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“Passaporte para Liberdade”: o exemplo imortal de Aracy de Carvalho

Poliglota, desquitada e independente, Aracy era uma mulher à frente de seu tempo. Mas não foi por isso que ela passou à história

Por Aluizio Falcão Filho

Nesta semana, estreou uma minissérie que merece atenção especial. Trata-se de “Passaporte para Liberdade”, na qual a atriz Sophie Charlotte interpreta Aracy de Carvalho, que trabalhou no consulado brasileiro durante a Alemanha Nazista. Poliglota, desquitada e independente, Aracy era uma mulher à frente de seu tempo. Mas não foi por isso que ela passou à história.

Durante o Estado Novo, Getúlio Vargas baixou um decreto dificultando a imigração de certas minorias para o Brasil, entre as quais judeus, ciganos e muçulmanos. Com a ascensão dos nazistas e a clara identificação entre os governos despóticos de Vargas e de Adolf Hitler, os judeus que desejavam imigrar para cá eram sistematicamente rejeitados. Estima-se que cerca de 16 000 vistos de pessoas com origem semita foram negados pelas autoridades brasileiras.

A colaboração entre os déspotas foi além. E o Brasil passou a deportar judeus alemães e poloneses que estavam no país. O caso mais notório desta fase é o banimento de Olga Benário, que estava grávida do líder comunista Luiz Carlos Prestes (que, mais tarde, apoiaria Vargas na eleição presidencial de 1950).

É neste contexto que Aracy ganha importância. Como funcionária do consulado brasileiro em Hamburgo, ela concedeu várias autorizações para que judeus pudessem viajar ao Brasil, muitas das quais utilizando papéis falsificados. Foi nesta época em que ela conheceu seu futuro marido, o escritor João Guimarães Rosa, que também era diplomata e trabalhava no mesmo consulado (a ela, inclusive, é dedicado o livro “Grande Sertão: Veredas”).

Aracy conseguiu salvar várias vidas e contou com a colaboração de Maria Margarethe Bertel Levy, que conseguiu escapar para São Paulo. Juntas, as duas estabeleceram uma rede de pessoas que ajudaram a construir uma rota de fuga da Alemanha para o Brasil. A saga desta colaboração está no livro “Justa”, de Mônica Raísa Schpun.

Esta verdadeira epopeia precisa ser conhecida por todos, pois mostra como uma única pessoa pode fazer a diferença, especialmente em um período trágico para a Humanidade, marcado pela brutalidade e pelo terror. Naquela época, é bom lembrar, permanecer em solo germânico, para um judeu, era uma verdadeira sentença de morte. Aracy, ignorando riscos gigantescos, conseguiu salvar várias famílias (muitas vezes, o seu procedimento era simples – não colocar a letra “J”, que remetia à origem judaica, na ficha de pedido do visto brasileiro).

Quando Vargas resolveu aderir aos Aliados, em 1942, os diplomatas brasileiros (incluindo Aracy e Guimarães Rosa) foram feitos reféns em solo alemão. Durante quatro meses, os feitos secretos da brasileira poderiam ter sido descobertos. Mas houve um final feliz e o casal – e outros compatriotas – foram trocados por diplomatas alemães.

Em uma democracia, a coragem é sempre bem-vinda. Mas, nos regimes de exceção, especialmente neste que foi um dos pontos mais baixos da História e da Civilização, o destemor é coisa raríssima. A Justiça é vilipendiada ao máximo e os corações vão se acostumando com a maldade, a vileza e a tirania. São pessoas como Aracy de Carvalho que nos inspiram e nos motivam a buscar incansavelmente um mundo melhor e mais justo. Exemplos como o dela não devem ser jamais esquecidos – e precisam permanecer para sempre em nossas memórias.

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