O custo social de um planeta quente: como internalizar essa conta?

"Previsões sobre impactos financeiros da mudança climática e estimativas sobre emissões de gases de efeito estufa serão métricas cada vez mais necessárias"

O novíssimo e celebrado livro “The Ministry for the Future, de Kim Stanley Robinson, inicia-se em 2025, quando uma brutal onda de calor leva milhões de indianos à morte. A história, então, passa por alguns experimentos unilaterais arriscados de geoengenharia, crises financeiras e uma guerra travada entre emissores de carbono e ecoterroristas. Enfim, ela culmina (spoiler!) com uma das agências mais poderosas da ONU sendo presidida por alguém que se declara avatar da deusa da destruição. Ainda assim, este é um livro otimista.

Apesar de todos os desafios, a humanidade, verdadeira protagonista da narrativa, consegue definir prioridades e fazer progresso significativo em apenas uma geração, guiada por líderes ilustrados, preocupados com o futuro e apoiados pelo povo. O egoísmo, a visão míope de curto prazo e a desconfiança são fundamentalmente “ruídos”, obstáculos a serem superados ao longo da trama. Mas a grande diferença em relação à realidade atual é a importante redução da incerteza de medidas de combate às catástrofes climáticas imediatas. Mesmo desconhecendo exatamente se projetos revolucionários serão bem-sucedidos, os protagonistas da trama reconhecem que vale a pena tentar. Essas “revoluções” incluem desde a drenagem de água do interior das geleiras até a reformulação do sistema monetário e financeiro, utilizando uma moeda virtual internacional vinculada a créditos de carbono (uma espécie de stablecoin).

No mundo real, uma das formas de reduzir esse tipo de incerteza é utilizar estimativas, como as previsões dos impactos financeiros da transição climática. Isso é relativamente difícil, pois exige coordenação e compromisso com pesquisas. Nesta linha, vê-se desde 2015 um movimento internacional para reformulação da contabilidade, encabeçado por organizações como Task-force for Climate-related Financial Disclosures (TCFD), associada ao Financial Stability Board, visando a definir padrões para que empresas divulguem informações financeiras confiáveis sobre oportunidades e perdas associadas aos riscos climáticos. Neste sentido, para o caso brasileiro, a FEBRABAN recentemente atualizou a autorregulação sobre boas práticas socioambientais. Já os reguladores do setor financeiro têm propostas de adaptar suas normas a fim de convergir para as recomendações do TCFD – a exemplo da CVM, que incluiu na audiência pública nº 9 a discussão de novas exigências (em especial sobre a adoção de indicadores) relacionadas à divulgação de informações socioambientais no formulário de referência a ser enviado pelas companhias emissoras de valores mobiliários.

Além disso, é preciso analisar quanto cada atividade permite reduzir as emissões ou capturar gases de efeito estufa. De acordo com artigo publicado na Nature, a preservação e o reflorestamento de matas tropicais capturam o equivalente a 1 tonelada de carbono na atmosfera a um custo médio de US$ 50. Há, no entanto, outras sugestões mais incertas, como adicionar materiais alcalinos aos oceanos ou métodos industriais de captura direta de carbono da atmosfera. Algumas organizações avaliam projetos específicos, como a SoGive, a Giving Green e a Founders Pledge – esta última, por exemplo, recomenda alocar recursos em projetos executados pelo The Clean Air Task Force, Carbon 180 e TerraPraxis. Dessa forma, um desafio central neste campo é produzir estimativas sobre custos e efeitos da emissão e captura de carbono para a sociedade como um todo, tema de um próximo artigo.

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