'O Dia em que a Terra Parou' – ou que o WhatsApp deixou de funcionar

As redes sociais viveram seu dia de apagão e levaram ao desespero muitos usuários

Aluizio Falcão Filho

No filme “O Dia em que a Terra Parou”, de 1951, um alienígena chamado Klaatu visita nosso planeta com intenções pacifistas. Entretanto, assim que sai de sua nave, é alvejado e mantido em cárcere no hospital. Mas consegue escapar e se mistura com a população, enquanto tenta marcar um encontro com as mentes mais brilhantes do globo e passar a mensagem que os dirigentes de outros planetas querem nos passar.

Ele conta com a ajuda de um cientista, o professor Jacob Barnhardt (um personagem claramente inspirado em Albert Einstein), que pede uma demonstração de poder extraterrestre para aguçar o interesse dos demais gênios para a reunião. Klaatu, então, faz com que a energia elétrica do planeta seja neutralizada – com poucas exceções, como aviões em movimento e hospitais — durante uma hora.

É deste truque que vem o título do filme. Durante sessenta minutos, o planeta fica paralisado. O diretor Robert Wise, além de apontar para o aspecto bélico de nossa civilização, também demonstra com sua narrativa a nossa dependência em relação à energia elétrica.

Essa imagem me tomou os pensamentos enquanto observava colegas, parentes e amigos procurando insistentemente, sem sucesso, o WhatsApp para se comunicar. Rapidamente, percebeu-se que o problema não estava apenas nessa rede, mas também no Facebook e no Instagram – todas pertencentes a Mark Zuckerberg. O problema destes três veículos acabou sobrecarregando outros canais, como TikTok e Telegram. Resultado: as redes sociais viveram seu dia de apagão e levaram ao desespero muitos usuários.

O blecaute das redes apresentou também um novo tipo de risco digital: a ausência de um plano B. Uma quantidade enorme de pessoas utiliza o WhatsApp como ferramenta de trabalho. Há também quem venda através destes aplicativo – ou se comunique, em tempos de Home Office, com sua equipe por intermédio deste programa. Há inúmeros usos profissionais para este software. Com sua pane, vários usuários tiveram que se virar com ligações telefônicas ou reativar suas mensagens de SMS. Mas o que chama atenção é que a maioria dos usuários de WhatsApp não havia se prevenido e criado uma rede alternativa para o caso de uma pane. Evidentemente, é difícil criar uma redundância em outro sistema. Mas o caso de ontem pode nos levar a uma reflexão maior: como podemos nos prevenir para mitigar outra situação dessas?

Foi possível observar inúmeros órfãos entre aqueles que passam seu dia surfando nas comunidades digitais para se distrair, se divertir ou se comunicar. Alguns sofreram até crises de abstinência. Com o apagão de ontem, viu-se que várias pessoas estão viciadas nas redes sociais. Elas são acionadas a todo o tempo que se possui um intervalo – e em certos casos até invadindo a hora do trabalho.

Como no caso do filme, que revelou a dependência da humanidade em relação à energia elétrica na década de 1950, os bits e bytes tomaram conta e nossas vidas neste Século 21. Assim, o dia de ontem também revelou que, sem as redes sociais, o encanto que um smartphone cai pela metade.

As redes sociais acabaram com os períodos de tédio que qualquer pessoa possa a vir a ter. Aqueles minutos intermináveis na sala de espera do dentista, por exemplo, eram relevados com revistas antigas e bem amarfanhadas. Os smartphones tornaram esses intervalos em oportunidades para se divertir ou trabalhar; ler as notícias ou se comunicar com os amigos. Mas, nesta segunda-feira, todos os mortais tiveram que aproveitar apenas os aplicativos menos votados de seus celulares.

Muitos usuários, porém, aproveitaram os momentos de apagão para uma desintoxicação digital – mesmo que forçada. Talvez seja o caso de aproveitar o embalo e escolher um dia da semana sem mexer nas redes sociais. De um lado, ficaremos sem falar com amigos ou acompanhar suas vidas. Mas, de outro, deixaremos as desavenças de lado e esqueceremos as diferenças políticas que têm feito do WhatsApp e das redes um verdadeiro desafio à paciência dos usuários.

P.S.: é a segunda vez que me refiro a este filme em uma semana. Por isso, peço desculpas pela repetição.

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