Educação na pandemia: a miopia da política educacional na periferia de SP

Sem considerar contextos, as soluções de aulas remotas adotadas pelas secretarias de educação empurraram importantes decisões para a “ponta”

A pandemia de covid-19 contribuiu para escancarar inúmeros abismos sociais existentes no país. Um dos mais sensíveis é o da educação. Até a retomada das atividades de forma remota, alunos do ensino público tiveram um início de ano letivo de 2020 sem aulas e sem suporte. Entrevistamos 18 pessoas entre pais de alunos, professores e diretores de escolas públicas periféricas da zona sul e leste da cidade para entender as dificuldades e os desafios da retomada das atividades durante a pandemia. A baixa coordenação presente nas soluções adotadas pelas secretarias de educação resultou em um espaço discricionário na implementação das aulas remotas, empurrando decisões importantes para “ponta” -- ou seja, professores e diretores, que são os agentes governamentais mais próximos do usuário na implementação da política de educação.

Isto, por sua vez, contribuiu para gerar uma variedade de cenários e uma discrepância em relação à quando ocorreu o retorno das atividades. Para explicar essa diversidade - positivas e negativas - destacamos o papel da capacidade de gestão das unidades escolares e o engajamento dos professores. Neste artigo, vamos abordar a primeiro ponto. Em um segundo texto, falaremos sobre o segundo.

A capacidade de gestão em cada escola da rede pública é um fator determinante para a qualidade da estrutura e do ensino oferecido. Durante a pandemia, ter uma gestão profissional foi importante para um desafio adicional: viabilizar o retorno das atividades escolares. A prova disso é justamente a variação de como e em que período ocorreu a volta sistemática das atividades em cada unidade escolar. Apesar da decisão formal de retomada e das medidas adotadas terem sido comuns a todas as escolas da rede, o que constatamos, de fato, nas entrevistas foi uma diferença da data de retomada das aulas, entre final de abril até setembro.

Para a volta, as escolas tiveram de realizar um processo de busca ativa de seus alunos. Unidades com dados disponíveis, como e-mail e telefone dos alunos, largam em vantagem. Isso já evidência a importância da capacidade de gestão durante este momento, uma vez que ter um cadastro organizado e atualizado não é trivial nas unidades escolares do ensino público.

Essa dificuldade fica clara em relatos como o seguinte: “Meus filhos só conseguiram fazer as atividades quando eu fui na escola para eles colocarem o número do meu filho do WhatsApp no grupo. Eles nunca entraram em contato. Eu tive que ir até a secretaria da escola, explicar o caso pra eles entrarem em contato”. Além da importância da gestão, a fala acima levanta dois pontos adicionais. Primeiro, a relevância que ferramentas como o WhatsApp tiveram para o aprendizado longe da sala de aula. De certa forma, podemos considerá-lo a “grande ferramenta informal para o ensino remoto”.

Segundo, a importância que meios alternativos de busca passaram a ter na procura ativa pelos alunos. As redes sociais tornaram-se aliadas na localização dos alunos, complementando ações como cartazes e visitas a domicílio. Tudo isso, aliado ao engajamento dos professores, tema de nosso próximo artigo.

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