Segundo turno 2020: e se as abstenções falassem?

Seguindo tendência observada no exterior, partidos brasileiros terão uma nova tarefa daqui em diante: convencer eleitores a saírem para votar

Ainda no mestrado ouvi de um professor de microeconomia uma frase que me fez parar por alguns segundos. O mestre dizia “é mais fácil você ganhar na loteria do que seu voto fazer diferença em uma eleição majoritária?”, ou seja, a probabilidade de uma eleição ser decidida por apenas 1 voto é quase nula.

 

Sendo assim, diante dessa evidente irrelevância no resulto final, o custo de transação de sair de casa para votar não compensa economicamente o benefício. Por outro lado, a vida é feita de pequenas atos de simplicidade e votar no Brasil é simples. Além de ser “obrigatório” para os(as) brasileiros(as) e, para muitos, um dever cívico.

Os elementos filosóficos são superlativos mas os fatos apontam que a abstenção é um grande “vencedora” das eleições municipais de 2020. Quando a expandimos a coalização para brancos/nulos/abstenções temos um pelotão imbatível. Como interpretar esse fenômeno de distanciamento das urnas?

Podemos começar mencionando a pandemia do coronavírus. Outras eleições locais em países como França, Coréia do Sul e Estados Unidos mostraram que houve de 5 a 10 pontos percentuais adicionais de abstenção em função da pandemia. A julgar pelos resultados das eleições municipais o Brasil seguiu a mesma tendência. Em algumas cidades ficou evidente que essa abstenção foi mais forte em regiões de maior densidade demográfica e com maior concentração de eleitores mais velhos (acima de 50 anos).

Vale lembrar também que a classe política ainda carece de empatia com os cidadãos comuns. As pessoas seguem se sentindo pouco representadas por membros do poder executivo e a percepção que a política orbita outra dimensão planetária segue firme no imaginário da opinião pública. A curva de abstenção das eleições municipais ao longo dos últimos ciclos eleitorais é crescente e preocupante. Vivemos índices de abstenção compatíveis com países de voto facultativo.

Para completar a tecnologia pode ajudar o Brasil a se aproximar ainda mais a um ambiente de voto não obrigatório. A criação do e-título (o aplicativo do TSE para ajudar a justificar o voto) facilita a vida dos eleitores que ficam em dúvida entre sair ou não para votar. Ficando mais simples justificar, mais um motivo para não votar. A adesão do e-título tende a aumentar em 2022 e podemos ter implicações sérias de abstenção.

Portanto, se abstenção falasse diria que os partidos terão uma nova tarefa daqui em diante: convencer eleitores a saírem para votar. Mostrar a importância de exercer esse ato de cidadania. Isso implica em um outro tipo de comunicação política e eventualmente campanhas mais complexas e caras. Significa, na prática, um esforço adicional para sair da jaula das “bolhas” e dialogar com cidadãos cada vez mais distantes da política. Nada simples mas, como 2020 mostrou, não dá mais para se abster dessa realidade.

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