As redes sociais fizeram bem em silenciar Trump?

O que falta a empresas como Twitter e Facebook é uma definição de critérios claros e de aplicação transparente

Não havia a menor chance de que a invasão do capitólio por uma turba de extremistas imbecilizados solapasse a democracia americana. Conseguiram apenas adiar por algumas horas a inevitável certificação pelo Congresso da vitória de Joe Biden, que toma posse no dia 20. Não deixou, contudo, de ser uma cena de forte poder simbólico e com significados os mais deprimentes para a sociedade americana. Em dado momento, manifestantes portando a bandeira dos Estados Confederados – movimento separatista e escravocrata – para o prédio que representa a União dos EUA e que foi palco das grandes vitórias dos direitos civis.

Foi uma invasão sem precedentes – a anterior, em 1814, foi feita por forças invasoras inglesas -, mas nem por isso surpreendente. É, afinal, o resultado direto e esperado dos anos de fake news, desinformação, polarização e extremismo gestados nas redes sociais com auxílio constante de políticos de direita e da mídia conservadora.

A pessoa fanatizada perde qualquer possibilidade de corrigir suas próprias crenças e valores. Já investiu tanto de sua personalidade no extremismo político e na narrativa persecutória, que fará de tudo para não reconhecer que pensou e se comportou de maneiras muito condenáveis vistas à luz da bom senso e da razão. Mesmo neste momento, milhares de americanos (e, infelizmente, brasileiros), para não ter que confrontar as consequências de suas próprias crenças, afirmam que a invasão foi orquestrada pela extrema esquerda, pelos “antifas”.

Já sabemos nome e biografia de dezenas de invasores – muitos não fizeram a menor questão de esconder suas identidades -, todos militantes de extrema direita, que estavam lá por livre e espontânea vontade. E, mesmo assim, para uma parcela da opinião pública que não quer aceitar que seu lado seja capaz de atos vergonhosos, foi tudo uma armação de esquerdistas “infiltrados”. Não há como tocar uma mente assim; ela é impermeável a qualquer fato que não confirme suas crenças.

O meio que fez com que tanta gente caísse com tanta facilidade no extremismo foi as redes sociais. Sendo assim, é louvável que os donos da principais redes tenham tomado atitudes como derrubar um vídeo de Trump e tirá-lo do ar, seja por um dia (como o Twitter), ou por tempo indeterminado (como o Facebook).

É comum se esquecer de que rede social e internet são coisas diferentes. A internet é o campo aberto, no qual qualquer um de nós pode ter um lote: um site. Já a rede social é como um grande condomínio em que podemos alugar espaços, desde que sigamos as regras internas.

Se uma pessoa começa a gritar, no salão de embarque de um aeroporto, que há bombas nas aeronaves, ela será prontamente retirada à força e possivelmente responderá criminalmente. Falas abertamente inflamatórias de uma liderança nacional num momento delicado de tensões que podem descambar para violência caem nesta mesma categoria.

O que falta às empresas de rede social ainda é a definição de critérios claros e de aplicação transparente. Que bom que limitaram o discurso incendiário de Trump; mas quantos outros não passam? Há uma preocupação legítima de figuras da direita de que, com o discurso extremista de esquerda, as redes são muito mais lenientes. Isso tira legitimidade dessa ferramente necessária.

Por fim, ter políticas anti-extremismo nas grandes redes sociais ajudar a conter o alcance desse discurso, mas pode ter efeitos contrários também perigosos. Hoje em dia, grande parte dos extremistas de direita norte-americanos usam redes alternativas, como o Parler. Ali, não encontram restrição nenhuma. O alcance de sua mensagem para o homem comum diminui, mas o grau de radicalismo aumenta exponencialmente. E, no mundo de hoje, em que todo mundo tem um smartphone na mão, e em que sempre haverá oportunistas querendo dinheiro, fama e poder por quaisquer meios possíveis, estamos sempre à beira de mundos paralelos.

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