o mundo está pedindo.

Não somos perfeitas. Não precisamos ser. Somos seres imperfeitos que não querem mais caber em uma caixa. Queremos voar. Transformar. Queremos ser mulheres reais. Diferentes umas das outras. A igualdade não é errada. Não deve ser temida. Combatida. A igualdade liberta não só as mulheres, mas os homens também. Afinal, o mito da mulher perfeita não cabe mais nos tempos atuais. Ele cobra do homem a mesma perfeição. E quem quer viver nessa caixa? Como diz a campanha do Free Free com o Ministério Público, #A_GENTE muda o mundo juntos e juntas. Vamos nos libertar?

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