Novo ministro, novo Governo?

Diferentemente de Abraham Weintraub, o novo ministro da Educação, Carlos Decotelli, diz que fará uma administração mais técnica e menos ideológica

Mesmo quando tenta superar crises o governo acaba tropeçando. Mal tomou posse, o novo Ministro da Educação, Carlos Alberto Decotelli, já se vê às voltas com um primeiro possível escândalo: o suposto doutorado pela Universidade Nacional de Rosário, na Argentina, não existe. Fica em dúvida também, portanto, o pós-doutorado na Alemanha. Não será a primeira vez neste governo em que um currículo falso é descoberto. Aliás, colocar títulos inexistentes (não raro abandonados no meio do percurso) é uma prática infelizmente comum no Brasil.

Seja como for, passado esse primeiro embaraço, o que podemos esperar de Decotelli? A gestão Weintraub foi completamente ideológica e voltada não a algum resultado concreto, mas à briga política nas redes sociais. Decotelli se anuncia em oposição a ele; em entrevista a O Globo, disse que fará um ministério técnico. E deu aquilo que será o norte de sua pasta: não tanto a implementação de um projeto que ele já traga pronto, e sim o diálogo, a construção junto ao Congresso, às secretarias estaduais e a organizações da sociedade civil. Nomes do DEM, do MDB e da REDE foram citados como interlocutores, além de Rodrigo Maia.

É justamente o que Weintraub se recusava a fazer. Na já célebre reunião de 22 de abril, cujo vídeo rodou o Brasil, Weintraub dava voz à sua insatisfação dentro do governo: o presidente negociava com pessoas que, segundo o então ministro, ele deveria tratar como inimigas. A nomeação de Decotelli, então, é uma verdadeira reversão de curso. Agora que o FNDE – que Decotelli presidiu – está nas mãos de partidos do Centrão, o MEC como um todo também estreitará laços com a política institucional. Ou seja, com o “establishment” tão demonizado por Weintraub e pela ala olavista da qual ele faz parte. Vencem os militares e a política.

No início do mandato, podendo escolher entre priorizar um governo mais técnico e estável ou mais ideológico e combativo, Bolsonaro optou pela segunda, acreditando que isso ajudaria seu projeto pouco democrático de poder. O estrago e o tempo perdido foram arrasadores. Agora, grandes nomes técnicos não querem se aproximar de sua gestão, cientes do dano reputacional e da pouca chance de sucesso de suas agendas. O dilema se transformou: dobrar a aposta na ideologia e no combate ou aceitar compor com a política ordinária e fisiológica. O que está em jogo nessa decisão também mudou: não é mais a escolha entre melhores resultados para o Brasil ou maior poder nas mãos do presidente. É entre terminar o mandato ou ser derrubado.

Bolsonaro parece ter tomado sua decisão. Fabio Faria nas Comunicações, Decotelli na Educação, falas conciliatórias para com o STF e o Congresso. Até os mortos pela Covid-19 ele homenageou. Será que a página finalmente foi virada e os ímpetos revolucionários deixados de lado?

Eu duvido muito. Se abandonar a retórica do conflito e da radicalização, Bolsonaro perderá seu maior ativo político: uma militância expressiva e muito ativa. Com ela, pode ir a popularidade, pensando que num futuro próximo o auxílio emergencial, que será esticado por mais três meses, deve acabar.

Acostumamo-nos, neste um ano e meio de governo, ao esticar e afrouxar da corda. Agora, Bolsonaro afrouxa – e afrouxa mais do que jamais fez. Mas é certo que irá esticá-la de novo. Mesmo porque, nos outros poderes, a interlocução vai se tornar menos complacente.

Por mais que a militância bolsonarista faça a caveira de Rodrigo Maia, o fato é que ele tem sido um Presidente da Câmara muito solícito e cooperativo: inclusive abraçou, sem contrapartida nenhuma, a agenda econômica do governo. Em alguns momentos, chegou mesmo a ser uma espécie de Primeiro-Ministro brasileiro. O que virá em 2021? Não se sabe ainda, mas a chance de um Presidente da Câmara mais puramente transacional é real: Arthur Lira, que agora abraço Bolsonaro, é um amigo muito mais exigente do que um Rodrigo Maia algo hostil.

Por fim, temos a mudança do Presidente do Supremo. Toffoli é o mais político dos Ministros. Luiz Fux (de “In Fux we trust”), que assume em setembro, um dos mais lava-jatistas. Recentemente rebateu a fala de Bolsonaro em que o Presidente buscava se eximir de culpa pela negligência do governo federal na pandemia.

Por enquanto, reina a paz e o centrão. Os espectros do impeachment e da cassação se afastam. Mas as investigações sobre o Gabinete do Ódio e do ex-gabinete de Flávio seguem. E Bolsonaro segue desconfortável na roupa de um Presidente normal. Os fósforos foram apagados, mas os barris de pólvora continuam no Palácio.

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