Luís Pascoal: “Só acredito em investimento social privado com alma mista”

Confira a entrevista com Luís Norberto Pascoal, empresário, um dos criadores da Fundação Educar DPaschoal e do movimento Todos pela Educação

Conversamos com Luís Norberto Pascoal, empresário, um dos criadores da Fundação Educar DPaschoal e do movimento Todos pela Educação, sobre projetos socioambientais, parcerias entre setores público e privado, competitividade da indústria, entre outros assuntos, que você confere agora.

1) Você é um empresário que idealizou muitos projetos à frente do seu tempo. Ainda nos anos 80, quando muita pouca gente se preocupava com sustentabilidade ambiental no agronegócio e até proliferavam termos pejorativos (“turma que abraça a árvore”, “ecochatos”, etc), você inovou e fundou a Daterra — referência na produção de café sustentável. Você inclusive costuma dizer que dificilmente o agronegócio irá sobreviver sem uma forte preocupação ambiental. Quais as lições da Daterra para esse debate?

A Daterra nasceu em 1970 para plantar Pinus elliottii (projeto com Japão, para recuperar áreas devastadas com florestas) e produzir breu e terebintina. Com o tempo, fomos para outras espécies. Em 1978, fizemos a primeira fazenda circular: floresta, abacate e suinocultura. Totalmente voltada para o mercado europeu, com exportações semanais por via aérea. Em 1980, compramos um projeto nos EUA de gado de corte sustentável, Temple Grandin, com baixo estresse e batimento cardíaco. Os clientes eram judeus americanos que vinham ao Brasil para fazer o abate pelo método judaico. Em 1980, o IAC de Campinas pediu para nós entramos no café. Éramos o maior país do mundo nesse item e nossa imagem era muito ruim. Começamos com uma fazenda experimental em Franca e começamos a estudar os defeitos do sistema. Vimos várias oportunidades, mas seria necessária uma grande reviravolta. O Dr. Ernesto Illy da Itália me procurou e começamos uma parceria por 20 anos em pesquisa genética. Com o tempo, deixamos os outros ramos agrícolas e concentramos em cafés sustentáveis, ISO 14.001, Sistema ESALQ, Rainforest Alliance, UTZ kappé, sistema B e, em 2010, sequestro de CO2. Estamos fazendo os primeiros corredores ecológicos nas fazendas e mantemos 50% da mata natural protegida.

O risco maior é o clima. Estamos comparando as temperaturas desde 1986 e está subindo muito. Principalmente desde 2000. Em 30 anos, muitas áreas de café não terão produtividade e qualidade. Sem irrigação, não será possível produzir. O tema é crítico e, em nossa opinião, a pandemia, infelizmente com seus milhares de mortos, é um alerta muito sério. Se não cuidarmos do planeta já, estaremos comprometendo a vida de nossos netos.

2) Outro importante projeto que você ajudou a criar foi o Todos pela Educação — uma iniciativa muito central no debate sobre políticas públicas educacionais. Como surgiu a ideia do Todos e como você avalia a sua contribuição ao ensino no Brasil?

Tive a sorte de viver com um pai e mãe que me colocaram em trabalhos voluntários, brinco, desde bebê. Um terço da minha vida é voluntariado. E, nos anos 80, fui convidado pela W.K. Kellogg Foundation para ser um fellow. A partir daí, muitos projetos que ela entrava eu era escolhido para doar junto com eles e ser o responsável pelos resultados e auditoria. Foi aí que conheci a Milu Villela, dona Ruth Cardoso e Maria Helena Johannpeter.

O Projeto seria “centros de voluntariado” em todo o Brasil. Em 2000, com a entrada da Priscila Cruz, fomos eleitos o melhor trabalho entre 144 países, em Genebra. Com essa força, as 27 entidades da ONU vieram conversar conosco e abriram as portas. Começamos com o FaçaParte, Brasil Voluntário, em todos estados, com o CONSED e Undime. E, no dia do Mensalão na TV, tomamos a decisão de montar algo pela educação como única solução. Priscila, Milu e Maria Lúcia Meireles foram excepcionais e lançamos o compromisso Todos pela Educação no aniversário da Unesco, 60 anos, na casa da Milu, e depois no Museu do Ipiranga, no dia 6 de setembro. Daí em diante, foi uma luta por dia e agora a Priscila é a nossa chefe.

3) Em 1989, você também criou a Fundação Educar DPaschoal. Qual o foco da fundação e como você enxerga a possibilidade do investimento social privado complementar iniciativas públicas em educação?

A nossa empresa nasceu com nossos avós em 1908. Morreram cedo e meu pai, com 20 anos, assumiu e foi ajudado por velhos do asilo. Desde então, uma parte do que ganhava era doado para obras sociais. A empresa chegou a ter mais de 500 entidades filiadas, pois, em cada cidade que abria uma operação, o gestor tinha que ajudar velhos e crianças. Com o tempo, percebemos que seria necessário um projeto educacional transformador. Imaginamos um projeto de protagonismo juvenil, e o professor Antonio Carlos Gomes da Costa, um gênio neste tema, nos preparou e montamos a Fundação. De lá para cá, fomos aprendendo com o Trote Cidadania, o Leia Comigo, com mais de 40 milhões de livros, o Protagonismo nas escolas com 4 mil formados, o apoio aos estudantes com o FENEAD, entre outros. O Claudio Haddad me convidou para cuidar do Trote e daí….

Resumo: Só acredito em investimento social privado com alma mista. PPPs, ou seja, parceria público privada. Nossos melhores projetos sempre tiveram várias empresas e o sistema público integrado.

4) Você também tem se interessado por projetos de desenvolvimento urbano e tem chamado a atenção para um projeto chamado Villa Flora na cidade de Sumaré — que já foi foco de um estudo de caso do Insper. O que esse caso e suas próprias iniciativas nessa área nos ensinam sobre como implementar bons projetos urbanos?

Estamos vendo vários problemas se conectando em um assunto: clima, moradia e qualidade de vida. A pandemia acelerou essa preocupação. O mundo acordou. Os investidores estão mais atentos. Como somos investidores em projetos inovadores como Technopark e edifícios ecológicos, vimos o exemplo do Vila Flora como o futuro. Estamos fazendo um grande LAB em Franca, de 1.500 moradias e 100 comércios em um adensamento mínimo e somente 20% de solo impermeável. No total, serão 24 mil habitações e 6 mil comércios e indústrias, igrejas, escolas, em 1 milhão de m2 de verde natural. Parece uma loucura, mas não é. Tanto economicamente como socialmente esse conceito para a classe C+ e B-, é o que o Brasil deve perseguir.

5) Já sabemos há um bom tempo que a renda dos países é função direta da sua produtividade, o que, no âmbito das empresas, depende de práticas inovadoras de produção e gestão. Nesse sentido, você tem demonstrado preocupação sobre a consistente perda de competitividade da indústria e tem sugerido uma maior interligação com o setor de serviços, do qual você faz parte. Poderia explicar sua proposta?

Como tivemos a sorte de enveredar por vários caminhos nas 3 áreas da economia, em 1980, começamos uma empresa de tecnologia avançada. Hoje, com 40 anos de projetos e softwares, podemos antever um sério risco estrutural que já começa a dar muita dor de cabeça para a indústria. O B2C expandiu brutalmente na pandemia e o B2B não saiu do lugar. E, para cada transação B2C, se faz necessária, em média, 80 transações B2B, que ainda estão no tempo analógico. Isso irá criar um terrível problema na cadeia de suprimento e colocar muitas indústrias reféns dos comércios eletrônicos que nada produzem. Para um veículo ser reparado, são necessários de 5 a 6 níveis de transação, com importantes cálculos tributários por estado e cidade, e em tempo de 24 horas, idealmente. Essa cadeia está parada esperando cair do céu uma solução. Não vai cair não! Tem que ser construída e rápido. O Brasil é continental e demanda muita tecnologia de ponta para resolver esse dilema que se aprofunda a olhos vistos.


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