A Selic caiu para 4,25% ao ano, como isso impacta o seu bolso?

Spoiler: o ganho real da caderneta de poupança está negativo! Onde investir?

A taxa de juros é a remuneração do dinheiro no tempo, é o prêmio do poupador por ter postergado um consumo imediato. 

O objetivo do investidor é multiplicar seu patrimônio ao longo do tempo, e o fermento são os juros compostos (exponenciais), que serão aplicados ao “principal” (dinheiro investido).

Nesse contexto de queda da taxa de juros, as opções mais óbvias como Poupança – a queridinha dos brasileiros – e o Tesouro Selic ficaram menos atraentes. 

Cenário que vem tirando o brasileiro “rentista” da zona de conforto. O jogo mudou e quem não começar a se inteirar das regras básicas, vai perder dinheiro.

A primeira coisa que o investidor tem que entender é o conceito de taxa de juro real x taxa de juro nominal.

A taxa de juro real é igual a taxa de juro nominal descontada a inflação. 

A inflação corrói o nosso poder de compra. Isto é, o nosso dinheiro perde valor no tempo, já que os preços dos produtos/serviços sofrem reajustes. 

É por isso que deixar o dinheiro debaixo do colchão não é uma boa ideia. Temos que buscar alternativas que possam superar a inflação, isto é, que tenham uma taxa de juro real positiva.

O pulo do gato

O mercado funciona da seguinte forma: a taxa nominal é a taxa contratada ou oferecida pela instituição que negocia um ativo. É a taxa que você vê nas propagandas, publicada no jornal ou na tela do seu Home Broker.

Ninguém vai te alertar que essa não é a taxa real. E que dessa taxa contratada você deve descontar a inflação para descobrir qual é a taxa que vai (verdadeiramente) remunerar o seu investimento. Essa lição de casa é sua!

Lembrando que, para comparação de rendimento líquido, ainda devemos levar em consideração os custos e o IR do produto/prazo. 

Como calcular a taxa de juros real

Em tese, Taxa de Juro Real = Taxa de Juro Nominal – Inflação.

Esse cálculo é representado pela equação matemática: 

(1 + retorno real) = (1 + retorno nominal) / (1 + inflação)

Ao substituir os valores, utilize (de preferência) o IPCA como referência de inflação na equação acima.

Dinâmica de mercado

O Copom (Comitê de Política Monetária) se reúne a cada 45 dias, a fim de estabelecer as metas para a taxa básica de juros no próximo período. 

A taxa básica de juros também é conhecida como Taxa Selic. O Sistema Especial de Liquidação de Custódia é um sistema do Banco Central, usado para registrar e monitorar as operações atreladas aos títulos do Tesouro Nacional.

A maioria desses títulos é adquirida por grandes bancos, que por lei são obrigados a direcionar uma porcentagem de seus depósitos para uma conta do BC, que determina que os bancos fechem o dia com o caixa equilibrado. Com o objetivo de evitar que haja um excesso de dinheiro em circulação, a fim de controlar a inflação. 

A taxa Selic Overnight é uma média ponderada e ajustada que é divulgada diariamente. Na base ano, ela é a taxa Selic anual

A Taxa Selic é utilizada como um instrumento de política monetária, sofrendo manobras para que possa estimular a atividade econômica ou conter a inflação.

Como fica o rendimento da Caderneta de Poupança

Segundo o Boletim Focus, o mercado projeta uma inflação (IPCA – Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo) de 3,40% para 2020. Lembrando que em 2019, a inflação acumulada foi de 4,31%.

Com a queda da Selic – que diga-se de passagem está na mínima histórica – o rendimento da caderneta de poupança ficou bastante comprometido. Isso porque a caderneta paga 70% da Selic, quando essa taxa for igual ou inferior a 8,50% ao ano. Logo, o rendimento passaria para 0,25% ao mês ou 2,98% ao ano, bem abaixo da inflação projetada de 3,40% ao ano. 

Portanto, no cenário atual, o rendimento real da caderneta de poupança é de -0.40% ao mês (ISSO MESMO, É NEGATIVO). O que significa dizer que quem optar pela caderneta de poupança … vai PERDER dinheiro! 

(*) cálculo, Retorno Real = [(1+2,98%)/(1+3,40%)-1] x 100 = -0,4062%

ATENÇÃO: na sua conta você vai ter “mais dinheiro” (o equivalente a remuneração do ativo pelo prazo decorrido), esse é o chamado retorno nominal. Mas, no final do dia o que importa é o retorno real! Você terá perdido poder de compra …

MAIS ATENÇÃO: E ainda que o retorno real seja negativo, é melhor do que deixar o dinheiro debaixo do colchão, já que a taxa nominal seria zero.

E agora?

A queda da Selic não impacta apenas o rendimento da caderneta de poupança, mas aos produtos de renda fixa em geral.

Títulos do Tesouro, CDBs, LCIs, LCAs, Fundos renda fixa, DI e Debêntures, passam a ter retornos menores. 

Grande parte desses produtos sofrem a incidência de IR (a alíquota é de 22,50% para aplicações de até 180 dias, de 20% de 181 dias a 360 dias, de 17,5% de 361 dias a 720 dias e de 15% para prazos acima de 720 dias). 

Aplicações em renda fixa por períodos abaixo de 29 dias recolhem também o IOF (Imposto sobre Operações Financeiras), que tem uma tabela regressiva que vai de 96% a 3%.

Como fica o rendimento do Tesouro Direto

O Tesouro Selic está rendendo 3,18% ao ano nominal, o que equivale a uma taxa real de -0,21%. Contudo, devemos considerar além do IR, a taxa de custódia, que é de 0,25% ao ano. Siiiiim, uma taxa que é recolhida pela B3 pelo “serviço prestado” da guarda dos seus títulos públicos e manutenção da sua conta na plataforma (acesso a informações, movimentações dos saldos, etc).

No caso do Tesouro IPCA, que rende a inflação mais um tantinho, a taxa real obviamente será positiva. 

E nos Pré-fixados, a o retorno real também é positivo

A título de comparação, hoje um CDB que rende 100% do CDI, representa um retorno nominal de 3,32% e -0,08% real.

Muitos estão defendendo a tese de que agora devemos buscar por títulos de vencimentos mais longos, já que esses teriam uma alíquota de imposto menor a pagar. Vale lembrar, que quanto maior a duration (prazo ou time to decay) maior a volatilidade do preço de mercado do título.

Tenha em mente que a renda fixa não é fixa!

Sendo assim, será que o retorno vale o risco? 

O que justifica um investimento é a assimetria de risco. O que é o mesmo que dizer que devemos correr risco em investimentos que podem oferecer um grande potencial de retorno. E este não é mais o caso dos títulos do tesouro. (Lembrando que, rentabilidade passada não é garantia de rentabilidade futura)

A quotação dos Títulos do Tesouro oscilam/flutuam. E a “marcação a mercado” possibilita que em determinadas condições de mercado, seus detentores tenham retornos bastante expressivos.

Mas, não se engane! Você pode até não saber … mas está correndo bastante risco.

Claro, se o título for carregado até o vencimento, de fato, vai entregar o retorno prometido. O que não impede de ter sido um investimento ruim.

Fato que não temos como saber ex-ante (antes de acontecer).

Para onde correr? 

Depende!

Você deve levar em consideração o prazo do investimento, sua necessidade de liquidez e o seu perfil de risco. 

E, então, analisar produtos como Fundos Multimercado (atenção as taxas de administração e performance); Títulos de Crédito Privado (atenção a liquidez); Fundos Imobiliários; BOVA11 e SMAL11; um portfólio bem diversificado e apimentado com posições em ações; investimentos no exterior. 

Lembrando sempre que o mais importante … é uma boa alocação de ativos. 

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Cláudia Augelli

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