O que aprendi em doze anos de empreendedorismo

Com esse aniversário, vejo que consegui driblar a maioria das estatísticas, que são cruéis para quem deseja ter o seu próprio negócio em um país como o Brasil

Nesta semana, completo exatos doze anos como empreendedor. Com esse aniversário, vejo que consegui driblar a maioria das estatísticas, que são cruéis para quem deseja ter o seu próprio negócio em um país como o Brasil. De cada cinco empresas abertas, uma fecha após 12 meses; em cinco anos, metade dos empreendimentos cerra suas portas. E, após dez anos, 75 % dos CNPJs são cancelados.

Enquanto muitos entram na iniciativa privada por vocação ou por falta de opção, a minha decisão foi tomada depois de seis meses pesando bastante os prós e os contras de uma vida sem contracheque. Naquela época, tinha passado dos quarenta anos de idade e, embora me sentisse jovem de espírito, já era um dos mais velhos na empresa onde trabalhava. Percebi que seria uma questão de tempo para sofrer os preconceitos que surgem contra os profissionais de cabelo branco – mesmo em relação àqueles que têm currículos estrelados – e achei que o empreendedorismo seria uma forma de resolver essa questão.

Além disso, vinha de experiências profissionais nas quais dependia de diretrizes corporativas ou da decisão de terceiros para dar vida a meus projetos. A vida de empresário me libertaria disso e haveria uma grande vantagem: os resultados dependeriam de mim. Assim, ao encerrar o meu vínculo empregatício, juntei economias e tracei um plano de trabalho (muito incipiente, diga-se).

Queria partir para a ação, conquistar clientes – e, nesta ansiedade, não avaliei direito custos e tamanho de equipe. Cometi dois erros nessa fase. O primeiro foi criar uma estrutura parecida com a que tinha na empresa onde trabalhava (mais tarde, percebi que este é um erro clássico entre empreendedores de primeira viagem). Da qualidade dos equipamentos ao número de pessoas na equipe, passando por um escritório mais elegante do que o necessário, gastei além do que deveria neste momento inicial.

O segundo foi confiar apenas no meu raciocínio para estabelecer a estratégia de mercado. Tinha algumas ideias, as coloquei em um Powerpoint e fui em frente. Deveria, entretanto, ter ouvido algumas pessoas para ter outras visões sobre o que estava prestes a fazer. Olhando para o passado, vi que conquistei os primeiros clientes estritamente na base do relacionamento pessoal, não importando muito o meu discurso de vendas. Essas pessoas me contrataram porque confiavam em mim – não necessariamente naquilo que estava vendendo.

Foi justamente por isso que a abri as portas com cerca de dez contratos. Mas tinha uma estrutura cara demais para isso. Pensei que em alguns meses teria o dobro de clientes e, desse jeito, equilibraria as contas. O que ocorreu, no entanto, foi o contrário. A clientela ficou estagnada por um bom tempo. Percebi, com isso, que não era um bom vendedor. Mas entendi que deveria me esforçar para melhorar neste quesito. Os resultados, porém, não corresponderam à expectativa.

Nesta fase, bateu uma certa depressão. Afinal, este foi aquele momento em que o empreendedor rema, rema, rema e não sai do lugar (todos já passaram por isso). Percebi que cometera mais dois enganos. Um foi me autossabotar: a pressão de pagar as contas e ver o negócio estagnado faz muito empreendedor pensar em voltar ao mundo corporativo. E gastei um tempo substancial avaliando propostas, até perceber que tinha virado essa página em minha vida. O outro erro foi perder o foco de minhas atividades: passei a me interessar por outros tipos de negócio, de venda de energia ao mercado de seguros, para aproveitar meu networking.

Perdi um tempo precioso até entender que precisava manter minha atenção naquilo que eu sabia fazer. Fiz algumas mudanças na empresa, fui para um escritório mais modesto, e passei a trabalhar de uma forma diferente. Consegui crescer e expandir. Porém, o mercado no qual atuava sofria uma concorrência enorme e estava cada vez mais difícil.

Sete anos atrás, dentro deste contexto, resolvi expandir minhas atividades. Fiz, então, uma opção errada e investi em um negócio que me tirou energia e concentração, culminando com uma cisão societária bastante traumática. Resultado: tive de recomeçar do zero.

Desta vez, no entanto, gastei um bom tempo me preparando para criar a nova empresa. E com um bônus: Cristina, minha esposa, cujo talento comercial e de marketing é quase infinito, era minha sócia neste projeto. Analisamos o mercado em que iríamos atuar. Avaliamos prós e contras dos eventuais concorrentes. Criamos uma estratégia para nos diferenciar e modelamos nossos produtos e serviços de uma forma bastante competitiva. Buscamos alianças estratégicas e lançamos a nova empresa, com bastante sucesso.

Em 2017, porém, percebemos que havia espaço para crescer e chegarmos a um novo patamar. Fizemos a lição de casa durante oito meses, avaliando cada detalhe desta nova fase. Ao final do ano, viramos a chave. Mudamos de nome, lançamos o portal Money Report e demos um upgrade em nosso business model.

Tudo estava indo maravilhosamente bem quando surgiu a pandemia. Naquele momento, dois terços de nossas receitas vinham de eventos presenciais. Tivemos de mudar tudo e colocamos todos os esforços em “lives” e em conteúdos mais opinativos e contundentes. No dia 18 de março de 2020, quando o lockdown teve início em São Paulo, fizemos nosso primeiro webinar – e engatamos uma série de eventos digitais ao longo do ano com grande sucesso, dois deles em parceria com a revista EXAME e um em conjunto com a HSM.

Não foi fácil, mas conseguimos sobreviver. Isso só foi possível porque, depois de tanto tempo, entendi exatamente o que é ter espírito empreendedor. É, antes de mais nada, ser movido por um otimismo que brota inexplicavelmente dentro de si. É possuir uma motivação constante, na qual não existe espaço para a proliferação de pensamentos ruins. É uma situação na qual existe quase um amálgama entre o ser humano e a razão social (depois de um certo tamanho, eu sei, isso se transforma em um problema – mas ainda não chegamos lá).

Já ouvi de um amigo que é preciso uma certa irresponsabilidade para ser empreendedor. Não deixa de ser verdade. Quando pensamos na carga tributária que nosso país nos impõe ou mesmo na burocracia que precisamos enfrentar quando abrimos nossas empresas, até desanimamos. Mas esse desânimo dura alguns minutos. Nós, empreendedores, temos a capacidade de renascer das próprias cinzas, pois não pensamos apenas em dinheiro. Estamos empenhados em criar um legado a partir de nosso trabalho – mesmo que as lições aprendidas sirvam de exemplo apenas para nossas famílias. É por isso que não esmorecemos. Como disse Winston Churchill, “ter sucesso é caminhar de fracasso em fracasso sem perder o entusiasmo”.

Esta é a essência do empreendedorismo: não perder a chama mesmo nas horas mais difíceis. A maioria das pessoas que chegaram ao topo gosta de editar a própria biografia e contar mais acertos do que erros. Na vida real, no entanto, eles e elas erraram e sofreram tanto quando eu e você. E perseveraram, indo em frente a despeito das adversidades. Todos os que estão no Olimpo empresarial têm uma característica comum: para esses indivíduos, não existe linha de chegada ou um apito que finaliza a partida. A bola está sempre em jogo, pois o verdadeiro empreendedor nunca sossega. Está sempre atrás de um novo desafio.

É assim que vejo a minha vida. Correndo no campo e tentando fazer os meus gols sem pensar no final da disputa. E você?

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