Os impactos do Coronavírus na Educação brasileira

Claudia Costin alerta: enquanto instituições privadas dão continuidade ao ensino, o setor público fica para trás

A chegada do novo Coronavírus ao Brasil não só afetou os setores ligados à saúde e bagunçou a economia, como também acertou em cheio a Educação. Sem planejamento, treinamento e acessibilidade digital, professores e alunos encontraram um abismo no novo processo de aprendizado. A situação trouxe à tona outro problema recorrente no país: a falta de oportunidade educacional para muitos alunos brasileiros. Mestre em economia e Doutora em administração pública, Claudia Costin conversou com o Instituto Millenium, pontuou as mudanças nos novos métodos de ensino e analisou o cenário pós pandemia.

[soundcloud url=”https://api.soundcloud.com/tracks/821209462″ params=”color=#ff5500&auto_play=false&hide_related=false&show_comments=true&show_user=true&show_reposts=false&show_teaser=true” width=”100%” height=”166″ iframe=”true” /]

De acordo com a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua – Tecnologia da Informação e Comunicação (Pnad Contínua TIC) 2018, divulgada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) no mês passado, um em cada quatro brasileiros, ou seja, cerca de 46 milhões, não possui acesso à internet. Por conta disso, muitos estudantes estão enfrentando dificuldades para continuar com o ensino escolar durante a pandemia, sobretudo alunos da rede pública. Segundo a especialista, a situação de emergência e incerteza assustou, porém, escolas particulares rapidamente conseguiram se organizar e tem realizado aulas quase que desde o inicio da quarentena, com recursos mais sofisticados. O ensino público, porém, ficou para trás. “A criança ou jovem de meio mais afluente volta para casa e fica o tempo todo recluso em um ambiente que é uma família de poucos filhos, com um computador para cada, repertório cultural mais vasto por parte dos pais, com livros e outros recursos para se preparar a distância. O aluno de meio mais vulnerável quase que só conta com a escola”.

Claudia Costin comenta também a falta de acesso de estudantes a novas tecnologias. Atualmente, são 48 milhões de alunos de 9 a 17 anos de idade no Brasil, sendo que 5 milhões vivem em domicílios sem internet, acesso este que também não é de qualidade, com alta velocidade, e que, em muitos casos, se faz por meio de celular, inclusive por um único aparelho compartilhado entre toda a família. “O ideal é diversificar as mídias para que todos os alunos de escolas públicas possam ser atendidos. Pensar somente no digital é um erro”.

Leia mais
Lucas de Aragão: Falta de planejamento e continuidade prejudica o país
Tecnologia se torna aliada no planejamento de políticas públicas

Para mitigar essa realidade desigual durante o surto do coronavírus, Costin sugere que uma possível resolução para a volta às aulas seja o formato de rodízio, com atividades para casa, além de material pela TV, escrito e digital. Além da inclusão de internet de alta velocidade em todas as escolas, inclusive as rurais. Segundo o IBGE, 12% dos moradores de áreas rurais não tem internet disponível e 7,3% acham caro o equipamento para acesso. “Ainda temos turmas multisseriadas e os professores precisam de equipamentos para poder apoiá-las. Precisamos instalar internet em todas as escolas do país e, de preferência, num curto espaço de tempo, conectar também as residências”.

Enem

Mesmo em meio à pandemia e com 6,6 milhões de estudantes sem acesso à internet, na semana passada o Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM) abriu inscrições. Após polêmica e movimentação no Congresso, o Ministério da Educação (MEC) decidiu adiar as provas.Para Claudia, a medida tomada foi de “profunda insensibilidade”, visto que o ano letivo de 2020 teve cerca de 2 meses de aula até o momento. “Os secretários de educação têm que considerar que a atividade deles é defender o direito de aprendizagem de todos os alunos a despeito do que estamos vivendo. E o importante é perceber que de todas as políticas sociais, a que mais emancipa é a educação, pois ela constrói as bases para a possibilidade de uma sociedade meritocrática a partir de igualdade de oportunidades. Cabe a política pública enfatizar educação e a resposta da União não tem sido pró-ativa”.

+ Millenium Analisa: Educação e Desenvolvimento – A formação do capital humano no Brasil

O papel dos professores

Dentro de todo este processo de transição da educação, professores estão se desdobrando para minimizar os danos da falta de internet em determinadas áreas. Muitos que nem tinham competências digitais, se atualizaram, e, mesmo que em condições precárias, continuam fazendo seu trabalho. Claudia Costin relata que o papel do docente é de suma importância neste momento. “É muito bonito o esforço que as escolas públicas estão fazendo nesse país. Ao mesmo tempo, isso não resolve a questão da desigualdade educacional. Estamos diminuindo os danos que vão advir desta situação de crianças tantos dias fora da escola. Eu espero que, no retorno das aulas, a gente aproveite todo o acesso que os docentes tiveram a uma atividade de ensino digital e tenhamos a percepção renovada da profissão de professor. Nós não teremos a mesma escola normal que tínhamos há alguns anos ou até recentemente. Haverá um novo normal e os professores precisam ser preparados urgentemente para isso”.

Apoie a Exame, por favor desabilite seu Adblock.