Os “não empregáveis”

Treinar a massa de desempregados sem qualificação para entrar no mercado ou retornar a ele é um caminho de inclusão fundamental pós-pandemia

A crise causada pela covid-19 provou que somos desiguais na saúde e na doença. Os mais pobres estão morrendo mais, têm mais dificuldade de trabalhar de forma remota, seus filhos estão ficando para trás pela falta de aulas online: essas são algumas das facetas mais ­cruéis da desigualdade brasileira em sua versão covid-19. Mas a pandemia vai passar, e seus efeitos na acentuação de diferenças entre ricos e pobres ficarão. Um caso particularmente preocupante é a combinação de um alto desemprego com a digitalização acelerada de nossa economia. Parte desse contingente não conseguirá se reempregar por pura falta de habilidade digital — é o drama dos não empregáveis.

Antes da pandemia, já enfrentávamos um paradoxo. Enquanto milhares de empresas tinham vagas de trabalho abertas, o país somava 11% de sua população economicamente ativa no desemprego. Falo de caixas de supermercado, técnicos de enfermagem, programadores. Posições que não eram preenchidas pela enorme dificuldade de encontrar gente qualificada. Enquanto o país subsidiava massivamente o ensino superior, muita gente ficava de fora do mercado de trabalho porque não tinha qualificações que poderiam ser obtidas por um custo menor e com retorno muito maior. Agora adicione a isso a covid-19. Os milhões de brasileiros que perderam o emprego voltarão ao mercado, quando a pandemia passar, para encontrar empresas que abraçaram a digitalização. O paradoxo que já existia vai se agravar.

Heather Boushey, respeitada voz americana sobre políticas econômicas e autora do livro Unbound — How Inequality Constricts Our Economy and What We Can Do About It, defende que a pobreza dificulta o crescimento econômico de forma global. Ou seja, o problema de um indivíduo não se restringe a ele próprio. Afeta o ecossistema. Partindo desse pressuposto, para prosperar no pós-covid precisamos prosperar juntos. E um caminho é o movimento coordenado de governos, instituições de ensino e setor privado para elaborar um plano urgente e prático que alavanque o potencial de milhões de brasileiros: repensar a qualificação e a requalificação profissional é fundamental para o futuro de um Brasil mais inclusivo.

Se a tecnologia traz novos desafios, e seu uso se intensificou com mais rapidez no Brasil do que a média global, segundo pesquisa do Morgan Stanley, ela também oferece novos caminhos. No mesmo relatório, este momento é descrito como o começo de uma oportunidade tecnológica secular no Brasil, com capacidade de movimentar centenas de bilhões de reais. Mas, para funcionar, esses novos mercados precisam ser acessíveis a todos. A falta de qualificação profissional é um desafio mundial. Nos Estados Unidos, 20 estados se uniram para criar, em julho, a Rede de Recuperação e Requalificação, diante da taxa de desemprego de 11,1% em junho. A meta é identificar estratégias que ofereçam aos trabalhadores americanos as habilidades necessárias numa economia redesenhada pela pandemia.

A União Europeia, por sua vez, construiu uma agenda positiva para estimular a chamada competitividade sustentável. Considera direito universal o acesso à educação de qualidade e ao treinamento correto.

São pilares dessa iniciativa: (i) a definição de objetivos claros e mensuráveis, que garantam as habilidades que levem a um emprego; (ii) a construção de um ambiente de estímulo ao aprendizado constante; e, por fim, (iii) o fomento ao empreendedorismo, ao pensamento crítico, à cooperação, e ao ensino Stem (ciência, tecnologia, engenharia e matemática), especialmente para as mulheres.

Ao falarmos de qualificação, o sistema dual alemão vocacional é a grande referência para o mundo, e bem antes da covid-19. O projeto é de 1969, e o estudante passa 50% do tempo na escola técnica e os 50% restantes trabalhando, de forma remunerada, reforçando os conceitos na prática. O ensino técnico é visto como uma formação profissional relevante. Os diferentes atores do sistema são responsáveis por garantir a empregabilidade dos egressos e, mais ainda, decidir novos setores para foco e treinamento (como o da inovação digital, para utilizar o exemplo mais contemporâneo).

Na solução de um desafio como o da escassez de mão de obra qualificada, todas as experiências são bem-vindas, desde que o propósito seja oferecer a todos condições de evoluir e prosperar. Somos convidados a caminhar de um jeito diferente. Quando tiramos a economia mundial da tomada, nos últimos meses, os extremos ficaram mais evidentes, assim como a urgência em suavizar os efeitos nocivos da exclusão. A desigualdade de acesso a condições dignas de vida soou como um ultimato para revisitar o modelo econômico que rege as relações que nos trouxeram até aqui. Fortaleceram-se as vozes por investimentos pautados pelo ESG e as pressões mundiais por uma economia responsável por suas externalidades. O reset do capitalismo será tema do Fórum Econômico Mundial em 2021 e, com certeza, servirá de termômetro para testar a disposição de empresas e investidores para se comprometer, no longo prazo, com a construção de uma sociedade inclusiva.

Fomentar o senso de pertencimento com base na qualificação adequada deve ser um compromisso de todos, durante e depois da pandemia. Esse é um passo concreto para amenizar os contornos gritantes da desigualdade existente no Brasil.

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