Fratelli Tutti: por uma retomada também social

Pela primeira vez, em décadas, o brasileiro volta a enfrentar a falta do que comer. Precisamos urgentemente de uma retomada social

Já antes da pandemia, 10 milhões de brasileiros não tinham o suficiente para comer. Esta é a primeira vez que isso ocorre desde 2004. Das necessidades básicas, a mais básica é desatendida em nosso país. Nada caracteriza tanto o subdesenvolvimento do que a incapacidade de uma nação de prover alimentos essenciais a seu povo. E como bem declarou o Papa Francisco, na recém-publicada encíclica Fratelli Tutti (Todos Irmãos), “a fome é criminosa, a alimentação é um direito inalienável”. Por isso, reforça que acabar com a fome deve estar na pauta da política mundial.

Este tema recebeu a atenção necessária e políticas públicas que pareciam funcionar no Brasil, até recentemente. Ainda não sabemos os números no pós-pandemia, mas basta olhar ao redor e ver como o desemprego, a precarização do trabalho e a pobreza se espalham e clamam por uma retomada social. Temos 13,8% da população sem emprego, 13,1 milhões de pessoas. Sem uma renda mensal, o efeito é em cascata. E a fome é um dos cenários que se agravam.

A pesquisa do Orçamento das Famílias do IBGE, que traz esses dados sobre o acesso a alimentos no Brasil, abrange 2017 e 2018, e revela o vergonhoso mapa da fome no país. Em 2018, 5% dos brasileiros ingeriram menos calorias do que o recomendável, ante 3,6% em 2013. Quer dizer, voltamos ao patamar de segurança alimentar de 2004 – aquele em que as famílias não sabem se terão o que comer no futuro ou já sentem a redução da quantidade ou qualidade dos alimentos que consomem.

Diante desses números, estamos, com certeza, mais distantes de cumprirmos as metas dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU, em específico a de número dois, que trata da Fome Zero. E isso em toda a América Latina, que assiste a um retrocesso nesse quesito básico à dignidade e evolução humana. No relatório intitulado Estado da Segurança Alimentar e da Nutrição no Mundo em 2020, a previsão para 2030, prazo limite para atingirmos os ODS, é que 67 milhões de pessoas estejam passando fome na região, 20 milhões a mais do que hoje. É preciso pontuar que esse levantamento também não leva em conta as transformações provocadas pela pandemia.

Quem ousa arriscar um cenário diferente diante do desemprego em massa, de uma população não qualificada e que enfrenta novos e mais desafiadores obstáculos com a digitalização da economia, e da desigualdade acentuada em múltiplas vertentes?

Há um potencial gigantesco de transformação para um futuro de prosperidade mais compartilhada. O mais recente desses movimentos globais, que colocam em xeque o capitalismo tal como foi operado até hoje, é o Imperative 21. Liderado pelo B.Lab americano, e representado no Brasil pelo Sistema B, o movimento questiona o sistema econômico por trás de todas as nossas relações. A pergunta é até quando aceitaremos a desigualdade extrema de oportunidades e de acessos e o descaso com o meio ambiente como normais?

A primeira intervenção da iniciativa foi na bolsa de valores Nasdaq, em Nova York. Quem passava pela Times Square via práticas do atual modelo econômico como extrativismo, salário mínimo, os vencedores levam tudo, serem substituídas por outras essenciais para uma sociedade e planeta saudáveis: regeneração, salário de vida, e prosperidade compartilhada. O Imperative 21 quer influenciar essa mudança de mentalidade em mais de 72 mil empresas, em 80 países. E se soma a outros movimentos que começaram bem antes da pandemia. Do Business Roundtable, das cartas anuais da BlackRock, do Stakeholder Capitalism ou da iniciativa do Fórum Econômico Mundial, chamada de o Grande Reset do Capitalismo, nunca na nossa história vimos tamanha ebulição no ecossistema dos negócios. Se há algo que a pandemia trouxe foi a urgência de refletirmos e agirmos na construção dessa nova forma de nos responsabilizarmos, de vez, pela nossa vida e pela vida do outro.

Esse olhar fraterno presente na encíclica papal é base, se for exercido com sinceridade, para transformarmos as nossas relações, porque tem a ver com pertencimento, que se opõe ao individualismo criticado pelo Papa Francisco. O economista britânico Paul Collier, no livro O Futuro do Capitalismo, traz o senso de pertencimento como um dos impulsionadores de um sistema econômico mais ético. Quando nos enxergamos uns ao lado dos outros, e não em oposição, somos capazes de profundas mudanças, e com olhar de inclusão para todos.

Participar desse momento da história é um privilégio porque nos oferece abertura para fazer diferente e a partir do próprio capitalismo. O modelo revisitado pelo exercício do olhar a todos os stakeholders é capaz de promover a tão necessária prosperidade compartilhada. Se há tantos problemas, como o da fome, do desemprego, da falta de qualificação, há também espaço e muito trabalho a ser feito.

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