A diferença entre discordante, adversário e inimigo

O grau de rancor é tamanho que discussões parecem ser engendradas para destilar o ódio e não com o propósito de convencer os interlocutores

No Brasil dos cancelamentos, mimimis e palavrões, as redes sociais se transformaram em campos de batalha. Reações ferozes surgem em questão de segundos, especialmente entre aqueles que podem ser classificados como militantes de alguma causa. Das causas mais indignas às mais politicamente corretas, o ativismo de hoje lida com uma matéria-prima básica: a raiva. O grau de rancor é tamanho que discussões parecem ser engendradas para destilar o ódio e não com o propósito de convencer os interlocutores.

O tratamento dispensado aos rivais no meio de um duelo através da mídia digital é sempre depreciativo e ofensivo. Os apupos são despejados em quantidade industrial em direção ao outro lado, não importa exatamente qual é o grau de discordância. A raiva, em muitos casos, é tanta que o tratamento dispensado ao oponente é um só, não importando se é o antagonista simples discordante, adversário ou inimigo.

Estamos falando de três categorias de adversário em um debate. O primeiro, o discordante, apenas não concorda com o que está sendo dito por alguém – mas não necessariamente é uma pessoa que tenha uma visão de mundo completamente diferente da do interlocutor. Já o adversário nem sempre é um desafeto, mas representa um lado oposto em um conflito. Por fim, temos o inimigo. É aquele que se opõe com hostilidade e quer ver sangue.

Os dicionários vão concordar e discordar com minhas definições, mas o fato é que não existe apenas uma só camada de antagonismo. Temos opositores eventuais, frequentes e eternos. Mas, ultimamente, o tratamento dispensado a todos é o de cólera intensa. Não existem mais discordantes ou adversários: são todos inimigos.

Esse comportamento, derivado diretamente da intolerância, é facilmente encontrado em nosso convívio. Amigos e conhecidos perdem com frequência seu controle em discussões que começam de forma pacata e vão ganhando octanagem conforme os argumentos são colocados à mesa. Temos uma grande dificuldade em ouvir o outro lado sem nos irritar – e cada um de nós tem o seu gatilho próprio. Para uns é a contestação do conservadorismo; para outros é a crítica ao direito das minorias. Como se vê, o que incomoda alguns é assunto corriqueiro para os demais. Mas o fato é que determinados assuntos tiram as pessoas do sério mais do que outros. E as grandes brigas nas redes sociais sofrem a ação desse tipo de combustível, o gatilho pessoal dos debatedores.

O preço a pagar pela discórdia generalizada é enorme. Amizades, relações profissionais e de parentesco sofrem com essa atitude bélica. A alternativa à convivência plural, porém, é monótona: coexistir, na maior parte do tempo, com pessoas que pensam igual a você, inviabilizando aquilo que faz o mundo girar, a troca de ideias.

Além disso, esse comportamento nos leva a um estado de eterna vigilância. Ao menor sinal de alguma opinião contrária à sua, lá vem uma torrente de acusações, impropérios e críticas. Dessa forma, não há diálogo. Ou crescimento cultural. Ou evolução mental.

Um dos pontos fulcrais do clima de discórdia que vivemos atualmente é a política. Tirando alguns homens públicos que têm o pavio curto, como o presidente Jair Bolsonaro, o ex-governador Ciro Gomes e a deputada Maria do Rosário, para ficar em alguns exemplos, a maioria da classe política não entra em estado de agressividade pura com eventuais divergências.

Vê-se vários parlamentares brigando no plenário para, depois, ouvirem um colega contar uma piada no cafezinho e darem risadas juntos. O Congresso está cheio de pessoas que entendem perfeitamente a diferença entre discordantes, adversários e inimigos. E, ao contrário de nós, conseguem conviver com a diferença e respeitam pontos de vista opostos.

Geralmente criticamos os políticos e desprezamos vários deles. Mas precisamos aprender um pouco com esses indivíduos a arte de não guardar rancor por conta de antagonismos e pelejas mentais. E entender de uma vez por todas que não somos os donos da verdade e que, em uma democracia, precisamos entender o que se passa na cabeça de quem pensa diferente. Só assim conseguiremos construir um mundo mais justo e próspero.

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