Politicamente correto: chato, mas inevitável

O grande capital também está surfando a mesma onda. As três letrinhas mágicas da vez são E, S e G e respondem pela tríade ‘enrivonmental-social-governance’

Durante a campanha de 2018, conservadores provocavam eleitores de esquerda ou isentões com um bordão: “é melhor Jair se acostumando”. A frase mostrava a inevitabilidade da eleição de Jair Bolsonaro à presidência e complementava outro meme que aconselhava os opositores a aceitar a realidade, pois doeria mesmo.

Hoje, vemos boa parte deste eleitorado tradicionalista (não só no Brasil como no mundo) incomodado com o crescimento dos movimentos em prol de temas politicamente corretos. Ao mesmo tempo, o mesmo grupo sofre nas redes sociais com críticas à incorreção, à intolerância e à falta de empatia.

Antes de mais nada, é preciso esclarecer que o barulho não vem da maioria da sociedade e sim de uma minoria bem organizada, que se manifesta de forma sutil ou espalhafatosa. De seu lado oposto, está igualmente uma minoria conservadora e opositora a esse movimento mais, digamos, progressista. A grande maioria da sociedade, porém, está ao sabor do vento, oscilando entre as duas correntes.

O cidadão comum, de maneira geral, defende o politicamente correto em público e, em ambiente privado, conta chistes homofóbicos ou ri de piadas racistas. É como se fosse um software politicamente incorreto rodando em hardware com rígidos parâmetros de compliance comportamental.

Para os mais conservadores, aqui vai uma péssima notícia: a pauta PC veio para ficar e vai se espalhar pela sociedade. Temas como ambientalismo, racismo, feminismo, ideologia de gênero – tudo isso entrará rapidamente nas discussões cotidianas e moldará atitudes, procedimentos e hábitos.

Por que é inevitável? Porque estes são os conceitos abraçados pelas grandes corporações mundiais. São diretrizes que acabam se espalhando por todo o mundo empresarial, abraçando milhões de colaboradores. O epicentro dessa transformação está nas áreas de RH e compliance e já atinge boa parte dos funcionários.

O grande capital também está surfando a mesma onda. As três letrinhas mágicas da vez são E, S e G e respondem pela tríade ‘enrivonmental-social-governance’ (meio ambiente, social e governança). E é o que muitos investidores mais buscam na hora de apostar em uma empresa, seja nas bolsas ou nos fundos de private equity.

Este interesse, por exemplo, é responsável pelo aparecimento das chamadas B Corps (empresas B), em cujo modelo de negócios está costurado o desenvolvimento social e ambiental da própria companhia e das regiões nas quais ela está instalada. Para ser certificada uma B Corp, a empresa precisa ser analisada pela B-Lab, uma organização não-lucrativa que aufere seus objetivos, valores e resultados. No Brasil, a Natura é o exemplo mais visível e já obteve o certificado. Mas outros grandes gigantes nacionais também pediram sua certidão, como Magazine Luiza e Gerdau.

Além do capital, outra razão também contribui para um horizonte politicamente correto, os jovens de classe média e classe alta – justamente aqueles que formarão a opinião de toda uma geração. Os millenials urbanos, com as exceções de praxe, são completamente engajados nas bandeiras das chamadas minorias.
Em tese, a defesa do politicamente correto é algo que apenas faz o bem. Afinal, são ações que estão do lado do bem e da retidão, protegendo aqueles que são, de alguma forma, fustigados dentro da sociedade.

Vamos, agora, ao outro lado desta equação.

Se, por um aspecto, temos uma tentativa de reparar injustiças, há um grande problema neste processo: a negação do indivíduo em função do grupo ao qual ele é inserido. Ou seja, um cidadão deixa de ser avaliado apenas por suas características, sejam elas positivas ou negativas. O coletivo social, assim, passa a ser mais importante que atributos individuais.

Dessa forma, uma pessoa deixa de ser uma pessoa – e, antes de mais nada, é reconhecida como parte de uma coletividade (LGBTQI+, negro, asiático, latino, mulher, homem etc). Ouvi outro dia de um grande amigo, CEO de uma multinacional, que em condições iguais de capacidade, a sua empresa sempre faz a opção pela diversidade. A princípio, algo louvável. Mas essa frase me fez pensar: há mesmo condições iguais de capacidade? Talvez não. Mas, aos olhos do julgamento corporativo, é uma forma de se abrir espaço para quem esteja nos quadros da diversidade.

Friedrich Hayek, um dos próceres do liberalismo, disse que “há o individualismo genuíno, que leva à liberdade e a uma ordem espontânea, e o pseudo-individualismo, que leva ao coletivismo e às economias controladas e planejadas”. É provável que o politicamente correto tenha pitadas do que Hayek chama de “pseudo-individualismo”.

Embora inevitável, o movimento PC pode nos levar a um controle rígido sobre as empresas e direcionar regras internas de contratação. Assim, um candidato mais qualificado pode ser preterido por não fazer parte de uma minoria.

Estamos aqui em um dilema moral para muitos empresários modernos. De um lado, a crença de que a justiça social se dá através da prosperidade ancorada em maior liberdade para empreender e menor controle do Estado. De outro, no entanto, há o apego a regras criadas por um padrão de comportamento que, teoricamente, retiram a liberdade do empregador.

Outro problema é o bullying formado pela galera PC junto àqueles que pensam de forma diferente. Uma coisa é criar um debate no campo das ideias. Outra é simplesmente atacar quem não segue a mesma cartilha. Veja o caso de Bari Weiss, colunista do New York Times, que pediu demissão de seu cargo no último dia 14.
Em carta ao Publisher do jornal, A. G. Sulzberger, escreveu o seguinte: “Minhas próprias incursões no “pensamento errado” (N. da R.: menção ao livro 1984, de George Orwell) me transformaram em alvo de constante bullying por parte dos meus colegas que discordam de minhas visões. Eles me chamaram de nazista e de racista. (…) Há termos para definir isso: discriminação ilegal, ambiente de trabalho hostil e condenação pré-estabelecida. Eu não sou especialista em leis. Mas sei que isso é errado”.

Ser uma das vozes da direita e merecer elogios públicos de Donald Trump Jr. e do conservador Ben Shapiro fez de Weiss um foco de ataques. Mas há um detalhe interessante. Essa narrativa (tão condenada pelos chamados progressistas) geralmente é associada a um homem branco, protestante e de meia-idade. Mas Bari Weiss é uma judia de 36 anos, que antes de passar pelo NYT foi editora do Wall Street Journal. Seu pecado mortal, na redação nova-iorquina, foi abordar pautas conservadoras e criticar movimentos como o #MeToo.

Liberdade de expressão, contudo, é quesito que deveria fazer parte de um movimento ligado aos direitos de minorias. Mas, aparentemente, os ativistas ainda não acreditam que este benefício seja facultado aos mais tradicionalistas. Uma democracia, entretanto, prevê direitos iguais e nenhuma censura.

Qualquer que seja o desenho do futuro politicamente correto – e haverá muitos solavancos nessa estrada –, teremos de se adaptar à nova realidade, que imporá regras de comportamento e de conduta. Não há como escapar desse universo que será ainda mais implacável com aqueles que se pautarem pela incorreção política ou defesa de valores conservadores. O mundo ficará mais monótono, comedido e, muitas vezes, privado de espontaneidade. Pode-se espernear, mas não há escapatória. Por isso, é melhor já ir se acostumando. Quanto mais rápido, melhor.

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