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Nova Exame

Bolsonaro começa a colecionar desafetos – quem diria? – nas Forças Armadas

Nos últimos dias, dois acontecimentos mostraram que a relação está estremecida com uma parcela dos militares

Aluizio Falcão Filho

O presidente Jair Bolsonaro tem mostrado grande disposição de rifar aliados desde o início de seu mandato. Brigou com representantes de sua base no Congresso, dirigentes de partido, ministros e nomes fortes do Poder Judiciário. Apesar desta tendência à beligerância, houve um território considerado neutro, no qual seus personagens sempre buscaram o entendimento constante com o Planalto: as Forças Armadas. Nos últimos dias, no entanto, dois acontecimentos mostraram que a relação está estremecida com uma parcela dos militares.

Um deles foi a nota divulgada pelo diretor presidente da Anvisa, o contra-almirante Antonio Barra Torres. O texto desfila críticas a declarações recentes de Bolsonaro sobre a vacinação de crianças (“Você vai vacinar o teu filho contra algo que o jovem por si só, uma vez pegando o vírus, a possibilidade de ele morrer é quase zero? O que que está por trás disso? Qual o interesse da Anvisa por trás disso aí?”, cutucou o presidente, insinuando algum tipo de interesse escuso por parte da agência reguladora). Barra Costa mirou a jugular e respondeu: “”Se o senhor dispõe de informações que levantem o menor indício de corrupção sobre este brasileiro, não perca tempo nem prevarique, Senhor Presidente. Determine imediata investigação policial sobre a minha pessoa aliás, sobre qualquer um que trabalhe hoje na Anvisa, que com orgulho eu tenho o privilégio de integrar”. Além disso, Barra Costa faz questão, no texto, de reforçar que é um militar graduado, médico de formação e cristão.

Outro ponto de desgaste foi a carta do general Paulo Sérgio, comandante do Exército, orientando que o retorno dos militares à caserna deve ser precedido por um período de quinze após a vacinação contra a Covid-19 (além de uma ordem para que os comandados não compartilhassem fake news nas redes sociais). Foi o suficiente para irritar o presidente.

Os militares têm grande tradição em vacinar soldados e oficiais. Durante os anos de chumbo, no Brasil, foram responsáveis pela disseminação da cultura de vacinação que hoje é comum em nosso país. E a ligação entre Forças Armadas e vacinas não é um privilégio brasileiro. O exército americano, por exemplo, usou tipos provisórios de inoculação contra a varíola durante a guerra da independência (a vacina seria criada apenas em 1796) e, a partir daí, sempre imunizou seus membros.

Bolsonaro, apesar da origem verde-oliva, já disse que não vai se vacinar e faz críticas, aqui e ali, ao processo de imunização. Volta e meia, o presidente diz que a vacina é “emergencial”, pois não foi exposta a um período longo de testes como outros inoculantes no passado. Ocorre que, em pandemias, as autoridades encurtam os prazos necessários de testagem e tomam atalhos protocolares. Um exemplo disso ocorreu em uma pandemia do passado, a de meningite, nos anos 1970. Vivíamos sob a égide de um governo de exceção. O poder público mandou as crianças de então – eu, inclusive – tomarem as vacinas, que tinham sido desenvolvidas recentemente. Naquela época, ninguém perguntou qual era o fabricante da vacina, questionou o período de testes ou ousou dizer que o imunizante era provisório e poderia oferecer riscos.

O mal-estar criado por Bolsonaro não atinge a totalidade das Forças Armadas, é verdade. Mas seu apoio nas tropas, que no início de 2019 era quase que incondicional, diminuiu, especialmente entre os oficiais mais graduados. Um dos pontos deste desgaste é justamente o comportamento do mandatário em relação à Covid-19. Bolsonaro, porém, é assim. Ele prefere naufragar achando que está certo do que fazer concessões e amealhar apoio. Outras críticas de oficiais da ativa surgiram no período de chuvas na Bahia, que provocaram várias tragédias em municípios do estado. Bolsonaro preferiu ficar em Santa Catarina, onde estava descansando (imagem). Muitos militares achavam que o presidente teria de interromper as férias e prestar solidariedade às vítimas baianas.

O presidente ficou onde estava e foi além. Negou que estivesse descansando. “É maldoso quem fala que eu estou de férias”, afirmou em coletiva de imprensa. Só que, no dia 14 de dezembro, fez um discurso no qual anunciava dois períodos de descanso. “Vou ter dois períodos de folga esse ano. Cinco dias agora no Natal e cinco dias depois”, disse.

Essa não foi a primeira vez que Bolsonaro negou o inegável. E, ao julgar pelo andar da carruagem, não será a última.

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