Carta aberta ao governador João Doria

Fica aqui o meu pedido: conecte-se com o empresário que o senhor foi até recentemente e coloque-se no lugar dessas pessoas. O trabalho é a vida delas

Prezado Governador,

Nos conhecemos há 22 anos e posso dizer que essa é uma amizade que está em sua segunda geração, já que nossos pais foram grandes amigos na década de 1960 e nutriam uma admiração mútua, seja por conta do mercado publicitário, onde atuavam, ou pela identificação de ideias no plano político. Durante dez anos, minha mulher trabalhou em sua empresa e pude, com isso, conhecê-lo mais de perto.

Tive sérias reservas quando soube de sua entrada no mundo político. Mas rapidamente percebi o potencial de sua candidatura a prefeito e passei a acreditar em sua vitória. Fiz prognóstico idêntico quando seu nome foi ventilado para a sucessão de Geraldo Alckmin e sempre digo, quando escuto previsões sombrias em relação a uma eventual participação na corrida presidencial de 2022, que ninguém pode subestimar sua obstinação e seu poder de persuasão.

Esse preâmbulo tem como propósito mostrar que a presente missiva é de alguém que tem simpatia pela sua figura e gostaria de ajudá-lo. Muitas vezes, quem nos cerca pinta um cenário diferente da realidade apenas para nos agradar. É por isso que escrevo essa carta – para chamar sua atenção a uma insatisfação corrente no comércio paulistano.

Como o governador sabe, tenho amigos que atuam na área de restaurantes em São Paulo. Muitos comerciantes também estão nesta minha rede de relacionamento, com lojas em ruas e em shopping centers. E vejo que, entre os empresários destes ramos, sua imagem não é exatamente das melhores.

Embora todos reconheçam a importância do isolamento social e a seriedade da pandemia gerada pelo coronavírus, estamos numa fase de flexibilização que ficou pela metade. Ontem, o governo mudou as regras para, digamos, acelerar a maleabilidade da quarentena. Mas shoppings e comércio de rua, assim como restaurantes, continuam na mesma situação: podem abrir somente algumas horas. Isso gera despesas adicionais que não são cobertas pela receita atual.

Percebe-se claramente que as pessoas em São Paulo respeitam o isolamento social, que está praticamente nos mesmos níveis do auge pandêmico, quando tudo estava fechado. Há um número enorme de empresas que permanecerão em Home Office até o final do ano, reduzindo o fluxo de pessoas nas ruas. Por isso, não seria o caso de ampliar o horário de funcionamento desses estabelecimentos?

Vários empreendedores, que se reuniram em um grupo de WhatsApp capitaneado pela conselheira de empresas Marly Parra, divulgam hoje um manifesto no qual se pede basicamente duas coisas: a abertura dos shopping centers da cidade de São Paulo no período das 12:00 às 20:00 (com lojas funcionando das 14:00 às 22:00) e a extensão do horário de funcionamento dos bares e restaurantes até as 22:00. Quem assina este documento, dirigido ao senhor e ao prefeito Bruno Covas? Redes como Amor aos Pedaços e Varanda Grill. Lojas como Breton, Max Mara, MOB e Ornare. E pessoas físicas que desfrutam de sua amizade, como as empresárias Sônia Hess e Janete Vaz, além de Marcelo Fernandes, dono de vários restaurantes, entre os quais o estrelado Kinoshita.

A principal reclamação: desde o início da pandemia, 35% das empresas já faliram, segundo levantamento deste grupo, e a consequência é o desemprego de mais de 100.000 trabalhadores.

Há setores que sofrem mais que outros. Imagine, por exemplo, o caso das pizzarias. Há quem diga existirem mais de 6 000 restaurantes do gênero na cidade. Esses estabelecimentos conseguem sobreviver apenas de delivery? É claro que não. Assim, é preciso entender também o lado de quem precisa trabalhar para sobreviver. Diante de uma população como a paulistana, que respeitou as regras, arrisco a dizer que estender os horários de funcionamento não levará hordas de pessoas às ruas – mas dará um refresco a quem está corroendo o próprio capital ou tomando empréstimos para continuar de portas abertas.

Lembro de um evento do LIDE, realizado em 2009, quando estávamos sofrendo os efeitos da crise das subprimes. O João Doria daquela época disse o seguinte: “Não é choramingando que iremos sair dessa situação e sim com trabalho duro”. Digo ao João Doria de hoje: restauranteurs e lojistas não querem choramingar – e sim poder trabalhar duro. Mas suas portas, por determinação da lei, precisam ficar cerradas a maior parte do tempo. Somente uma pessoa, agora, pode evitar esse choro e reativar o ânimo empreendedor desses paulistanos: o governador de São Paulo (o prefeito, em conversas reservadas, já disse que a caneta, neste quesito, é somente sua).

Fica aqui o meu pedido: conecte-se com o empresário que o senhor foi até recentemente e coloque-se no lugar dessas pessoas. O trabalho é a vida delas. Não apenas pelo dinheiro gerado pelas vendas, mas pela realização em criar um negócio e aprimorá-lo a cada dia. Ser empreendedor ou governante é, muitas vezes, tomar riscos. Portanto, que tal encarar essa possibilidade? Se houver um descontrole – hipótese da qual duvido fortemente –, volte atrás e tranque tudo de novo. Mas dê a esses eleitores a chance de tentar voltar uma vida minimamente sustentável e com alguma esperança.

Atenciosamente,

Aluizio Falcão Filho

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