A última chance do governo Bolsonaro?

Nos momentos ruins para o governo, parece que está prestes a cair; nos momentos bons, não partem mais ao ataque: apenas reacendem esperança de sobreviver

O dia a dia dos conflitos políticos é como uma maré que vai e volta. Em um momento um lado está por cima, capitaliza sobre isso, tenta usar sua vantagem para algo. Passados alguns dias, um fato novo ocorre, ou o lado que está por cima comete uma falta, e é a vez do outro lado tomar a ofensiva, ganhar espaço etc. Em cada movimento, os partidários de um lado ou de outro oscilam entre a confiança e a desilusão. Num momento estão certos da vitória, no outro já pensam em desistir, e assim por diante. A mudança maior, a vitória de um deles, vai se construindo pouco a pouco, em meio a idas e vindas.

Isso é muito visível na disputa sobre o governo Bolsonaro e nas movimentações nas redes sociais entre os torcedores a favor e contra o presidente. E, se há alguns meses ainda oscilávamos entre momentos em que a oposição tinha a dianteira e momentos em que o governo se mostrava forte e otimista, agora o jogo mudou distintamente: nos momentos ruins para o governo, parece que ele está prestes a cair; nos momentos bons, não partem mais para o ataque: apenas reacendem esperança de sobreviver.

Até o início da semana, as águas revoltas haviam acalmado e a sobrevivência parecia ser o caminho mais provável para o governo. Tendo sacrificado suas principais bandeiras eleitorais (anti-corrupção, liberalismo econômico – esta ainda resiste parcialmente, e anti-sistema), firmado relações com legendas do chamado “centrão”, Bolsonaro havia se blindado contra um impeachment.

O julgamento do TSE ainda levantava alguma apreensão, mas por mais que neste caso a decisão deva ser puramente técnica, é bastante improvável que nossas autoridades jurídicas decidam cassar uma chapa que goza ainda de apoio de uma minoria expressiva. Além do mais, se a chapa Dilma-Temer não foi cassada em 2017 – e lá não faltavam provas -, como justificar um resultado diferente agora? Só se algo muito comprometedor, que ainda não apareceu publicamente, tiver sido descoberto. Enfim, será empurrar o país num terreno tão imprevisível que, na falta de motivos incontornáveis, o TSE não ousaria fazer.

Mas eis que acharam o Queiroz. E agora o governo está de novo na berlinda. Não porque as possíveis novas descobertas das relações entre o Presidente, o ex-gabinete de seu filho e as milícias do Rio tenham potencial para derrubá-lo por si mesmas: todos os possíveis crimes aí se deram antes do mandato presidencial. E sim porque reforça, junto à opinião pública, a percepção de que Bolsonaro não é nada dessa revolução política que prometeram: é mais do mesmo, tem laços pouco republicanos para todo lado, e por onde passa só vigoram suspeitas e a mais pura bagunça. Não temos uma semana de paz neste governo, e invariavelmente a origem da confusão está na cadeira presidencial.

O que Queiroz fazia escondido na casa do advogado de seu filho, que aliás tinha livre curso no Palácio do Planalto? O enrosco no qual Jair Bolsonaro se meteu é complicado e nenhuma explicação possível é muito abonadora. O Senador Flávio já estava manco. O Presidente não tem partido, a bancada de seu ex-partido se dividiu. Está nas mãos do centrão. E as bombas do Queiroz, ao incendiarem a opinião pública e o ímpeto dos protestos contra o governo, aumentam o preço do centrão.

Ao se unir ao centrão, Bolsonaro está apenas fazendo jus à sua própria trajetória política. A identidade “revolucionária” é que foi uma fantasia de curta duração. E embora esteja traindo uma promessa de campanha, para sua presidência e para o Brasil a reversão à média não é de todo ruim. Por pouco brilhantes que sejam os nomes que venham do PTB, PP, PL e outros para integrar o governo, dificilmente serão mais nocivos que os militantes alucinados do olavismo. A queda de Weintraub foi um preço cobrado pelo centrão. Por isso devemos ser gratos.

A saida de Weintraub é também, possivelmente, a última chance que o governo tem de reverter o curso. No início, havia a escolha entre quadros técnicos competentes ou a maluquice ideológica. Essa já foi embora. A escolha possível agora é entre a maluquice ideológica ou o fisiologismo medíocre, que traz consigo a chance de sobrevivência. Se optar por dobrar a aposta do sectarismo ideológico e nomear alguém ainda pior no Ministério da Educação, e escalar o conflito com os demais poderes, cairá de de podre. Se ceder e compuser com o centrão, nada garante que novas más notícias não venham a derrubá-lo, mas ele terá o apoio necessário para se segurar.

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