Boa mesmo é a geração que nasceu nos anos 1960 e 1970. Será?

A visão dos mais velhos sobre a minha geração não era muito diferente da que os meus contemporâneos têm dos jovens de 2021

Aluizio Falcão Filho

Há dez dias, ouvi de um amigo sua preocupação em relação à geração de nossos filhos e filhas – a de que é uma galera muito frágil, especialmente se comparada àqueles que nasceram nas décadas de 1960 e 1970, como é o meu caso e o dele. Nossa geração viveu uma forte transição de valores e de mudanças sensíveis em seu comportamento. Mas nada do que passamos pode ser comparado com as transformações que ocorreram na última década e que forjaram a mentalidade dos jovens atuais.

O comentário de meu amigo tem amplo respaldo em inúmeros memes que circulam pelas redes sociais, exaltando o espírito resiliente dos coroas e ressaltando o mimimi que em tese impera entre a juventude. O teor destas peças digitais é reverenciar quem está ficando velho e fazer uma espécie de auto homenagem através da crítica aos mais novos.

Este assunto – os jovens de hoje são mais frágeis que os de antes – me lembrou um filme da década de 1950: “Don’t Knock the Rock (Música Alucinante)”, com Bill Haley. Nesta película, um disc-jockey (Alan Freed) usa um simples truque para mostrar que o rock’n’roll não é uma fórmula destruidora da moral e dos bons costumes. Para isso, apresenta a uma plateia um ingênuo número de Charleston e argumenta que os pais daquela época também foram acusados de rebeldes e depravados por conta desta dança. Fim da história: o rock é aceito pelos mais velhos e o mocinho fica com a mocinha.

Cena do filme “Don’t Knock the Rock”, com Bill Haley — produção de 1956

Quando afirmamos que os jovens de hoje são mais frágeis e adeptos do mimimi – e que os homens mais novos não são exatamente um exemplo de macheza – é sempre bom voltar um pouco no tempo.

Fui criança e adolescente nos anos 1970 e entrei na idade adulta nos anos 1980. E me lembro muito bem de como os mais velhos viam a minha geração – essa que é enxergada hoje como o expoente da dureza e à prova de queixumes.

Os pais da minha geração implicavam com o cabelo comprido que todos os jovens (com exceção de quem estava servindo o Exército) usavam. As longas madeixas davam aos rapazes um ar andrógino e isso incomodava sobremaneira a geração anterior. Lembro de estar vendo o seriado Família Dó-Ré-Mi na casa de um vizinho e ouvir o pai dele dizer que o ator David Cassidy (foto) era afeminado. Em outra ocasião, meu professor de violão me perguntou se havia alguma música que eu teria interesse em tocar. Respondi que gostaria de aprender “Baby, I’m Gonna Leave You”, do Led Zeppelin. Quando ele viu a contracapa do disco, que tinha a foto dos quatro integrantes da banda, super cabeludos, crispou-se e disse: “Eu tenho nojo desse tipo de gente”. Em outro momento, estávamos eu e o meu vizinho conversando na nossa rua. Um sujeito mais velho veio andando, viu que o pneu de seu carro estava furado e disse para o filho, bem alto: “Deve ter sido obra daqueles dois maconheiros”, apontando para nós.

Histórias iguais a essas tenho inúmeras para contar.

Muito se fala também da fragilidade intelectual dos mais jovens. Cultos e informados, mesmo, seríamos nós, os mais velhos. Novamente, recordo de uma conversa na qual eu e um colega de escola fomos espinafrados pelo pai dele porque, segundo aquele senhor, só queríamos ouvir música e ver televisão. “Vocês não leem”, reclamava ele. Quando tinha dezessete anos, o tio de uma namorada disse a ela que eu tinha um nível intelectual muito baixo. Perguntado o porquê desta afirmação, ele respondeu que eu era como todos os meus amigos, que não liam nada – e que, para piorar, iria fazer vestibular para estudar jornalismo (um antro de ignorantes, de acordo com este cavalheiro).

A coisa não para por aí. Entre 1977 e 1980, o filme “Os Embalos de Sábado à Noite” lançou a moda da discoteca entre jovens e adolescentes. Cansei de ouvir que aquela música que ouvíamos eram um “bate-estaca” sem a menor qualidade sonora. Diante do som eletrônico das baladas atuais, as canções dos Bee Gees soam como melodias de Glen Miller comparadas com o pancadão de hoje.

Ou seja, a visão dos mais velhos sobre a minha geração não era muito diferente da que os meus contemporâneos têm dos jovens de 2021. Este conflito de gerações, pelo jeito, vai se repetir ainda muito. E provavelmente em 2055, os cinquentões do futuro vão dizer que a juventude daquele momento é muito molenga e que bom mesmo era o tempo em que Anitta e Pablo Vittar bombavam no Spotify (“O que é Spotify?”, perguntarão as crianças do futuro).

Entender a juventude é algo importante. Colocá-la no devido contexto vivido pelos jovens é vital para entendermos seu comportamento e, ao mesmo tempo, ganharmos uma percepção mais acurada dos tempos modernos. Se debocharmos ou ridicularizarmos essa nova geração, pior será para nós, já que o passado pode ser nosso, mas o futuro será deles.

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