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O cenário político e a busca por novas lideranças

O fato de o eleitor desejar nomes novos na ribalta eleitoral não quer dizer que necessariamente esteja em busca de ideias modernas

Aluizio Falcão Filho

O fenômeno é mundial e começou com a ascensão de Emmanuel Macron e Donald Trump. No Brasil, tivemos Jair Bolsonaro. E, em dezembro, teremos no Chile ou Jose Antonio Kast (direita) ou Gagriel Boric (esquerda). Estamos no final de uma transição na qual buscamos por novos nomes no cenário político.

E Joe Biden? E a liderança de Luiz Inácio Lula da Silva nas pesquisas brasileiras?

Biden e Lula trazem no bojo de suas candidaturas (no caso do democrata, a vitória) uma rejeição às escolhas feitas nas eleições anteriores. Mesmo assim, o presidente americano incorpora em sua chapa algo inédito: a vice-presidente Kamala Harris. Goste-se dela ou não, uma coisa é certa. Trata-se de um fenômeno único. Estamos falando de uma mulher negra e filha de imigrantes (o pai é jamaicano e a mãe indiana), que assumiu por algumas horas a presidência na sexta-feira, enquanto o titular da Casa Branca passava por um procedimento cirúrgico. Entre os democratas, espera-se que Biden não dispute as próximas eleições. Neste caso, a candidatura de Harris é uma possibilidade bastante provável.

No Brasil, há um grupo considerável que rejeita Lula e Bolsonaro. Dependendo da pesquisa, esses eleitores vão de 30 % a 40 % do total. Trata-se de um contingente razoável de pessoas. Mas, no fundo, esses brasileiros não estão apenas rejeitando políticos que representam a direita e a esquerda – e sim ansiando por uma renovação dos quadros políticos.

Se Bolsonaro ainda é relativamente jovem, com 66 anos, mostrou nos últimos tempos que está fazendo política exatamente como fazia seu oponente – comprando apoio de sua base parlamentar. Há, evidentemente, uma diferença brutal no método. Lula criou o mensalão e dava uma mesada à base de caixa dois aos parlamentares que o apoiavam. Bolsonaro, por sua vez, costura seu suporte através de mecanismos legais e clássicos, como o preenchimento de cargos e liberação de verbas. De qualquer forma, estamos falando do velho toma-lá-dá-cá. O do PT foi ilegal; já o de Bolsonaro é moralmente questionável, mas dentro da lei.

O fato de o eleitor desejar nomes novos na ribalta eleitoral não quer dizer que necessariamente esteja em busca de ideias modernas. Pelo contrário. Tome-se como exemplo o candidato chileno, Kast, que é um admirador confesso do ditador Augusto Pinochet. Sua campanha é baseada no trinômio “República-liberdade-família” e ele reclama constantemente do que chama de “lobby gay” ao se referir à agenda de gênero.

Ou seja, tanto no caso dos chilenos como no dos brasileiros, os conservadores querem nomes diferentes para defender ideias que podem ser classificadas como antiquadas – assim como é antiquada também a noção de que o Estado pode controlar tudo, uma certeza dos esquerdistas.

Curiosamente, há poucos correndo por fora e defendendo abertamente o ideário dos mais jovens, que abraçam a diversidade e as questões envolvendo o meio ambiente. O único político que realmente adotou um discurso assim foi Guilherme Boulos quando disputou a prefeitura em 2020 – mas sua orientação econômica e seu passado como líder dos sem-teto foi (e é) um empecilho para a vitória em qualquer cargo do Poder Executivo. Mesmo assim, ele chegou ao segundo turno das eleições municipais em São Paulo, deixando de fora partidos com maior tradição que sua sigla, o PSOL.

A busca pela renovação teve raízes em protestos populares, como aquele ocorrido no Brasil em 2013 e os realizados no Chile em 2019 e em 2020 (este, conhecido como “Santiagaço”). Foram manifestações populares que juntaram várias classes sociais e, ao mesmo tempo, tinham múltiplas agendas de demandas e queixas.

No fundo, esse espectro amplo de críticas envolve uma insatisfação maior – a de que a sociedade não se sente mais representada pelos políticos que estão à frente das decisões. Além disso, o ciclo eleitoral parece ter se encurtado. Antes, via-se um mandato de quatro anos como um período relativamente curto. Hoje, com a velocidade na qual as coisas são realizadas, um quadriênio parece ser uma eternidade.

Sergio Moro, que é hoje rejeitado pelo PT e pelos bolsonaristas, busca surfar esta onda e se apresentar como um representante de uma proposta nova (começa inclusive a tentar incursões sobre temas para ele inéditos, como educação e economia). Luiz Felipe D’Ávila, cientista político de muitas qualidades e com grande experiência na modernização de várias prefeituras brasileiras, também busca ser reconhecido como uma novidade neste tabuleiro.

O PSDB, igualmente, tem dois nomes novos em busca da candidatura do partido às eleições presidenciais de 2022. Mas falta a eles densidade eleitoral, como mostram as pesquisas. Como compatibilizar a novidade com a falta de fôlego nas pesquisas? A resposta está nas redes sociais – uma ferramenta habilmente explorada por Jair Bolsonaro desde 2016, que o credenciou a disputar e vencer o último pleito.

Por enquanto, novos nomes como João Doria, Eduardo Leite, Sergio Moro e Luiz Felipe D’Ávila estão olhando apenas para a política partidária e trabalhando sua imagem na imprensa. São dois passos necessários. Mas o jogo será ganho, mesmo, nas redes sociais, que têm o poder de gerar notoriedade e reduzir a rejeição. Neste campo, paradoxalmente, os personagens mais antigos têm nadado de braçadas e feito um trabalho muito melhor.

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