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Relações horizontais nas organizações

Não adianta mudar o desenho organizacional, derrubar paredes e hierarquias se as pessoas não se transformarem

Como criar contextos relacionais mais horizontais nas organizações

Você já ouviu falar de Análise Transacional (AT)?

A análise transacional foi uma abordagem psicoterapêutica desenvolvida por Eric Berne que trouxe à consciência das pessoas a presença dos Estados de Ego, arquétipos que ajudam a olhar para nós mesmos e entendermos com qual postura entramos nas relações.

Como psicóloga e consultora organizacional é comum perceber e notar como as relações hierárquicas entre “Chefe-Subordinado”* são arquétipos representados pelas pessoas do estado de ego Pai-Criança, visto que os padrões iniciais de comportamento e vínculos são associados ao aprendizado na primeira infância.

*Linguagem arcaica ainda utilizada =/

Por que é importante conhecer a AT?

O primeiro passo para nos conectarmos ao espírito do tempo, ou zeitgeist, é entendermos que as pessoas buscam relacionamentos mais leves e autênticos em todos os contextos, inclusive no trabalho. Não faz sentido ter chefes que mandam e pessoas que obedecem, sabemos que muitas organizações ainda operam nesse paradigma e estão abaixo do potencial, como diz Gary Hamel. Para ativar potencial humano, precisamos de contextos que permitam que o medo dê lugar à coragem e aos diálogos difíceis, necessários para que a organização e as pessoas prosperem. Precisamos de mais contextos horizontais entre Adulto-Adulto nas organizações.

A AT entra como uma importante ferramenta de autoconhecimento para as pessoas e times, porque traz à consciência o que é invisível através dos arquétipos dos Estados de Ego e os padrões de comportamento associados a eles. Como consultora vejo e participo de enormes esforços de transformação organizacional, na busca por uma Cultura mais ágil e vejo o quanto as pessoas e os times evoluem quando passam a sentir e perceber quando o Estado de Ego, por exemplo, Pai Crítico está ativado, hierarquizando e reduzindo diálogos criativos, passando a responder de forma diferente, por exemplo: fazendo perguntas exploratórias, agindo com curiosidade, descrevendo sem julgamento o que está vendo, sentindo e quais necessidades precisam ser transformadas em novos combinados.

Porque não adianta trabalhar em uma Tribo sem chefes se o seu padrão de comportamento, de forma inconsciente, leva você a hierarquizar continuamente as relações. Para ficar mais claro, vou apresentar para você os Estados de Ego a seguir:

Estados de Ego

É importante ressaltar que todas as pessoas presentes em um encontro social estão vivenciando um estado de ego, que de forma simples, significa um sistema coerente de sentimentos e comportamentos exibidos e que podem mudar de um estado para outro de acordo com a interação EU-OUTRO(s).

Vamos conhecer cada um deles:

Estado de Ego Pai — Comportamentos e sentimentos semelhantes aos da

figura parental.

estão subdivididos em dois arquétipos:

Pai crítico

Neste estado de ego, a pessoa busca a perfeição, cobra-se demasiadamente o outro por algo muito bem feito ou que deveria ter sido feito da forma “como eu o faria”. A postura está enrijecida e existe uma busca muito forte por detalhes e controle. Comportamentos rígidos e punitivos, críticas feitas de forma muito contundente. Sentimento de responsabilidade, cumprimento do dever e da organização, estabelecimento de limites e follow ups de cobranças também estão presentes.

Pai protetor

Neste estado de ego, a pessoa busca proteger e se responsabilizar pelo outro a todo momento, impedindo as pessoas ao redor de cresçam, existe um sentimento de pena ou dó pelas pessoas, existe a crença de que “as pessoas não estão preparadas ou ainda não querer incomodar”, atua como um barreira de proteção e age emocionalmente, podendo proteger quem “eu gosto” e não fazer nada por quem “eu não gosto”. Sentimento de disponibilidade e atenção pelo outro, cuidado e apreço pelas pessoas e apoio para lidar com os problemas estão presentes.

Dentro das organizações você poderá encontrar Gestores que atuam frequentemente com esses arquétipos e como consequência, estão sempre sobrecarregados, sem tempo ou com times tidos como “imaturos” porque a postura com a qual o Gestor entra na relação, inconscientemente o leva para esse padrão de relacionamento hierárquico Pai-Criança e aqui pouco importa a estrutura organizacional, é uma atitude individual, de autoconhecimento e auto responsabilidade pelo tipo de realidade ou time a pessoa quer fazer parte que é o ponto mais importante para transformar as relações transacionais e a cultura organizacional.

Estado de Ego Criança — Comportamentos e sentimentos semelhantes da

primeira infância

estão subdivididos em dois arquétipos:

Criança rebelde

Neste estado de ego, a pessoa age no calor da emoção, com toda a força do entusiasmo, está focado em fazer o que quer fazer, na satisfação de suas necessidades, pode parecer birrento, não seguir os combinados ou as regras de convivência, parece não ter limites e não se importar com o impacto que está gerando no contexto, exibe comportamentos “birrentos” e aparenta guardar mágoas e ressentimentos. Também pode ser extremamente corajoso e espontâneo, corajoso e desafiador, com alto grau de confiança.

Criança adaptada

Neste estado de ego, a pessoa tem uma série de projetos e ideias, mas não coloca nada em prática, tem muito medo e parece estar paralisado, por isso adia decisões ou não as toma, vive se queixando, mas não apresenta comportamentos que demonstram fazer algo para mudar a realidade, segue ordens absurdas sem questionar a coerência ou a necessidade real do comando. Dedica boa parte do tempo para agradar as pessoas, ser obediente e educado, apresenta alta disciplina e se adapta facilmente às normas do local.

É comum encontrarmos de forma mais intensa esse tipo de comportamento nos momentos de transformação organizacional, pessoas que se rebelam e são detratoras das iniciativas ou que se calam e se submetem, em ambos casos, a consequência é a perda do diálogo adulto e de busca de oportunidades e possibilidades dadas através das tensões que as mudanças estão gerando.

Estado de Ego Adulto — Comportamentos e sentimentos que buscam uma

visão mais objetiva da realidade

Neste estado de ego, a pessoa analisa os fatos e conversa sobre as possibilidades antes de tomar decisões, não coloca as emoções à frente, atua com inteligência emocional, faz planejamentos e busca outras perspectivas, através de uma abordagem adequada ao contexto. É comum fazer perguntas para explorar a situação e entender o que pode ser feito. Conversas difíceis são possíveis neste estado de ego, conseguimos fazer CNVs (comunicações não violentas) em momentos de crise e buscar soluções conjuntas.

Por exemplo: Você está em uma reunião e uma pessoa fala “Essa apresentação contém alguns erros e informações que precisam ser verificadas”, essa fala poderá levar você ao estado de ego adulto que responde “Obrigada por notar, você poderia me dizer quais, assim já reviso para a próxima.” ou ao estado de ego criança adaptada “Desculpa, essa foi a melhor coisa que consegui fazer”, saindo da reunião com um sentimento de incompetência ou frustração. No primeiro exemplo Adulto-Adulto, ambos sairão com um sentimento de contribuição e aprendizado, no segundo exemplo Adulto-Criança, ambos sairão com um sentimento de que algo ficou aberto ou mal resolvido, ou ainda, criar uma tensão desnecessária na relação.

Vale ressaltar que não existe um estado de ego melhor ou pior que o outro, todos nós atuamos com maior ou menor frequência em todos os arquétipos acima, não existe certo ou errado, o mais importante é fazer a leitura do contexto e perceber com qual estado de ego você está interagindo no momento e se ele é adequado à situação. Em uma festa, por exemplo, deixe seu estado de ego criança se divertir, mas em uma conversa sobre um tema difícil, a criança rebelde não construirá dialogicamente uma alternativa viável.

Relações horizontais, AT e as organizações

Cada vez mais as pessoas buscam culturas organizacionais mais abertas, flexíveis e humanas, em que o mútuo respeito e a colaboração façam parte do viver cotidiano. Para que essa cultura exista, as pessoas precisam se conhecer melhor e saber quais estados de ego elas entram nas diversas relações durante a convivência. Eu sugiro uma autoavaliação, refletindo sobre:

  1. Quem é a pessoa que me ativa o estado de ego pai/criança?

2. Descreva o estado de ego dessa pessoa, quais comportamentos você observa e que sentimentos essa pessoa gatilha em você?

3. Descreva o seu estado de ego, quais comportamentos você passa a ter na relação?

4. Pense em qual movimento assertivo você poderá fazer para trazer o seu estado de ego adulto nesta relação?

Sei que o desafio é grande, mas não é impossível, o primeiro passo é a consciência do seu estado de ego e na sequência, buscar o adulto que existe dentro de você!

Lembrando que não mudamos as pessoas, mudamos a forma como nos relacionamos com elas através do nosso autoconhecimento. Pessoas que nos incomodam nos dão de presente informações sobre o que ainda não sabemos sobre nós mesmos, como consequência desenvolvemos novos comportamentos, ressignificação de sentimentos, experiências e assim evoluímos sempre!

Não adianta mudar o desenho organizacional, derrubar paredes e hierarquias se as pessoas não se transformarem, não conhecerem seus gatilhos e estados de ego ativados durante a convivência.

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