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Qual será o futuro do PSDB após as prévias?

Nesta semana, a temperatura chegou ao seu nível máximo e o desfecho da briga entre Doria e Leite deverá ser neste domingo

Aluizio Falcão Filho

Quando nasceu, o PSDB era uma resposta aos saco de gatos no qual havia se transformado o então PMDB – um partido que nasceu como oposição ao regime militar, mas que tinha sido contaminado pelo fisiologismo político. Dentro deste cenário, os tucanos surgiam como uma opção ideológica, cuja inspiração conceitual seria a social-democracia europeia.

O partido nasceu com algumas estrelas da esfera política: Fernando Henrique Cardoso, José Serra, Mario Covas e Franco Montoro. Também possuía, na largada, um grupo de deputados federais jovens, como o futuro governador Geraldo Alckmin. Pela profusão de nomes importantes, diziam naquele momento (final da década de 1980) que no PSDB havia muito cacique para pouco índio. As raposas felpudas que estavam nas demais siglas iam além e lembravam de outro clichê – que os tucanos estavam sempre às voltas com as labaredas que vinham de sua fogueira das vaidades.

Com o Plano Real, FHC foi eleito presidente e reconduzido ao cargo. Como sua administração foi marcada por um número significativo de privatizações, os tucanos receberam a alcunha de neoliberais. Nem todos eram favoráveis ao emagrecimento do Estado, mas o rótulo pegou por muito tempo.

O tempo foi passando e o PSDB acabou ganhando outra alcunha – o partido do muro. Seus representantes não davam declarações peremptórias. Muitos eram fiéis à orientação inicial, de social-democracia europeia (com forte estrutura estatal); outros, porém, acreditavam em uma política econômica liberal. Em relação à pauta de costumes, também havia discórdia: alguns acreditavam em propostas conservadoras, outros eram veementemente contra. Isso provocou um posicionamento neutro em diversos temas de discussão no Congresso. O colunista José Simão, inclusive, inventou um verbo para definir o ato de falar algo e não dizer nada, tomando cuidado extremo com o uso da palavras: “Tucanar”.

De 2002 a 2014, foi o partido que antagonizou com o PT as eleições brasileiras. Esse domínio, no entanto, foi quebrado em 2018, quando Geraldo Alckmin empacou na campanha presidencial e chegou apenas em quatro lugar, com pouco mais de 5 milhões de votos (Fernando Haddad obteve 31 milhões de sufrágios e foi para o segundo turno em disputa com Jair Bolsonaro).

A derrota de Alckmin ainda na primeira etapa mostrou as fragilidades do PSDB e abriu espaço para novos nomes, como João Doria e Eduardo Leite. Neste momento, contudo, o partido reviveu a disputa fratricida pela primazia de competir pela agremiação em 2022. Essa pendenga começou discreta e quase silenciosa, ganhando tração à medida que as prévias do partido foram marcadas para novembro de 2021. Nesta semana, a temperatura chegou ao seu nível máximo e o desfecho da briga entre Doria e Leite deverá ser neste domingo. Há quem aposte inclusive na saída do governador gaúcho, caso perca o pleito interno.

Deste episódio, percebe-se duas coisas. A primeira é o revival da fogueira das vaidades do passado. A segunda é a de que Eduardo Leite, embora seja um político sério e com boas intenções, não joga para o time. Suas acusações a Doria são graves e dão a entender que a ponte entre os dois foi dinamitada.

Esse é comportamento padrão entre os tucanos – com a diferença de que, antes, as disputas internas se manifestavam discretamente, em cochichos. Entre os “founding fathers” do partido, o único que de fato se sacrificava pela equipe era o ex-governador Franco Montoro.

A eleição de Fernando Henrique teve um efeito colateral forte no partido. Um sociólogo com porte de príncipe europeu ganhou as eleições sem saber falar a linguagem do povo. Na campanha, porém, teve de fazer concessões. No Nordeste, andou de burro (vestido com o chapéu de boiadeiro) e comeu buchada de bode. Não se fez de rogado. “É uma delícia. Vocês estão assim porque nunca moraram em Paris, onde esse é um prato sofisticado”, disse aos repórteres que o acompanhavam. No dia seguinte, a Folha de S. Paulo ouviu alguns chefs de restaurantes franceses. Nenhum deles tinha ouvido falar em um prato desses na gastronomia parisiense.

Se alguém como FHC conseguiu ser eleito sem grande identificação com o povo, por que outro tucano não conseguiria? Este foi o raciocínio dentro da sigla. Mas os caciques partidários esqueceram de um detalhe. Fernando Henrique, ao lançar o Plano Real e estabilizar a moeda virou uma espécie de herói. E foi com essa imagem que ele ganhou as eleições de 1994 e 1998.

A pergunta que nos resta a fazer: depois de domingo, o PSDB acabou?

O racha deve ocorrer. Caso Doria vença – e as chances são altas para que isso ocorra – o governador paulista irá para a disputa presidencial contra a vontade do alto comando tucano. Além disso, a possibilidade de Leite deixar o PSDB também é razoável. Mas há um detalhe que precisa ser levado em consideração. A verdadeira briga de Doria não é com Leite – e sim com o deputado Aécio Neves, que ainda possui grande controle sobre o partido.

Um desses grupos irá prevalecer durante o processo. Antes, o PSDB era um partido grande e podia abrigar várias tendências. No tamanho atual, porém, isso é bem mais difícil (o PSDB tem a sexta maior bancada da Câmara Federal, com 33 representantes; em 2002, no entanto, possuía 70 deputados federais). Quem vencerá a disputa ficará com o espólio do partido e terá de recomeçar a história da sigla. Ao perdedor? Restará a porta da rua.

 

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