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O que esperar da campanha de Lula em 2022?

Seu grande desafio será superar a imagem de corrupto que ainda paira sobre ele

Aluizio Falcão Filho

Mesmo dentro das hostes bolsonaristas, começa a existir uma preocupação concreta – a de que o candidato Luiz Inácio Lula da Silva vem com força na campanha do ano que vem e que os números apresentados pelas pesquisas não são fabricados pela imprensa. Há, obviamente, quem ainda acredite que Lula não tenha nem metade do capital eleitoral que apontam as enquetes. Mas já existem aqueles que perceberam o derretimento da popularidade do presidente Jair Bolsonaro e começam a questionar como seria o retorno dos petistas no poder.

Mas, antes de discutir um eventual governo do PT, como seria a campanha que Lula prepara para o ano que vem?

Em sua primeira incursão pela vida pública, como postulante ao Palácio dos Bandeirantes, em 1982, ele usou um slogan que ficou na memória de muitos: “Um brasileiro igualzinho a você”. Foi um fracasso. Sobre isso, aliás, o jornalista Ricardo Kotscho, que foi assessor de imprensa do Partido dos Trabalhadores, tem uma recordação impagável. Estava em um posto de gasolina e ouviu um caminhoneiro falando para outro, a respeito de Lula: “Eu sou um m…”, disse. “Não quero votar em um m…”. Naquele momento, Kotscho entendeu que aquela eleição do petista estava perdida – e por muito. Lula teve pouco mais de 10 % dos votos válidos e chegou em quarto lugar na disputa.

Vinte anos depois, venceu o pleito presidencial por conta de três fatores. O primeiro foi o desgaste de oito anos de governo tucano, somado ao fato de que José Serra não era exatamente um oponente carismático. Em segundo lugar, a “Carta aos Brasileiros” deu tranquilidade ao mercado financeiro e ao empresariado, garantindo que haveria respeito às regras que levaram à estabilidade monetária e à livre iniciativa. Por fim, Lula se portou como um vitorioso – alguém que tinha chegado em São Paulo como retirante e havia vencido na vida. Ou, seja, o contrário do que havia feito em 1982.

Qual será o mote de Lula em 2022?

Tudo indica que ele jogará tudo em duas mensagens principais. A primeira é a de que ele foi injustiçado e é inocente de todas as acusações levantadas durante a Lava-Jato. Se apresentará como um perseguido político e lembrará constantemente que o ex-juiz Sergio Moro, que o colocou no xilindró, foi considerado parcial pelo Supremo Tribunal Federal, que anulou todas as condenações passadas e colocou o processo na estaca zero.

O outro ponto será mostrar que, durante seus oito anos no Planalto, o país viveu um momento econômico positivo, apesar de o mundo estar enfrentando uma severa crise, com a derrocada das subprimes que aniquilaram os mercados imobiliário e financeiro. Seus marqueteiros enfatizarão que houve a criação de uma nova classe média e que os pobres consumiam itens considerados de luxo, como iogurte. Neste sentido, já se vê nas redes sociais comparações entre passado e presente com a foto de Lula. Curiosamente, porém, se usa o PIB de 2013 para se comparar com o do ano passado. Só que, em 2013, Lula não era mais presidente, já que Dilma Rousseff assumiu em 2011, depois de ter sido eleita no ano passado.

Dilma, aliás, deverá ser um nome evitado na campanha. Se depender do partido e de Lula, ela não aparecerá em nenhuma peça publicitária. Lula já confidenciou em ambientes reservados que ter escolhido sua ex-ministra da Casa Civil como sucessora foi um erro desastroso. A condução econômica de Dilma e sua inépcia em negociar com o Congresso jogaram o país em uma crise traduzida por inflação e recessão – uma combinação avassaladora, especialmente quando não se tem apoio de deputados e senadores.

Aos que se impressionam com os erros de português de Lula e o consideram pouco inteligente (o presidente Bolsonaro já o chamou em mais de uma ocasião de “jumento”), um aviso: o ex-presidente, apesar da pouca leitura e do parco estudo, é uma pessoa inteligentíssima. Tem um brilhantismo intuitivo, que lhe deu insights na época do sindicalismo que o ajudaram a obter um apoio constante de seus colegas de profissão.

Nas assembleias realizadas no estádio de Vila Euclides, por exemplo, seus antecessores chegavam ao local e se dirigiam diretamente ao palanque. Lula, ao contrário, não tinha pressa e ia passando pelo meio da massa, captando qual era o espírito da maioria. Conseguia assim, formular propostas que eram sempre aprovadas.

Além disso, sempre foi um observador nato. Nessa mesma época, quando panfletava as propostas do sindicato, percebeu que os trabalhadores liam o papel por poucos segundos e jogavam o folheto fora. Ele, então, contou os passos entre o recebimento do boletim e o momento em que o informativo era descartado. Cronometrou o tempo do intervalo e descobriu o que seria possível ler neste ínterim. Desta forma, editou o texto e tornou-o mais enxuto para passar a mensagem mais importante que ficaria na mente dos sindicalistas.

Lula tem uma capacidade extraordinária de ouvir e reter informações, compensando dessa forma a falta de leitura. Isso faz dele um interlocutor exigente e um chefe que consegue acompanhar a performance de seus comandados.

Seu grande desafio será superar a imagem de corrupto que ainda paira sobre ele. De qualquer forma, a rejeição a Lula, que chegou a 50 % em maio deste ano, caiu a 40 % ao final de outubro (ambos levantamento do Instituto Poder Data). A capacidade de ressureição de certos políticos é um fenômeno que muitos não conseguem entender – especialmente quando lembramos o grau de impopularidade que Lula enfrentava quatro anos atrás.

O que mudou de lá para cá? As pessoas acreditaram na inocência do ex-presidente? Ou se decepcionaram tanto com Bolsonaro que resolveram reabilitar Lula, minimizando as acusações de corrupção? Qualquer que seja a resposta certa, a volta de políticos debilitados no passado à ribalta eleitoral é algo que intriga os cientistas sociais há anos. “Na guerra, você só pode ser morto uma vez; mas, em política, isso pode acontecer várias vezes”, dizia Winston Churchill. Ao olharmos o potencial que Lula amealhou nas últimas pesquisas, vê-se que essa frase de Churchill é mais atual do que nunca.

 

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