Por que Kassab insiste tanto em uma candidatura própria?

O que leva um político experiente como Kassab investir na candidatura do senador Rodrigo Pacheco

Por Aluizio Falcão Filho

O ex-prefeito Gilberto Kassab foi convidado nesta semana pelo ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva para discutir o cenário político. Lula quer atrair Kassab e seu grupo para sua órbita em 2022, na tentativa de aliviar as resistências que boa parte das classes mais conservadoras têm a seu respeito, um candidato que enfrentou sérias acusações de corrupção e foi um dos destaques da Operação Lava-Jato.

As razões do presidente de honra do Partido dos Trabalhadores são cristalinas. Mas esbarram na insistência de Kassab em trabalhar pela candidatura do senador Rodrigo Pacheco. Hoje no DEM, espera-se que o presidente do Senado migre para o PSD nos próximos meses e se torne oficialmente o postulante à presidência da agremiação.

Mas Pacheco é um político discreto e desfruta de popularidade diminuta. Como esperar que ele vença uma eleição nacional? As enquetes que arriscaram colocar seu nome na lista de candidatos mostraram que ele oscila entre 2% e 4%. Além disso, uma pesquisa do site Poder 360 mostra que o parlamentar é conhecido por apenas 51% dos eleitores. Não é à toa, portanto, que Kassab passou por um constrangimento durante jantar com empresários em São Paulo, cabalando apoio para o chefão da Câmara Alta. Ao minimizar as chances dos demais nomes que compõem a chamada Terceira Via e exaltar as qualidades de seu candidato, ouviu um empresário perguntar: “Quem é Rodrigo Pacheco?”.

O que leva um político experiente como Kassab investir em um nome praticamente anônimo?

Há várias hipóteses na mesa, mas duas se destacam. A primeira é a mais óbvia: o presidente do PSD tenta aumentar o cacife de Pacheco para encaixá-lo como candidato a vice em uma chapa importante. Com Lula, há essa possibilidade. O problema é que tanto o candidato petista como vários dirigentes do partido preferem o nome de Luiza Helena Trajano – uma espécie de versão 2.0 e feminina da chapa de 2002, com José Alencar (até agora, porém, Luiza Helena refutou todas as aproximações partidárias para uma eventual candidatura em 2022. Ontem mesmo, em uma “live”, ela declarou: “Quero dizer a vocês que não sou candidata a nada. Não fique triste ou alegre, mas continuo política, sou política desde menina”).

Se não for para colocar Rodrigo Pacheco na chapa de alguém, qual seria o interesse de Kassab?

Uma possibilidade é a de tentar criar densidade eleitoral ao Centrão, algo que não existe desde o governo José Sarney. Nos últimos 36 anos de política, o Brasil sempre teve este grupo político circulando pelo Planalto – mas sempre em uma posição de bastidores, nunca como protagonista principal.

Os grandes articuladores políticos do Centrão, como o próprio Kassab, não são campeões de votos. Mas têm grande base regional e praticamente cadeira cativa nas eleições parlamentares. É por esta razão que sempre formam um conjunto coeso para apoiar os presidentes eleitos de 1985 para cá (talvez nem todos; Fernando Collor e Dilma Rousseff se desentenderam com este grupo: talvez até por isso sofreram impeachment).

Ao insistir em uma candidatura própria, o PSD e o Centrão como um todo têm a possibilidade de cortar intermediários no jogo por cargos e verbas. Até agora, os centristas apenas apoiaram presidentes da Nação e se mantiveram nos bastidores parlamentares aprovando as medidas do Executivo – e neutralizando os riscos que surgem no horizonte.

Kassab pode ter a intenção de acabar com essa sina – e criar um candidato que consiga vencer as eleições. Com isso, o ex-prefeito eliminaria os intermediários que orbitam em torno do presidente da República e teria uma liberdade muito maior para se movimentar na máquina pública. Foi o que ocorreu nos dois anos em que Michel Temer esteve no poder, um período em que os políticos do Centrão praticamente entravam em seu gabinete sem bater. Com a ressalva de que Temer não foi o cabeça de chapa e herdou o Planalto com o impeachment de Dilma Rousseff.

Em retrospecto – deixando de lado as inúmeras acusações que pairam sob o nome do ex-presidente –, é preciso reconhecer que o governo Temer foi um oásis de tranquilidade entre Dilma e Jair Bolsonaro. Mesmo com o escândalo envolvendo a gravação que o empresário Joesley Batista fez do presidente no Palácio do Jaburu. Aquela confusão, ocorrida em setembro de 2017, parece uma discussão infantil quando a comparamos com os danos políticos provocados pelos conflitos quase que semanais que vivemos nos dias de hoje.

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