Mas e o PT?

De 630 cidades que governava em 2012, a liderança do PT caiu para 183 no ano passado. Nem o partido parece entender os motivos do tremendo fiasco

O quadro político nacional tem se mostrado desanimador e muitas vezes desproporcional. Tome-se o exemplo do PT. Gostando ou não do partido, cumpre entender que ele é mais do que os resultados das últimas eleições municipais. O que aconteceu? Nem o PT parece entender os motivos do tremendo fiasco. Há menos de cinco anos, e durante as últimas décadas, a centro esquerda e a esquerda do PT, puxadas por Lula, eram dominantes nas periferias das cidades. Foi a Lava Jato? A falta de renovação? A falta da tal autocrítica? Tão grande quanto a história do PT é o desafio de compreender o seu fracasso e de imaginar alternativas criativas para a sua contribuição no cenário desalentador em que vivemos.

De 630 cidades que governava em 2012, a liderança do PT caiu para 183 no ano passado. Quando olhamos para a antítese do PT, aka Bolsonaro, não vemos um resultado melhor. É temerário contabilizar as perdas e ganhos do presidente por ele estar sem partido mas é fato que Bolsonaro saiu chamuscado das urnas pelos vários apoios dados a candidatos a prefeito derrotados. Se enquanto estava no poder o próprio PT inventou o antipetismo – quem não estava com ele merecia o inferno – Bolsonaro reforçou o nós contra eles chamando de petismo tudo o que é diferente dele.

E assim, os dois candidatos com mais chances de vencer a eleição presidencial do próximo ano no Brasil são também – e não por acaso – os dois campeões de rejeição. De acordo com a pesquisa EXAME/IDEIA, do início de dezembro, Bolsonaro e Lula seguem sendo os pilares polarizadores do eleitorado brasileiro. O atual presidente tem 28% de intenção de voto e 43% de rejeição, enquanto o ex tem 16% dos votos e  44% de rejeição.

Os perfis de amor e ódio relacionados a ambos são diversos. A maior rejeição do presidente Bolsonaro está na região sudeste e nos segmentos de mais baixa renda. Na última pesquisa, houve uma perda de intenção de voto do atual presidente nas camadas mais pobres mas mesmo assim ele vence o ex-presidente Lula na margem de erro nessa faixa de renda. Lula é rejeitado por entrevistados mais escolarizados e do sul. Destaca-se também sua rejeição (51%)  entre evangélicos.

O antipetismo e o antibolsonarismo podem ser eficientes como narrativa eleitoral porém não se mostraram úteis até aqui para resolver nenhum dos nossos muitos problemas. Entramos em 2021 sem um programa emergencial para milhões de desempregados e subempregados e sem vermos soluções a médio prazo. Uma saída engenhosa e, diga-se, utópica, seria aproveitar do PT algo de sua experiência exitosa com os programas de auxílio social, ajudando a apontar caminhos para construir um projeto de renda mínima neste período tão dramático da pandemia, por exemplo.

O leitor que chegou até aqui deve estar pensando: por que um governo como o de Bolsonaro aceitaria ouvir o que o PT, um partido considerado seu principal inimigo, teria a dizer sobre tais questões? Um partido que deu pedaladas fiscais, que não enfrentou as reformas necessárias para o país e que nos deixou com sérios problemas econômicos, seria adequado pra dar pitaco agora? Por que dar a palavra a um partido que segundo seus críticos deveria ser varrido da Terra? E por que o próprio PT ajudaria um governo como o de Bolsonaro? Em defesa do texto: o raciocínio aqui foi inspirado na aprovação recente da lei do aborto na Argentina. Aquela foi uma luta de 20 anos, contudo uma das chaves para a pauta ter sido vitoriosa foi a capacidade de mulheres parlamentares de esquerda e de direita separarem suas diferenças em dezenas de áreas pela união por um tema em comum: o direito feminino.

A capacidade de diálogo na questão do aborto foi fundamental na Argentina. Jovens abriram conversação com suas mães e avós sobre o assunto, antes considerado tabu. Descobriram que muitas delas já haviam praticado o aborto no passado e com essa verdade diferentes gerações de mulheres abriram um novo espaço de confiança em casa. Foi assim que a vice-presidente, Cristina Kirchner, católica e historicamente antiaborto, mudou de ideia. “Como no futuro eu justificaria um voto contra para a minha neta?”, explicou. Centenas de debates de pessoas contra e a favor do tema foram realizados, com transmissão por telão para o público que assistia diariamente nos jardins do Parlamento. E assim, juntando gente que pensava tão diferente, uma importante política pública acabou avançando. Ou seja, opostos podem se atrair e construir. Ou estou ainda embriagada da esperança da época das festas de fim de ano? É provável que sim, mas nesta vibração é que desejo feliz 2021 para leitores e leitoras. Bom ano!

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