Os traumas da pandemia que vão nos acompanhar nos próximos anos

Tivemos que modificar nosso comportamento radicalmente e enfrentar situações inéditas

Quando adolescente, tinha uma amiga que era filha de um imigrante húngaro, muito sisudo. Empresário, o pai dessa colega era bastante rico e a família morava em uma casa enorme. Certa ocasião, ela me convidou para almoçar lá. Quando entrei, percebi o capricho com o qual a sala tinha sido decorada e especialmente fiquei impressionado com a aparelhagem de som, cuja joia da coroa era um amplificador Marantz – na época, algo que só os muito abastados poderiam possuir.

Quando o almoço foi servido, olhei para a travessa principal e fiz uma conta rápida: havia apenas um bife para cada comensal. Isso não combinava com a fina porcelana e os talheres finos, nem com os copos de cristal. Tinha bastante arroz, feijão e batatas cozidas. Mas apenas um pedaço de carne per capita. Fiquei intrigado com aquilo, que esqueci com o passar do tempo. Mas acabei sendo convidado por minha amiga para almoçar lá outras vezes. O ritual do bife único se repetiu em todas as ocasiões. Após uma dessas refeições, perguntei a um amigo, que também almoçara conosco, se ele sabia a razão daquela frugalidade proteica. Ele, então, me respondeu que o pai vinha de uma família que havia passado muita fome durante a Segunda Guerra Mundial e que detestava desperdício de comida. Por isso, decretara uma regra sagrada em sua casa: um bife por pessoa.

Esse comportamento austero, no pós-guerra, também marcou muitas famílias inglesas, alemãs e europeias de maneira geral, durando até o início dos anos 1970. Trata-se de um costume decorrente de grande trauma que marca uma geração inteira. No caso, chegou até o pai da minha amiga e permaneceu quase quarenta anos depois do final da Grande Guerra.

Estamos diante de uma situação parecida? Muito provavelmente. Tivemos que modificar nosso comportamento radicalmente e enfrentar situações inéditas. Minha filha, por exemplo, passou quase o ano inteiro tendo aulas pelo computador, sem a companhia dos coleguinhas e a vivência que todo pré-adolescente precisa ter. Isso, sem dúvida, terá efeitos em sua conduta no futuro – e esses meses passados e muitos dos próximos serão lembrados com uma ponta de amargura tanto por ela como os jovens de sua geração.

O legado da pandemia mudará seriamente o comportamento de muitos. Alguns maneirismos durarão por um curto período. Outros virão para ficar.

Entre aqueles que passarão está o cumprimento com soquinhos ou cotoveladas. Mas percebo ultimamente que há uma variante desta saudação: a pessoa fica parada, dando um meio passo para trás e levantando a mão, como se disse “nem vem que não tem”. Essa linguagem corporal é acompanhada de um “tudo bem?” e não deixa dúvidas ao interlocutor de que não haverá contato físico algum. Como somos um povo latino, esse tipo de reverência de sumir assim que a pandemia for controlada, dando lugar aos abraços, beijos e apertos de mão acompanhados de tapas no ombro. Mas, para um pequeno grupo, esse procedimento irá continuar.

No primeiro lockdown, ficamos muito tempo sem sair de casa. Isso coibiu, por exemplo, as idas frequentes ao cabelereiro e ao barbeiro. Muitos homens e mulheres, que pintavam o cabelo, aproveitaram a deixa para assumir os fios brancos – aí incluindo celebridades como Reinaldo Gianecchini, Gloria Pires e Samara Felippo. Isso vai durar? Essa é uma pergunta ainda sem resposta.

E o uso de máscaras cirúrgicas? Antes mesmo do coronavírus, habitantes dos países asiáticos já tinham o hábito de proteger boca e nariz em ambientes fechados e mesmo nas ruas. Agora, essa prática vai proliferar por um bom tempo no Ocidente também. Quanto tempo isso vai durar? Afinal de contas, durante a epidemia de influenza, também foram usadas máscaras e o costume acabou sendo descontinuado.

Ocorre que, naquela época, houve a chamada imunização de rebanho, sem vacinas, e as mutações do vírus levaram a um tipo de gripe menos agressivo que o inicial. Ainda não se sabe qual será o caminho das novas cepas da Covid-19 e alguns especialistas já afirmam que a mutação observada em Manaus é mais turbinada que a original. Por isso, afirmam os sanitaristas, as máscaras devem continuar ser usadas mesmo após o recebimento das doses de imunização.

Alguns fatores explicam essa necessidade. O primeiro é que a vacina não é cem por cento eficaz e existe a chance de alguém receber a vacina e, mesmo assim, ser contaminado. Nesses casos, porém, os efeitos da doença são menos nefastos – mas o contaminado pode passar o coronavírus adiante. Outro ponto é que ainda não se sabe ao certo qual é a longevidade dos anticorpos criados pelos contaminados. Há também casos de infectados que perderam seus agentes de imunidade e, dessa forma, estariam passíveis de uma nova contaminação. Por conta dessas duas hipóteses, assim, teremos de usar máscaras ainda por um bom tempo. Mas haverá um grupo que incorporará esse hábito para sempre e outro que vai se recusar a adotá-lo depois da vacinação.

Haverá um trauma coletivo e vários individuais. Cada um vive a pandemia de seu jeito, experimentando limitações que vão criar comportamentos futuros. Ou seja, nosso estado mental pelos próximos anos sofrerá influências deste período complexo, que podem interferir em decisões importantes nas nossas vidas. Por isso, aqui vai uma pergunta: tem questões importantes a decidir no curto prazo? Não se afobe, pense bastante e não decida de supetão. Movido por algum trauma, a decisão pode ser a errada. Portanto, muita calma nessa hora – e nas futuras também.

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