Avaliação de impacto: é preciso começar pequeno, mas pensar grande

Leandro Nardi entrevista Marieke Huysentruyt e debate sobre diversos tópicos relevantes para o ecossistema de impacto social

Entrevistamos Marieke Huysentruyt, professora assistente do departamento de Estratégia e Política de Negócios da HEC Paris e diretora acadêmica do Center for Inclusive Business, centro ligado ao Society & Organizations Institute – HEC Paris. Ela também é empreendedora social com vasta experiência na criação e gestão de negócios de impacto. Nesta conversa, exploramos diversos tópicos relevantes para o ecossistema de impacto social, incluindo os principais desafios enfrentados por negócios de impacto, e a interseção entre academia e prática.

1) Conte-nos um pouco sobre a sua jornada. O que a motivou a fazer um PhD em Economia? E, a partir de então, o que a inspirou a entrar para o ecossistema dos negócios de impacto e a fundar o Oksigen Lab?

Sempre me interessei pelas motivações que levam pessoas a cooperar, contribuir para o bem comum e a se ajudar em contextos de exclusão e escassez de recursos. Também queria entender quais fatores podem tornar essa cooperação ineficaz ou mesmo problemática. Acredito que a ideia do PhD em Economia tenha nascido durante o meu mestrado na Universidade Cornell, período em que me aprofundei nas questões acima. Lá, passávamos muito tempo esboçando modelos no quadro negro (com minha orientadora Nancy Chau) e discutindo pobreza de desigualdade com alguns dos principais economistas de desenvolvimento do mundo. Isso tudo foi muito inspirador.

Já nos meus anos de PhD na London School of Economics (quando também fui pesquisadora visitante na Universidade Harvard e no Santa Fe Institute), fiquei muito empolgada com a ideia de usar insights das ciências comportamentais para estudar mercados e contratos, tais como os contratos de impacto social. Naquela época, a área de empreendedorismo social começava a ganhar força no Reino Unido, enquanto que na Bélgica (meu país natal) virtualmente ninguém falava sobre isso. Em verdade, na Bélgica, a prestação de serviços públicos estava totalmente concentrada nas mãos de agências governamentais e organizações sem fins lucrativos. Assim, eu e meus colegas enxergamos uma oportunidade de impulsionar os negócios sociais e de impacto no contexto belga. Assim nasceu o Oksigen Lab, uma mistura entre aceleradora e consultoria de boutique focada no desenvolvimento de negócios de impacto.

2) Na sua opinião, quais são os maiores desafios enfrentados atualmente por empreendedores e inovadores sociais?

A crise desencadeada pela pandemia de coronavírus é, provavelmente, o maior desafio enfrentado por inovadores sociais hoje. Por um lado, a crise gera um senso de urgência que confere legitimidade à atuação de empreendedores e inovadores sociais, ao mesmo tempo em que cria um ambiente que favorece o surgimento de novas ideias. Por outro lado, não está claro (para os empreendedores e inovadores sociais) como essas novas soluções tão importantes podem, de fato, chegar até crianças, idosos e outros grupos vulneráveis num contexto de restrições às interações sociais impostas pela pandemia. Além disso, nos EUA e na Europa, enquanto há atualmente dinheiro em abundância oferecido como parte da solução à crise –– o que, é claro, ajuda empreendedores sociais a promoverem ideias inovadoras –– algumas dessas inovações terão dificuldades quando tais incentivos e o excesso de liquidez deixarem de existir.

3) Na sua opinião, qual é a importância da medição de impacto social para o sucesso de empreendimentos e iniciativas de impacto?

Avaliações de impacto são essenciais por diversos motivos. Por exemplo, avaliar impacto é importante porque ajuda organizações e empreendedores a ganharem legitimidade, obterem acesso privilegiado a financiadores, melhorarem a transparência dos empreendimentos e, consequentemente, sua reputação junto a stakeholders externos. Em adição, avaliações de impacto também são importantes para stakeholders internos ao empreendimento, já que podem prover feedback que ajuda esses stakeholders a reorientarem sua atenção e foco. Contudo, avaliações de impacto podem também criar “pontos cegos”, com sério potencial de prejudicar o sucesso de longo prazo dos empreendimentos.

Para muitos empreendimentos, a avaliação de impacto deveria ser vista como um processo gradual: é preciso começar pequeno, mas pensar grande! Esta abordagem ajuda empreendimentos a gradualmente superarem obstáculos e complexidades, e a construir as capacidades necessárias para integrar práticas de avaliação à rotina do empreendimento. O pior cenário, a ser evitado a qualquer custo, é aquele em que o empreendedor ou a organização se opõem à avaliação de impacto apenas por conta de sua complexidade.

4) O que a inspirou a retornar à academia após sua experiência com empreendedorismo social? E quais são suas percepções acerca de interações entre academia e prática, particularmente no contexto de negócios de impacto?

Em primeiro lugar, a curiosidade científica, a possibilidade de interagir com acadêmicos da nova geração e de ensinar estudantes com backgrounds diversos foram fatores decisivos na minha escolha de retornar à academia. Você realmente não consegue controlar esses impulsos! Além disso, por mais que empreender seja muito entusiasmante, também requer muita responsabilidade e pode trazer consigo altas doses de stress. Por fim, eu também fui muito motivada pelo ambiente da HEC Paris, particularmente pelo fato de a escola ter tornado sustentabilidade –– incluindo as questões sociais e de inclusão –– um pilar central da área de estratégia. O departamento de Estratégia e Política de Negócios possui também um ambiente muito encorajador e solidário. Eu me considero verdadeiramente sortuda!

Em relação às interações entre academia e prática, eu as vejo como centrais para qualquer escola de negócios. Em especial, vejo com muito bons olhos as colaborações entre organizações e acadêmicos focadas em experimentação. Essas interações também jogam luz sobre fatos desconhecidos que não apenas são críticos para a pesquisa acadêmica, mas também são importantes para atividades de ensino. Por fim, muitas das habilidades que adquiri como empreendedora social são muito úteis hoje, na minha pesquisa, já que, na maioria das escolas de negócios, a pesquisa tende a focar em aspectos que explicam o sucesso (ou insucesso) dos negócios.

5) Fale um pouco sobre o Instituto Society & Organizations (S&O) e sobre seu trabalho no Center for Inclusive Business.

O S&O reúne mais de 50 professores interessados em tópicos de pesquisa na intersecção entre sociedade e organizações, incluindo impacto socioambiental. O instituto foi fundado pelo Professor Rodolphe Durand, na HEC Paris, em 2003. Ensino e ação são pilares centrais do nosso instituto, que funciona quase como um laboratório onde desenvolvemos e testamos novos processos –– isto é, novos modelos de pesquisa, novas abordagens de interação com gestores e gestão na prática, novos cursos e novas iniciativas para ajudar nossos estudantes a se desenvolverem e fazer a diferença no mundo.

O Center for Inclusive Business, por outro lado, é um dos centros que compõem o S&O. Foi criado com o intuito de aprofundar a já longa tradição do instituto no desenvolvimento de pesquisas e ensino sobre inclusão social nos negócios. Como diretora acadêmica do centro, trabalho em colaboração constante com a diretora executiva, Benedicte Faivre-Tavignot. Eu enxergo um enorme potencial de impacto por meio da atuação do Center for Inclusive Business, especialmente nestes tempos marcados por um crescimento desmedido das desigualdades sociais. Também enxergo a crise atual como um momento perfeito para refletir sobre como a HEC Paris pode contribuir para uma economia mais inclusiva. Um dos objetivos centrais do Center for Inclusive Business é identificar estratégias capazes de induzir as empresas a efetivamente colaborarem para a redução das desigualdades sociais.

6) Conte-nos um pouco sobre o seu artigo, recentemente publicado, que trata de recompensas e empreendedorismo social. Quais são os principais aprendizados?

O artigo discute os resultados de um experimento de campo realizado em parceria com uma das maiores agências de fomento ao empreendedorismo social no Reino Unido. A principal pergunta que respondemos é: o que motiva empreendedores e inovadores sociais? Em termos de desenho experimental, nós aleatorizamos informação sobre uma competição por prêmios direcionada a empreendedores, enfatizando três aspectos diferentes. O primeiro grupo de empreendedores recebeu materiais enfatizando benefícios financeiros que poderiam ser obtidos como premiação. Já o grupo 2 recebeu mensagens mais focadas em impacto social, enquanto que, para o grupo 3, a ênfase recaiu sobre mentoria e suporte. Um quarto grupo foi usado como controle, o qual foi exposto apenas a mensagens e materiais neutros, sem nenhuma ênfase específica.  Essencialmente, nossos resultados sugerem que a ênfase em aspectos financeiros atrai empreendedores que são mais bem-sucedidos em vencer a competição por prêmios. Em outras palavras, dinheiro tende a aumentar o esforço empreendido pelos candidatos na competição. Contudo, esses candidatos se mostram menos capazes de criar e manter negócios orientados a impacto social quando comparados aos indivíduos do grupo 2. Portanto, os aspectos enfatizados nos materiais de divulgação da competição por prêmios são muito importantes e a ênfase em aspectos monetários pode ser mais crítica para empreendimentos mais jovens.

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