“Palavras do presidente importam”: a vitória democrata na Geórgia

O que era um evento protocolar do Congresso americano para confirmar o resultado das eleições presidenciais se transformou numa avalanche de vandalismo

O dia 06 de janeiro de 2021, independentemente da apuração póstuma, ficará na memória como um dia triste em Washington, DC. O que era um evento protocolar e simbólico do Congresso americano para confirmar o resultado das eleições presidenciais se transformou numa avalanche de vandalismo. Pouco lembrou um protesto pacífico na essência e na forma.

A lição desse episódio lamentável da história dos Estados Unidos talvez possa ser resumida em uma frase: “palavras do presidente importam”. E as palavras do presidente Donald Trump derrotaram os Republicanos na Geórgia. Uma derrota dupla história que expõe as cicatrizes de um discurso desconectado com a realidade (para dizer o mínimo).

Ambos candidatos republicanos (Senador Kelly Loeffler e Senadora Davida Perdue) eram favoritos. Motivos não faltavam para o favoritismo. Os democratas sofreram inúmeras derrotas em eleições majoritárias na Geórgia por décadas. Mesmo no primeiro turno em novembro passado (quando o presidente eleito Joe Biden venceu o estado) os republicanos tiveram mais votos para o senado.

Além disso, por serem senadores em exercício eram mais conhecidos que os desafiantes. E por último tiveram uma injeção de recursos para as campanhas de patamares históricos. Uma combinação positiva em qualquer contexto eleitoral.

Todavia, tiveram no dirigente máximo do país seu peso negativo político-eleitoral. A atuação egoísta, narcisista e irreal do presidente Donald Trump entregou a vitória para os democratas Raphael Warnock e Jon Ossoff. Um feito histórico para o primeiro afro-americano eleito para o Senado pela Geórgia e o senador eleito mais jovem desde Joe Biden no início dos anos 70.

A dupla conquista deu-se basicamente por uma variável: o comparecimento. Houve um comparecimento dos eleitores de aproximadamente 10 pontos percentuais menor quando comparado ao pleito presidencial de 03 de novembro do ano passado.

Os dados mostraram que o desempenho de Donald Trump foi melhor que de Purdue e Loeffler no segundo turno. Portanto, muitos eleitores do presidente não apareceram para votar. E não é difícil imaginar a razão: durante dois meses ouviram o mandatário da Casa Branca proferir que o processo eleitoral na Geórgia foi fraudado (sem apresentar provas, com uma recontagem de votos e tendo perdido em todas as instancias de apelação judicial do estado).

Tiveram ainda de escutar uma gravação de Trump com autoridade eleitoral local (um republicano) basicamente pedindo para reverter o resultado baseado em “rumores”.  Ficou complexo para convencer esse grupo a sair de casa para votar. “Se a eleição é fraudada por que votarmos para senador?” era a questão que mais aparecia nas pesquisas qualitativas locais. Fizeram falta esses votos.

Do outro lado, os democratas mobilizaram novamente os grandes centros urbanos do estado (Atlanta e Savannah) e ainda diminuíram a diferença nas cidades “trumpistas”. Venceram.

Para terminar, o presidente segue estimulando seus apoiadores mais “radicais” a contestar uma corrida eleitoral que já acabou faz muito tempo. E não foi apertada. O presidente perdeu por mais de 7 milhões de votos e mesmo sem considerar o Arizona e a Geórgia já seria o vencedor.

Essa disputa nunca esteve próxima do embrólio da Flórida de 2000. As derrotas nos tribunais (em diversos estados) foram sucessivas e não deixaram margem para qualquer contestação. Podemos especular sobre os motivos pessoais de Donald Trump disseminar essa instabilidade (seguir levantando recursos para pagar advogados/dívidas de campanha, anestesiar seus temas com a justiça ou mesmo não aceitar a derrota por questões que somente psiquiatria pode explicar) mas não é possível não registrar que o mesmo afundou seu partido na Geórgia e mergulhou seu país num vexame histórico. Triste. Que o futuro nos traga c lideranças políticas que entendam que “palavras importam”.

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