Eleições 2022: o Brasil em busca do Tancredo Neves do século 21

O sentimento de parte da opinião pública dialoga com o histórico ano de 1985, quando o mineiro construiu ampla aliança com núcleos da esquerda e da direita

Em 15 de março de 1985, o politico mineiro, Tancredo Neves, se preparava para tomar posse em Brasília. Subiria a rampa do Palácio do Planalto como o primeiro presidente civil eleito (mesmo que indiretamente), depois de longos e duros 21 anos de ditadura militar. Porém, uma crise aguda de diverticulite levou o futuro presidente a ser internado na véspera da posse, que jamais aconteceu.

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Tancredo Neves faleceu quase 40 dias depois (em 21 de abril) e, em seu lugar, José Sarney, o vice eleito, assumiu. Para ser eleito, o mineiro construiu uma ampla aliança que combinava núcleos históricos da esquerda, setores diversos do PMDB e parte dissidente do PDS (partido herdeiro da Arena). Só assim foi possível dar esperança ao Brasil de novos tempos. Em 2021, muitos dos sentimentos da opinião pública dialogam com esse momento histórico de 1985.

Primeiro, existe um amplo desejo de uma alternativa que não represente nem o passado e nem o presente. Segundo a pesquisa nacional telefônica EXAME/IDEIA, aplicada de 19 a 22 de abril, há 41% que não gostaria de votar nem no atual presidente Jair Bolsonaro e nem no ex-presidente Lula.

Como verificado, um contingente relevante do eleitorado e mais numeroso quando comparado ao grupo que não enxergava PSDB ou PT como opções nas eleições presidenciais de 2014. Segundo o mesmo levantamento da EXAME/IDEIA, nas simulações de primeiro-turno, há um potencial triplo empate: 1/3 de “bolsonaristas”, 1/3 de “lulistas” e 1/3 da soma de intenção de votos de todos os outros candidatos. Fica evidente que somente a seca de candidaturas nesse latifúndio de opções trará competitividade real.

Essa diluição de candidatos(as) passaria por uma aglutinação política do calibre do mineiro Tancredo Neves. Seria preciso agradar parte da esquerda, aglutinar a base política da centro-direita e ainda cooptar os dissidentes do bolsonarismo de 2018. Não é tarefa fácil e os incentivos concretos jogam contra.

Primeiro, ter uma candidatura majoritária ajuda na eleição de deputados federais (variável única de sobrevivência partidária). Mais representantes na Camara Federal, maior acesso ao fundo partidário e eleitoral. Além disso, como equilibrar as alianças estaduais múltiplas (teremos eleições para governador) com uma frente ampla nacional?  Um exercício de equilíbrio instável e incerto.

Seria o Lula de 2022 um Tancredo de 1985? Não é tarefa simples também. O ex-presidente certamente é o maior favorito, a luz dos dados a pesquisa EXAME/IDEIA, para estar no segundo turno das eleições presidenciais. O presidente Jair Bolsonaro, que teve sua avaliação positiva afetada pela pandemia (e tem 52% de ruim/péssimo contra 23% de ótimo/bom), depende da sua popularidade

E essa se ampara essencialmente em fatores complexos: vacinação e economia. Todavia, seria o petista capaz de ser o aglutinador dessa eleição? Para isso seria preciso vencer uma rejeição de 40% do eleitorado e, principalmente, reconquistar os corações e mentes da classe média. A associação do petismo com a corrupção ainda habita o imaginário da opinião pública. Será um “pernilongo” que perturbará parte dos eleitores que abandonaram o PT em 2018 mas que não aprovam o atual governo.

Não custa lembrar que Lula já perdeu 3 disputas nacionais com esses mesmos patamares de intenção de voto e rejeição. O ex-presidente precisa de uma equação política das mais mineiras para superar esse histórico. Nesse instante, Lula precisa torcer para Bolsonaro perder popularidade “pero no mucho”. O presidente enfraquecido poderia perder sua vaga no segundo turno e ai a rejeição do PT seria um grande entrave. E, claro, precisa torcer para que atual mandatário da República não recupere sua popularidade perdida porque isso também não ajuda o petista.

Vale registrar também que vencer um presidente em busca de re-eleição é evento raro. No Brasil pós Tancredo isso nunca aconteceu. O presidente, como tenho dito, seguirá pautando a opinião pública e ainda terá caneta. Todavia, os sinais são evidentes que há uma janela de oportunidade. Será necessário evitar uma série de eventos/candidaturas e buscar convergência. Isso com Lula, ou Ciro, ou Dória, ou Mandetta, ou Huck, ou Leite, ou quem quer que seja.

Certa vez, Tancredo Neves deu uma entrevista logo após deixar sua posição de primeiro-ministro. O jornalista perguntou qual tinha sido o acontecimento mais importante do período dele como primeiro-ministro. Ele respondeu sem titubear: “aqueles que eu não deixei acontecer”. No Brasil de hoje, não deixar acontecer será tão importante quanto os próprios acontecimentos.


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