Biden venceu (venceu mesmo): e agora, Bolsonaro?

Ao não ter parabenizado Joe Biden pela vitória, Bolsonaro integrou o grupo de China, Rússia, Coreia do Norte e México

O presidente brasileiro pode adiar alguns dias, fazer sua graça. Ao não ter parabenizado Joe Biden pela vitória, integrou o grupo de China, Rússia, Coreia do Norte e México. Todos eles países rivais dos EUA (no caso do México, embora próximo aos EUA, governado por um presidente bolivariano). Nos alinhamos com os rivais, e desautorizamos os aliados Reino Unido, Alemanha, Israel, Japão, Coreia do Sul. A esta altura, a própria China já reconheceu a vitória do Democrata.

Trump fará de tudo para roubar a eleição, mas nada indica que será bem sucedido. As recontagens não têm qualquer perspectiva de dar novos resultados. As acusações de fraude são todas sem base, literalmente tiradas dos esgotos das redes sociais e fóruns de mensagens, celeiros de teóricos da conspiração e psicopatas.

Quando esbarram na Justiça e na necessidade de se justificar com algo além do que posts anônimos e vídeos sem procedência conhecida, se desfazem. Por fim, as estratégias jurídicas para desqualificar votos em diversos estados (por terem chegado tarde, ou sido feito pelos correios, etc.) também não dão qualquer mostra de que prosperarão na medida necessária para reverter diversos estados.

Trump está nomeando para postos chaves da segurança indivíduos leais a ele, o que sem dúvida levanta suspeitas. Será ele louco o bastante para contemplar um autogolpe? Eu já não duvido de nada. Mas ainda que seja o caso, essa estratégia suicida não teria grandes chances de sucesso. Como a campanha de Joe Biden falou recentemente, o governo americano não teria grandes dificuldades de expulsar um invasor da Casa Branca.

Sendo assim, e olhando para a conduta de todos os outros países, o governo brasileiro acabará tendo que reconhecer o inevitável: Biden venceu, será o novo presidente. Isso está em perfeito acordo com os interesses de longo prazo do Brasil, ao favorecer um mundo menos conflituoso, com mais acordos comerciais e com mais respeito às leis internacionais e aos órgãos multilaterais como a OMC.

No entanto, é inegável que, num primeiro momento, um presidente Biden exigirá mudanças de postura do Brasil. Em especial em duas áreas: relações exteriores e meio-ambiente.

Nas relações exteriores, foi por água abaixo a estratégia de se aferrar de maneira subserviente ao governo Trump enquanto piorávamos nossa relação com o resto do mundo. China, União Europeia, mundo árabe, Argentina. Com todos esses, produzimos ruídos, estremecemos relações. Mas estava tudo supostamente bem, porque o relacionamento maravilhoso com os EUA (na verdade, servil: chegamos quase a oferecer ajuda militar contra a Venezuela) a tudo compensaria. Já não era verdade com Trump no poder: os benefícios para nós foram modestos, e o próprio Trump não hesitava, por exemplo, em impor mais barreiras sobre nosso aço.

Na cabeça de nosso chanceler Ernesto Araújo, Trump era um enviado de Deus para salvar o Ocidente. Ele chegou a usar a expressão “Deus de Trump”. Agora, aparentemente, Deus mudou seus planos. Precisaremos mudar os nossos, recuperar a altivez e a excelência diplomática que é tradição brasileira, mantendo boas relações com todos os países para garantir um mundo de paz e de regras iguais a todos.

No meio-ambiente, precisaremos de outra guinada de 180 graus. Biden, durante a campanha, chegou a falar em oferecer ajuda financeira para o Brasil controlar o desmatamento da Amazônia e, caso nada fizéssemos, sanções econômicas. Agora, já vitorioso, ele voltou ao tema, indicando que não se tratava de mera bravata de campanha: a pauta ambiental fará parte da agenda do governo Biden.

O mundo é um só. Se destruímos a Amazônia, o principal prejudicado é o Brasil, mas o mundo todo sentirá os efeitos, como aliás já vem sentindo os impactos da mudança climática. União Europeia e algumas multinacionais já estudam boicotar produtos brasileiros. O mundo globalizado exige regras mínimas para todos: regras trabalhistas, regras sanitárias, regras econômicas de concorrência justa e também regras ambientais. Trump nos dava o salvo-conduto de seu mau exemplo. Agora os EUA também entram no coro.

O Ocidente vive um conflito de valores: de um lado, a vocação universalista que acredita em democracia, direitos humanos e economia de mercado integrada. Do outro, nacionalismos populistas. Depois de alguns anos de vitórias nacionalistas, a vitória de Biden vem pender o ponteiro no sentido contrário: a ordem mundial liberal está em alta novamente. Ela sempre nos foi benéfica, mas por alguns anos nos demos ao luxo de ignorá-la. Agora não dá mais. Meio ambiente e relações exteriores precisarão mudar. Ernesto Araújo e Ricardo Salles jamais foram bons ministros. Já prejudicaram bastante o Brasil. Se não saírem agora, prejudicarão ainda mais.

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