Flordelis: milagre do storytelling

O fato é que, com os detalhes do assassinato do pastor Anderson do Carmo, agora todos querem distância daquela com quem antes corriam para tirar foto

Não sou capaz de sequer compreender todos os meandros e relacionamentos envolvidos na história da Deputada Flordelis. A cada dia um novo detalhe aparece: relacionamento com filho adotivo, casa de swing, envenenamento, assassino de aluguel, oferta de filhas para satisfazer pastores visitantes. Flordelis foi, nesta ordem, mãe, sogra e esposa de Anderson. Alguns se escandalizam com o fato do crime estar sendo tratado como algo quase cômico, mas me parece quase inevitável que esse ângulo cômico esteja presente dada a escabrosidade da trama e o contraste gritante quando lembramos que Flordelis era um símbolo de pureza e bondade evangélicas.

Não cabe preconceito religioso aqui. Flordelis não nos deve fazer condenar todo o meio evangélico mais do que João de Deus nos leva a ter horror do espiritismo. Junto às elites culturais, é verdade que existe sim um preconceito contra evangélicos. Ele não deve, contudo, ser exagerado. O líder de movimento social Preto Zezé lançou, no Twitter, uma indagação mais angustiante: e se Flordelis não fosse de igreja, e sim de terreiro? Como teria sido a cobertura da imprensa, a reação popular, a reação da classe política?

O fato é que agora todos querem distância daquela com quem antes corriam para tirar foto. Naturalmente, cada lado do espectro político busca tirar uma casquinha desse caso. Flordelis, evidentemente, é uma política da direita brasileira. No meio evangélico, era uma estrela. Políticos da direita e da bancada da bíblia, até a primeira-dama, todos adoravam aparecer como amigos dela. Mas o outro lado também tem seu trunfo: atores globais – progressistas – se engajaram voluntariamente na produção de um filme sobre sua vida: “Flordelis: Basta uma Palavra para Mudar”. Ficamos no aguardo da sequência.

Penso que é bom sempre duvidar um pouco, manter alguma reserva, de mostras sensacionais de virtude e amor à humanidade. Se a pessoa é uma estrela pop e depende de sua imagem para viver, então, é mais provável ainda que a história real não seja tudo aquilo que ela diz; ou mesmo nada do que ela diz; ou ainda o exato oposto do que ela diz.

Cuidar de um filho já é um trabalhão. Adotar uma criança é uma ação admirável que acarreta ainda mais cuidados e trabalho, posto que traz consigo aspectos delicados e não raro sofridos. O que dizer de adotar 51 filhos além de quatro biológicos? Que uma história tão virtuosa dessas tenha sido aceitada sem o mínimo de desconfiança por tanta gente revela uma sociedade carente de bons exemplos, mas pronta a acreditar no primeira aparência brilhante que apareça pela frente. Fazer direito a própria obrigação, agir com honra, honestidade e comedimento? Isso ninguém está nem aí. Gritar do alto dos telhados atos sobre-humanos de altruísmo e auto-sacrifício? Daí o sucesso é total

Hoje em dia tudo é storytelling. Todos têm uma narrativa de superação, de grandes feitos, uma conversão extraordinária, uma aventura no limiar da vida e da morte. Quem não tem está automaticamente limado; é sem graça, nada tem a dizer.

Por trás de toda narrativa inspiradora há uma dose de mentira. Não raro a história verdadeira é até mais interessante (neste caso, infinitamente mais), embora menos edificante e propícia à nossa vaidade. Se reconhecermos isso podemos ter uma relação mais saudável com a imperfeição de nossas próprias vidas, e ser menos crédulos com o próximo bastião de virtudes esplêndidas que cruzar nosso caminho.

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