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Por que a candidatura de Doria não decola?

O cenário é mais difícil de compreender quando lembramos que existe um número enorme de eleitores buscando por um representante da chamada Terceira Via

Aluizio Falcão Filho

O estado de São Paulo tem apresentado resultados positivos em sua administração, da educação à gestão financeira. João Doria é um dos maiores paladinos da vacinação em massa dos brasileiros, um tema que ganhou grande projeção durante a pandemia. Além disso, uma de suas promessas mais difíceis de ser realizadas, a de despoluição do Rio Tietê, tem enormes chances de concretização (há poucos dias, o governo anunciou que atingiu 91 % de todo o processo de limpeza deste curso de água).

Por que, então, o governador Doria patina nas pesquisas de eleição presidencial e tem uma avaliação sofrível entre os paulistas (apenas 24 % consideram sua gestão “ótima” ou “boa” e 38 % acham-na “péssima” e “ruim”)? O cenário se torna ainda mais difícil de ser compreendido quando lembramos que existe um número enorme de eleitores buscando por um representante da chamada Terceira Via.

O fato é que João Doria, em sua curta carreira política, já passou por três encarnações – e talvez esteja entrando em sua quarta fase eleitoral. No início de sua vida pública, apresentou-se como gestor e não político, um nome novo centro de um cenário bastante abalado pelas denúncias da Operação Lava-Jato. Doria surgia como alguém que, bem-sucedido na iniciativa privada, seria um exemplo nacional de correção. Além disso, tinha uma trajetória de sucesso para comprovar sua capacidade administrativa. Por fim, possuía um grande talento de comunicador e personificava o anti-petismo.

Nem bem foi eleito, seu nome passou a ser comentado nacionalmente e veiculado como um possível candidato às eleições para presidente em 2018. Chegou a ensaiar uma tentativa de furar a fila e tomar a candidatura de Geraldo Alckmin, seu padrinho político. Acabou postulando o governo estadual. E, neste momento, entrou em sua segunda encarnação.

O discurso voltado à gestão não teve tanta repercussão. E os paulistanos ficaram revoltados com sua atitude de abandonar a prefeitura com pouco mais de um ano de mandato para concorrer ao governo do estado. Quando passou ao segundo turno, aderiu à campanha de Jair Bolsonaro e elevou o tom de críticas ao seu opositor, o então governador Márcio França (chamado por Doria de “Márcio Cuba”). Sua estratégia deu certo, apesar da pequena margem de vitória. Chamuscado da capital, contou com o voto mais conservador do interior para se aboletar no Palácio dos Bandeirantes.

Logo em seu discurso de vitória, disse que era “hora de pacificar o país”. Mas, depois de alguns meses, optou pela oposição ferrenha ao presidente Jair Bolsonaro, cuja agenda conservadora tinha abraçado e gerado os votos necessários à vitória estadual. O governador, assim, entrava em sua terceira encarnação – a de candidato explícito ao Planalto e opositor ferrenho a Brasília.

Diante disso, os eleitores – especialmente aqueles de São Paulo – têm dificuldade de enxergar ao certo qual é a imagem de Doria. É a do gestor? Ou seria a de um conservador ao estilo Bolsonaro? Ou a de um político estabelecido com os moldes tucanos?

Ao lidar com essa percepção difusa dos eleitores, é natural que ele não consiga deslanchar como candidato a presidente. Mas há um efeito colateral neste constante mimetismo político. Em sua primeira eleição, criticou fortemente o PT durante a campanha (poupando pessoalmente seu concorrente, Fernando Haddad) e foi nessa toada até agora. Portanto, tem dificuldade de trafegar junto aos eleitores de esquerda. Ao mesmo tempo, ao rejeitar Bolsonaro após sua eleição, incorreu em dois problemas. O primeiro foi ser bombardeado pelos seguidores do presidente, que atacam até determinados itens de seu vestuário. O segundo ponto foi ser tachado de “traíra” pelos mesmos apoiadores do governo, que apontam também uma suposta traição dele ao ex-governador Alckmin (a saída do político do PSDB, inclusive, seria uma sinal de desconforto em dividir a sigla com Doria).

Podemos esperar uma nova encarnação de João Doria em 2022, sem mandato e candidato em tempo integral? Certamente, até porque as pesquisas qualitativas devem apontar estratégias alternativas de campanha. Porém, a cada dia, as chances de sucesso da Terceira Via vão encolhendo. João Doria conseguirá convencer o país inteiro de que pode ser o nome ideal para interromper uma guerra de extremos entre lulistas e bolsonaristas? É até possível – mas, até agora, o tempo conspira contra o governador. Seu caminho, até o primeiro turno, será duríssimo. Principalmente porque o ex-juiz Sérgio Moro parece amealhar mais votos que ele na disputa pelos eleitores que não querem Lula ou Bolsonaro.

Doria precisa estudar cuidadosamente o seu caminho daqui para frente. E gastar seus cartuchos com parcimônia – o que pode incluir um redirecionamento radical dos planos eleitorais para 2022. O governador ainda tem muito tempo pela frente. Não precisa apostar todo o seu futuro político nesta eleição presidencial.

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