O Trabalho e a Última Alienação dos Homens

O futuro do trabalho demanda radicalismo, bravura e reflexão. Estes parâmetros que usamos para medir o sucesso não servem mais à vida.

Marx, em seu trabalho, desenvolveu o conceito de alienação. Abordou principalmente a alienação do homem em relação ao trabalho, do homem em relação ao produto do seu trabalho e do homem em relação ao próprio homem. Todas, fruto da estrutura de trabalho e de sociedade predominante. Todas as reflexões buscando pensar de forma crítica e analítica, para daí transformar o fazer e criar um novo futuro do trabalho. Mas estamos vivendo o que parecer ser a última alienação dos homens no trabalho.

A alienação aparece novamente em inúmeros pensamentos sobre o homem e a sociedade. Recentemente, o jornalista e naturalista David Attenborough no seu documentário Nosso Planeta, expressou com bonito destaque, ainda que não usando esta palavra, nossa alienação em relação às demais espécies e, sendo assim, de nossa própria condição animal e de parte da natureza.

Estou convicto de que vivemos hoje uma das mais cruéis alienações. Nosso fazer está alienado da vida. E acredito ser esta uma questão central em qualquer perspectiva significativa sobre o futuro do trabalho, ou devo dizer o futuro da humanidade.

Na história da vida, o maior desafio imposto pela natureza é o viver em si. Ao mesmo tempo, a busca constante por sustentar o viver é o que impulsiona o fenômeno maravilhoso e rico da vida na Terra. Cada espécie, em seus movimentos diários em busca da sobrevivência, cria dinâmicas de relação com seus grupos, com as demais espécies e com o espaço, gerando uma maravilhosa diversidade, cujo resultado é a exuberância deste planeta. O fazer, portanto, é o impulso da vida. Neste lugar, torna-se sagrado, carregado de significado e uma expressão pura da necessidade mais essencial. Fazer e ver-se vivo no dia seguinte deveria ser o máximo do prazer.

 

A Produtividade Criou Vida Própria

É evidente que nós, como espécie, demos ao fazer uma complexidade nunca antes observada. Criamos relações coletivas ao redor do fazer que jamais puderam ser criadas por outras espécies. Levamos ao extremo a potência da especialização e do produzir coletivo. Criamos jogos de azar de altíssimo grau de complexidade e que conquistaram lugar de realidade no mundo do trabalho e, assim, no nosso dia a dia.

Dessa forma levamos o mundo a um grau assombroso de produtividade e produzimos coisas inimagináveis. Mas ao longo do caminho nos distraímos e perdemos um dos mais importantes aspectos do fazer: Sua intrínseca ligação com a necessidade da vida. Grande parte do fazer passou a servir um jogo de simulação que há tempos se descolou da realidade, da natureza e das necessidades reais da vida.

Sim, o dinheiro, ou devo dizer o acúmulo exacerbado do nada, tem papel fundamental nisso; mas não quero aqui entrar neste aspecto específico da discussão. 

 

O Excesso Alienante

Se me permito simplicidade em expressar a essência do conceito, aqui vai: A estrutura que como sociedade criamos, das grandes empresas, ou grandes complexos produtivos e o impressionante avanço tecnológico nos levou a produzir muito mais do que podemos consumir como planeta. Nada que se produz é mais necessário para a vida, pois tudo é produzido em excesso.

Como diz o ditado popular: a diferença entre o remédio e o veneno é a dose. E há sabedoria profunda nesta frase. Todo excesso é nocivo à vida, seja ao indivíduo, à sociedade ou ao planeta. Hoje, praticamente toda produção, independente de intenção individual, é nociva ao planeta, pois existe em um contexto de excesso. 

Dessa forma, todas as dinâmicas pelas quais as empresas trabalham; melhores preços, melhor qualidade, melhor entrega ou melhores features; servem às dinâmicas de mercado e à competição, e o mercado tornou-se uma distração que nos faz seguir caminhando sem lidar com o mais importante: As necessidades reais e atuais da vida. Não da rotina e da escala de valores que criamos e convencionamos chamar de vida. Isto, que chamamos de vida, é na verdade aquilo que fazemos com ela. Confundimos sobreviver economicamente no curto prazo com sobreviver em si. A vida em si é o sobreviver hoje e relacionar-se com aquilo que nos permite sobreviver no futuro. 

 

 Nossa natureza e as necessidades

A maioria das espécies animais percebe suas necessidades em duas dimensões ao menos. A primeira, a sobrevivência de curto prazo, do indivíduo. Estas necessidades são percebidas por informações como a fome, o frio e o medo. As necessidades de longo prazo, de sobrevivência da espécie, estas normalmente estão no campo do instinto. Processos intuitivos que mesmo nossa ciência ainda tenta decifrar com mais clareza, mas que existem inexoravelmente. 

No nosso caso, resolvemos as necessidades individuais como coletivo, e fomos além. Criamos a medicina, eliminamos a fome, o frio. Mas ao menos três gigantescas incoerências começam a evidenciar que não resolvemos o problema todo. 

Primeiro, temos tudo isto em excesso, mas não em abundância.

Ou seja, há muito para alguns, mas outros seguem morrendo de fome enquanto assistem a outros comerem demais. Segundo, seguimos vivendo a angústia e a ansiedade. E por fim, entorpecemos nossa capacidade de agir instintivamente e escutar a natureza que há em nós.

Diante disso perdemos a dimensão do longo prazo, e agora, que começamos a despertar para esta consciência, teimamos em não aceitar o radicalismo da equação que isto nos propõem. 

 

Os excessos e a escassez

Estamos nos afogando naquilo que fazemos, e entre o excesso de produção, de trabalho e de resíduos da produção e de consumo dos meios de produção, vamos servindo, não à vida, mas à morte. Morte do planeta, morte do significado do fazer, morte da motivação e por fim, um dia, nossa própria morte como espécie.

O pior é que estamos tão distraídos que enquanto uns se afogam no excesso sem perceber, outros morrem sem ter acesso às necessidades básicas. Morrem da falta de alimento, falta de calor ou atacados por outros animais, sejam eles humanos, hipopótamos ou tigres.

O fazer, portanto, está alienado da vida. A ligação entre esses elementos hoje, é artificial. Sustentada por uma dinâmica que mantém o excesso e a escassez, e nos impede de acessar verdadeiramente a abundância. Uma dinâmica que colocando o indivíduo no centro e vendendo uma ilusão de fragmentação, nos cega.

Talvez você tenha uma grande posição numa empresa maravilhosa. Ou seja sócio de um banco. Talvez tenha orgulho do que faz e esteja vencendo nesta lógica constante de competição e tenha uma vida maravilhosa e rica. Talvez até, esteja feliz e isto lhe seja suficiente. Mas esteja certo, seu fazer, como talvez o meu, está alienado da vida.

Por outro lado, não quero pregar a ideia de um mundo de perdição e pecado, sob necessidade de expiação divina. Não acredito nisto. E, lamento, mas o perdão divino não dará conta de nos salvar.

 

A Equação é Complexa, mas Empolgante

Minha angústia é mais simples que isso e a equação com que ela precisa lidar muito mais complexa. Precisamos recolocar o nosso fazer a serviço da vida e regenerar o trabalho.

As empresas são forças maravilhosas, que agora precisam também encarar o tamanho de seu desafio e de sua responsabilidade. As dinâmicas de competição mercadológica e a ilusão de que podemos viver apartados do todo, roubaram o fazer e o produzir de seu sentido original. Servir à vida! 

Como colocar as empresas, as pessoas, todo o conhecimento gerado, toda a nossa capacidade de organização coletiva, enfim, tudo; novamente a serviço do que é realmente necessário à vida?

Para isso, não nos iludamos, temos de abrir mão de muita coisa. Temos que desafiar e arriscar as bases das nossas crenças e das estruturas e lógicas que criamos. Temos que ousar imaginar uma forma completamente diferente de viver, de trabalhar, de dividir o que se tem e o que se faz. Precisamos de uma nova escala de valor e de novos parâmetros de sucesso.

Cada líder, que ao longo da vida experimentou sua capacidade de liderar, de organizar de convocar e unir o coletivo deve agora, na minha opinião, colocar seu ser a serviço deste imenso desafio. O maior desafio não está naquilo que precisamos descobrir, conquistar ou desenvolver. Está naquilo de que precisamos abrir mão. Abrir mão do excesso que nos afoga, das verdades que nos coroam, dos valores que justificam nosso repetir, mesmo e principalmente daquilo que nos dá conforto e daquilo que aprendemos a chamar de confortável. Isto será um desafio hercúleo.

Cada indivíduo deve encarar e abraçar este desafio, mas agora isto já não basta. As instituições assumiram um papel demasiadamente central em nossas vidas. A elas, demos poder demais. Por isso, é preciso também que cada organização se desafie a mudar de curso radicalmente. Se desafie a se repensar, independente de quanto sucesso tem feito.

 

Estes parâmetros que usamos para medir o sucesso não servem mais à vida.

E aí voltamos ao indivíduo, que neste momento não deve mais aceitar a cisão. Não basta reciclar lixo em seu sítio e não desafiar radicalmente o fazer da empresa onde está. Arriscar radicalmente seu momentâneo conforto. 

Acho que podemos fazer isto juntos. Como sociedade, como espécie, como planeta. Juntos e com harmonia, desde que aceitemos o radicalismo do desafio e possamos, como costumo dizer, abrir mão da braveza, e assumir a bravura.

Por fim, acredito que se fizermos isso podemos ter um encontro maravilhoso com a abundância. Podemos reencontrar a alegria de viver e, principalmente, de trabalhar e fazer, acordando de manhã cheios da vibração de um fazer sagrado e embebido de sentido. Como resultado, sairemos da rotina de programas sem fim para tentar engajar funcionários, para sermos parceiros num fazer coletivo maravilhoso e empolgante. Sairemos das horas de trabalho sem fim, para poucas horas cheias de significados e usaremos o restante do tempo para curtir o planeta ao invés de destruí-lo.

 

Há um Caminho?

Aonde começa este movimento? Em todos os lugares.
Quando? Já começou e, ainda assim, estamos atrasados. Todos nós.

Este caminho será construído durante a jornada, em conjunto, com muitos experimentos coletivos e simultâneos. E, sim, tudo encontrará uma coordenação perfeita se estivermos realmente a serviço da vida. Assim como em uma floresta, organicamente tudo encontrará seu lugar. Como na vida, este movimento deve existir em múltiplas dimensões simultâneas e não será mais algo que deve ser feito e terminado.

Será algo a ser feito sempre, para sempre. E não será algo que deve ser acabado para que se possa, depois, aproveitar a vida. Este fazer será a vida em si, em sua mais plena e sagrada vibração.

Diante disso, precisaremos de grupos de discussão e reflexão. Grupos que unam pessoas atuando em diferentes dimensões, que usem o tempo sem pressa para pensar e refletir sobre o que deve ser feito. Acima de tudo, de grupos onde as pessoas se encontrem para encorajarem e serem encorajadas a ousar, e onde sejam acolhidos quando o resultado for difícil e ainda mais desafiador.

Pensar, refletir e discutir devem deixar de ser atividades vistas como aquilo que rouba tempo do fazer. Estas atividades devem voltar a ser essenciais para o fazer, pois são elas que atribuirão sentido a ele. Precisamos abandonar nossa constante ideia de pressa, pois ela nos está fazendo perder um tempo precioso.

E quando me perguntam sobre a espiritualidade nas empresas. Bem, esta será a espiritualidade máxima a se manifestar em cada organização, em cada indivíduo.

Vamos. Quero encontrar a cada um de vocês em conversas boas, discussões corajosas neste maravilhoso empreendimento para um novo futuro do trabalho, um novo futuro da vida, um futuro que valha realmente a pena. Precisamos devolver o fazer a seu sagrado servir à vida.

O futuro do trabalho demanda radicalismo, bravura e reflexão. 

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