Por que os artistas são de esquerda no Brasil?

A comparação é cruel em todos os campos artísticos: teatro, cinema, música ou literatura. Os melhores estão ao lado da esquerda

Aluizio Falcão Filho

Conforme mais e mais pesquisas mostram que a popularidade do presidente Jair Bolsonaro continua em queda e o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva parece ter sete vidas políticas para gastar, o PT se consolida como o adversário a ser batido pelos governistas. Neste cenário, começam a pipocar novamente vídeos que atacam o Partido dos Trabalhadores e desancam a esquerda sem dó nem piedade.

Duas coisas chamam atenção nestas peças publicitárias. O primeiro é o tom de revolta utilizado na narrativa: os locutores parecem estar dando uma bronca em quem assiste o vídeo. E os roteiros buscam um didatismo exagerado, daqueles que cansariam até o personagem Forrest Gump, de Tom Hanks.

Os vídeos de direita que achincalham a esquerda têm essa característica: parecem ser feitos para agradar a quem já pensa daquela forma. Trata-se de uma fórmula prisioneira da lacração, na qual os roteiristas estão mais preocupados em cutucar os esquerdistas do que ganhar novos adeptos.

Se adotassem uma linguagem mais acolhedora e emocional, esses vídeos poderiam até atrair eleitores que estão em dúvida em relação ao caminho político que podem tomar. Mas o conceito de linguagem emocional que esses produtores têm em mente é geralmente colocar uma trilha sonora parecida com a do seriado Game of Thrones e sapecar imagens da bandeira nacional tremulando.

Temos um paradoxo de comunicação na direita. Bolsonaro, goste-se ou não dele, consegue se comunicar com as massas. Seus seguidores, no entanto, só conseguem criar peças de comunicação que pregam para os convertidos (se bem que, ultimamente, o foco do presidente tem sido exclusivamente em seu séquito mais fiel).

Esse fenômeno ocorre porque a maioria esmagadora (para não dizer a totalidade) do talento artístico está do outro lado. Pode-se criticar o esquerdismo de Chico Buarque, mas sua capacidade como compositor é inegável. É possível comparar sua obra com a de Roger Rocha Moreira, do Ultraje a Rigor?

Roger se firmou como um dos nomes irreverentes do rock brasileiro e se tornou um porta-voz do conservadorismo. É seu direto manifestar suas opiniões políticas e criticar a esquerda, como geralmente faz. Mas, se fôssemos comparar seu talento como letrista com o de Chico, o roqueiro sairia perdendo fragorosamente.

Essa comparação é cruel em todos os campos artísticos: teatro, cinema, música ou literatura. Os melhores estão ao lado da esquerda. Alguns ícones esquerdistas enfrentam até polêmicas envolvendo suas vidas pessoais, como Caetano Veloso – mas o conjunto da obra do irmão de Maria Bethânia é de uma qualidade impressionante e reconhecido por todos os críticos musicais, inclusive os que se alinham com a direita.

Qual é a explicação dos vídeos bolsonaristas para isso? Os artistas são de esquerda por causa da Lei Rouanet. Dessa forma, na época do PT, eles receberam muito dinheiro do governo. E essa é a razão pela qual todos os artistas são petistas.

Bem, vamos discutir melhor esse ponto. Artistas são, geralmente, pessoas contestadoras e que gostam de desafiar o sistema. Dentro de uma sociedade como a brasileira, a chance de que esses artistas cheguem à idade adulta já pensando como esquerdistas é enorme. Portanto, o fato de a classe artística ser de esquerda pouco tem a ver com incentivos fiscais da Rouanet. Essa posição política é construída normalmente durante a adolescência, quando ninguém está preocupado em captar verbas para shows.

Aliás, esse é outro ponto ignorado pelos vídeos dos seguidores de Bolsonaro. A Lei Rouanet permite que produtores de obras artísticas – com a aprovação do governo – captem recursos junto a empresas que seriam utilizados para pagar parte dos impostos devidos.

Ou seja, se o governo autorizar a captação de R$ 1 milhão, por exemplo, isso não quer dizer que uma produção receba automaticamente essa quantia. Os donos do projeto terão de visitar empresas que têm imposto a pagar para convencê-las a destinar parte deste dinheiro para sua obra. Não é exatamente uma tarefa fácil – e muitos produtores não conseguem nem marcar reuniões com quem de fato manda nesses recursos.

Outro ponto interessante é olhar o ranking das dez maiores captações da Lei Rouanet de 2018: há três companhias de produção e sete instituições, como museus e orquestras sinfônicas. Não há exatamente artistas faturando horrores com esse instrumento. Portanto, achar que os artistas apoiam a esquerda apenas porque estão interessados em uma boquinha é pensar pequeno. Artistas são contestadores e outsiders desde que o mundo é mundo (nem precisamos entrar da discussão de que os músicos e atores da Velha Guarda eram contra a censura imposta pelo Regime Militar e por isso preferiram atuar na oposição).

Nos Estados Unidos, no qual a esquerda é bastante reduzida, há pessoas talentosas que se alinham com a direita. Elvis Presley foi um deles. Frank Sinatra foi outro, que trocou os democratas pelos republicanos no início dos anos 1970. Prince era testemunha de Jeová e republicano. Clint Eastwood sempre foi conservador e eleitor de direita. Entre os jovens, as cantoras Taylor Swift e Britney Spears, assim como as atrizes Jennifer Love Hewitt e Melissa Joan Hart, também são republicanas. Ou seja, nos EUA, há mais artistas democratas que republicanos – mas o jogo não está tão desequilibrado como no Brasil.

Uma coisa é certa: se a direita continuar produzindo vídeos raivosos e com doses diminutas de empatia, ficará falando apenas dentro de sua panela. Não conseguirá conquistar o centro e poderá ficar falando sozinha.

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