O que espero aprender a com CPI da covid

É sabido que, desde o início, Bolsonaro defendeu a estratégia de vencer a pandemia pela imunidade de rebanho

Toda CPI - como, aliás, todo impeachment - tem um elemento político em sua composição. Ninguém quererá investigar - e, portanto, constranger - um aliado. O fato dela ser levada adiante por parlamentares, e não por agentes da polícia e promotores, já sublinha esse fato. Assim como o fato de ela ser um instrumento da minoria parlamentar: pode ser iniciada pelo voto de apenas um terço da Casa e não, pode, como bem apontou o Ministro Barroso, ser engavetada pelo presidente da Casa.

O elemento político, contudo, vem acoplado a um objeto real: uma conduta suspeita que demanda maiores investigações. No caso, o que está em investigação - caso a CPI prospere - é a conduta do governo federal no combate à pandemia. Muitas das ações do presidente e de seus ministros levantam questões sérias e custaram a vida de milhares de pessoas.

Algumas das perguntas que espero ver respondidas na CPI, e que possivelmente envolvem condutas criminosas do governo:

Quanto o governo gastou para comprar, produzir e distribuir hidroxicloroquina pelo Brasil? Como esse esforço do governo federal se alterou conforme surgiam novas evidências da ineficácia do remédio para tratar covid e do risco de seus efeitos colaterais sobre a população? O que explica o aparente sobrepreço de 167% pago pelo governo nos insumos da cloroquina? Idem para outros integrantes do kit-covid.

Quanto foi gasto para o desenvolvimento do aplicativo do Ministério da Saúde? Lançado em Manaus às vésperas do colapso do oxigênio, esse aplicativo recebia as informações digitadas pelo usuário e, independentemente da idade, peso e sintomas descritos, receitava sempre a mesma coisa: os remédios do kit-covid. Um idoso com tosse e um bebê com dor de barriga receberiam a mesma indicação, só com dosagens diferentes.

O aplicativo foi tirado do ar pouco depois de ter sido lançado com muito estardalhaço. Quem teve a ideia e quem acompanhou a execução desse projeto? Quanto de dinheiro público foi gasto em algo completamente inútil?

Houve, por parte do presidente ou do governo, divulgação de conteúdo sabidamente falso para enganar o público quanto aos riscos da doença, ou da eficácia do isolamento social, de remédios ou de vacinas?

Bolsonaro sempre se mostrou contrário a todo e qualquer plano vindo dos governos estaduais. Existiu, em algum momento, um plano federal de combate ao covid? Ou o presidente propunha substituir os planos dos governadores com a total ausência de qualquer ação?

Bolsonaro se aproximou de funcionários e subalternos quando já tinha suspeita de covid? Ele chegou a pressionar seus subordinados a não usar máscara ou tomar outras medidas de proteção pessoal contra o contágio?

Por que propostas de venda antecipada de vacinas, como o da Pfizer em 14 de agosto de 2020 de nos vender 70 milhões de doses, não foram respondidas? Quem foi o responsável por isso? Se tivéssemos aceito, a vacinação brasileira poderia ter começado já em dezembro. Da mesma maneira, quem foi o responsável pela quebra da confidencialidade do contrato de 100 milhões de doses com a Pfizer, assinado recentemente? O contrato foi publicado por dez dias no site do Ministério da Saúde. Agora a empresa pode, se quiser, cancelar a venda.

É sabido que, desde o início, Bolsonaro defendeu a estratégia de vencer a pandemia pela imunidade de rebanho. Ao agir contra o uso de máscara, contra o isolamento social, promover curas falsas e negligenciar a compra de vacinas, Bolsonaro tinha como intuito aumentar o contágio da população, promovendo assim sua almejada imunidade de rebanho? Interrogatórios com os ex-ministros Mandetta, Teich e Pazuello podem nos ajudar a entender qual a intenção de Bolsonaro por trás de suas ações públicas e nos permitir responder: Bolsonaro trabalhou intencionalmente para infectar a população brasileira com o coronavirus? Houve uma estratégia institucional de propagação do vírus?

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