O clima ruim em relação ao governo cresce no meio empresarial

O caso do Supremo Tribunal Federal em especial causa tensão e receio, pois pode gerar rupturas institucionais indesejadas

Aluizio Falcão Filho

O clima ruim em relação ao governo está crescendo no meio empresarial – e os maiores alvos da insatisfação são o presidente Jair Bolsonaro (foto) e o ministro Paulo Guedes. As instituições que resolveram escrever manifestos (publicados ou não) contra o ambiente de instabilidade política utilizaram palavras moderadas nos textos que chegaram à imprensa. Essa moderação, no entanto, não traduz o sentimento que vários empresários começam a externar.

Não que exista uma unanimidade. Há uma parcela do empresariado que apoia o governo e vê com simpatia suas frequentes cutucadas no Judiciário, principalmente em direção aos ministros Luís Roberto Barroso e Alexandre de Moraes. Mas, no geral, o sentimento é de impaciência diante da briga que o governo cria frequentemente junto aos poderes estabelecidos. O caso do Supremo Tribunal Federal em especial causa tensão e receio, pois pode gerar rupturas institucionais indesejadas.

O manifesto elaborado pela Fiesp, com aval da Febraban, tinha tintas suaves e não apontava o dedo para ninguém. Ficava mais na agenda positiva e conclamava Executivo, Legislativo e Judiciário ao entendimento, para que houvesse foco na recuperação econômica e na geração de empregos.

Os dirigentes de bancos estatais, que ameaçaram deixar a Febraban por causa do tal texto, não gostaram do conteúdo que vazou, apesar do tom morno. Mais especificamente não concordaram com a parte que versava sobre a necessidade de geração de empregos. Eles argumentaram, em conversas informais, que houve a criação de 1,5 milhão de empregos nos primeiros seis meses do ano. De fato, os dados divulgados pelo Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) em julho mostram isso. Mas esse resultado ainda é pequeno perto da necessidade existente. Ainda há cerca de 15 milhões de desempregados – e as consequências sociais desta falta de vagas são perceptíveis nas pesquisas de popularidade do governo.

No texto divulgado por oito entidades ligadas ao agronegócio (de todas, a única com grande representatividade é a Associação Brasileira do Agronegócio), duas passagens chamam atenção. A primeira é essa: “As amplas cadeias produtivas e setores econômicos que representamos precisam de estabilidade, de segurança jurídica, de harmonia, enfim, para poder trabalhar. Em uma palavra, é de liberdade que precisamos —para empreender, gerar e compartilhar riqueza, para contratar e comercializar, no Brasil e no exterior. É o Estado Democrático de Direito que nos assegura essa liberdade empreendedora essencial numa economia capitalista, o que é o inverso de aventuras radicais, greves e paralisações ilegais, de qualquer politização ou partidarização nociva que, longe de resolver nossos problemas, certamente os agravará”. A segunda: “O Brasil é maior e melhor que a imagem que temos projetado ao mundo. Isto está nos custando caro e levará tempo para reverter.”

Essas duas mensagens podem ser resumidas da seguinte forma: a instabilidade que se instalou no Brasil cria problemas de imagem no exterior e isso atrapalha os nossos negócios.

O texto das entidades ligadas ao agro é um pouco mais ousado que a redação da Fiesp, que seria também assinada pela Febraban. Mas, é importante ressaltar, não põe o dedo na ferida nem ataca diretamente nenhuma autoridade. Mesmo com o cuidado na escolha das palavras, percebe-se que nomes grandes da economia estão com a paciência no limite. Ninguém aguenta mais o clima de confronto, que subiu de tom com a perspectiva de temos no dia 7 de setembro manifestações com alto grau de octanagem.

O que querem essas associações de classe? Mostrar ao governo, principalmente, que boa parte da iniciativa privada não compactua com essa agressividade contínua. Empresários não querem navegar em mares revoltos – muito pelo contrário. Precisam de águas calmas para poder negociar, produzir e vender.

Mas como reagirá o presidente Bolsonaro a esses apelos por um ambiente de negócios mais tranquilo? Cairá em si e conterá seus impulsos belicosos? Ou vai encarar esses dois manifestos como uma provocação e partirá para mais um ataque?

Os presidentes da República que estiveram no Planalto, de José Sarney a Michel Temer (com a exceção de Dilma Rousseff e Fernando Collor), entraram no poder mais impulsivos do que saíram. A convivência forçada com o contraditório fez a maioria dos mandatários buscar paciência em doses cavalares. Com Bolsonaro, no entanto, parece acontecer o contrário. Quando mais próximo ele está do final de seu mandato, mais arisco e provocador se torna. Os empresários, entretanto, já deixaram bem claro que não querem mais isso, simplesmente porque começaram a perder dinheiro com a instabilidade reinante. Diante desta insatisfação, o presidente finalmente vai se acalmar ou dobrará a aposta belicosa?

Saberemos em breve.

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