Escutar é uma questão de consciência, não de método

Você já reparou que, com a situação de isolamento físico, a compulsão por falar parece ter ganho proporções bíblicas? As pessoas querem sempre falar.

Numa alusão à profusão dos cursos de Oratória, Rubem Alves cunhou o termo Escutatória em um daqueles textos cheios de inspiração que esse filósofo, educador e poeta compunha como ninguém. Ele dizia que “todo mundo quer aprender a falar. Ninguém quer aprender a ouvir.” Pelo visto, estava certo. Porque, para ouvir, é preciso antes se fazer silêncio dentro. E o mundo anda tão barulhento, há tanta informação e parece que todos temos sempre tanto a falar que, num curso de Escutatória, seríamos todos reprovados.

 

Escutar começa pela consciência do não escutar

Você já reparou que, com a pandemia, a situação de isolamento físico, com muitas pessoas trabalhando de casa, essa compulsão por falar parece ter ganho proporções bíblicas? Nas redes sociais, nas reuniões à distância, em lives, as pessoas só querem falar. E, quando de repente são obrigadas a ficar em silêncio, o que fazem? Desperdiçam a oportunidade de ouvir fazendo alguma outra tarefa enquanto o outro fala.

“Mas professor, sou multi-tarefa.” Adoro quando escuto isso nos cursos que ministro. Espero o momento certo e não perdoo: “Poderia repetir o que eu disse?” A pessoa que estava ao celular enquanto eu falava lembra de uma ou outra palavra, mas perdeu o raciocínio. Não só isso, também não tem como dizer nada sobre o tom de voz, a cadência, as ênfases, as diferentes expressões do corpo, as emoções que emergem a cada momento e tudo o mais que se manifesta quando alguém fala.

Como diriam meus amigos portugueses, oras, se todos estão a falar, quem está a escutar?

 

Quem está escutando verdadeiramente enquanto falamos animadamente?

Quando a gente se dá conta de que o escutar é algo essencial para um ser humano se desenvolver de maneia saudável, especialmente no que tange a sua saúde psicoemocional, percebe a gravidade do problema. Um problema bem sério. E que, ao se manifestar de maneira sistêmica, torna-se uma questão de saúde pública, uma pandemia para a qual ainda não inventaram remédio ou vacina.

 

Como também sou parte do problema, tenho me perguntado o que posso fazer para começar a resolvê-lo.

E o primeiro passo chega a ser ridículo de tão óbvio: reconhecer que se é parte dele, do problema. Precisamos reconhecer que nós também temos preferido falar do que escutar. Se não reconhecemos que somos parte do problema, não tem como ser parte da solução. Só que, ao nos percebermos corresponsáveis pelo problema, pode surgir uma dinâmica que nos impeça de resolvê-lo. Escute bem: eu disse ridículo e não fácil. Escutar dá trabalho e o caminho é cheio de armadilhas.

 

Primeira armadilha: a culpa

Muita gente confunde corresponsabilidade com culpa. A corresponsabilidade pode ser vivida sem culpa quando aceitamos que fazemos o melhor que podemos a cada momento. Num dado momento, descobrimos uma forma melhor de fazer e, ao invés de nos lamentar que não estávamos fazendo dessa forma, simplesmente passamos a fazer. Essa é uma definição simples sobre processo de aprendizagem: um contínuo descobrir de novas possibilidades sem apego ou culpa pelo passado. Porque a culpa costuma vir acompanhada de outra emoção igualmente ou mais perigosa: a vergonha. Quando nos sentimos envergonhados de algo, qual é nosso primeiro ímpeto? Nos esconder, fugir, mentir, fazer o que for para evitarmos olhar para o motivo de nossa vergonha. Sentirmo-nos envergonhados por descobrir que não temos escutado as pessoas definitivamente não nos ajuda a escutá-las. O espaço da vergonha – o canto da vergonha – é um espaço de não ação. Vamos, portanto, deixar a culpa e a vergonha de lado e focar em nossa corresponsabilidade.

 

Quando nos damos conta de que somos corresponsáveis pelo problema, ou seja, fomos, de alguma forma, capazes de fazê-lo existir, somos igualmente capazes de fazê-lo deixar de existir. E esta é a hora mágica do tio Einstein, que, além da Teoria da Relatividade, disse uma das frases mais poderosas para o entendimento de nossa evolução como espécie: “Os problemas significativos que enfrentamos não podem ser resolvidos no mesmo nível de pensamento em que estávamos quando os criamos.” Em outras palavras, precisamos ampliar nossa consciência, para enxergar além do que enxergávamos no momento em que criamos o problema. Ampliar a consciência para entender tanto as questões racionais quanto emocionais, na medida em que, na condição de mamíferos, somos eminentemente emocionais, mas, diferentemente de mamíferos primitivos, desenvolvemos uma capacidade cognitiva que nos permite racionalizar nossas emoções.

Desde esse lugar onde me reconheço um ser humano, com suas emoções e vontades nem sempre conscientes mas sempre presentes, um ser humano em relação com outros seres humanos em múltiplos domínios – da família, dos amigos, dos colegas de trabalho, da relação com clientes, com alunos, com professores, etc -, também posso me dar conta de que qualquer ação provocada em mim também provoca algum tipo de interferência nesses outros domínios. Se mudo meu operar onde a fala é predominante para uma dinâmica onde a escuta é predominante, a coordenação usual entre eu e o outro disputando um lugar de fala deixa de existir. Essa descoordenação é um espaço criativo, pois interrompe um ciclo vicioso repetitivo, baseado na expectativa passada – a disputa pelo lugar de fala -, e nos coloca de novo no ciclo virtuoso recursivo da coaprendizagem, baseada no futuro emergente – a cocriação de uma nova forma de comunicação.

Essa nova coordenação, onde a intenção de uma das partes que se relaciona migra do falar para o escutar, só pode se dar no campo da ação. E se a culpa é a armadilha para a consciência sobre a corresponsabilidade, o entendimento pode se tornar para a ação.

 

Segunda armadilha: a obsessão pelo saber

Como seres humanos, somos dotados de uma estrutura altamente sofisticada denominada neocórtex ou cérebro racional, que nos permite elaborar o pensamento, além de outras funções essenciais como sensação de dor, sentido de audição e processamento da informação visual. Isso quer dizer que somos fisiologicamente condicionados a procurar entender tudo o que nos passa. O problema é que nem sempre aquilo que entendemos corresponde à realidade, uma vez que o processo de entendimento é baseado numa série de premissas ditadas por nosso modo de pensar (mindset) e nosso modo de sentir (heartset). Isso quer dizer que estamos sempre filtrando o que acontece conosco por meio de nossos pensamentos e sentimentos, o que, invariavelmente, cria vieses inconscientes, ou seja, basicamente nosso cérebro é expert em nos enganar. Esse fenômeno pode ser um obstáculo a uma mudança comportamental, pois, ao nos aprofundarmos no problema que convida à mudança, corremos o risco de criarmos uma narrativa fictícia sobre as causas desse problema. Pior: podemos nos tornar tão fãs dessa narrativa que, ao invés de procurar uma solução para o problema, nos apegamos a sua justificativa. E como costumo dizer: diferente das máquinas, que são regidas por leis mecânicas ou pelo pensamento linear, explicar porque um ser humano, que é regido por leis orgânicas ou pelo pensamento complexo, não funciona não o faz, necessariamente, funcionar. Qual é então a saída para essa armadilha? Deixar que nosso cérebro racional nos ajude a entender que somos corresponsáveis, mas antes de ser atraído para o abismo da obsessão pelo saber, partir para algum tipo de ação. Afinal, pensar não muda o mundo. O que muda o mundo é fazer algo para mudar o mundo.

 

É importante não confundir ação com intenção. Uma ação pode ser observável. Eu quero escutar não é uma ação. Ficar um determinado tempo ouvindo alguém é uma ação, que, inclusive, pode ser observada. Numa conversa com alguém, ao invés de disputar o espaço para falar, eu me calo. E escuto. Ao invés de trazer minha perspectiva, como se fosse necessário sempre trazer minha perspectiva sobre tudo e sobre todos, eu faço perguntas para entender a perspectiva do outro. Substituo minha necessidade de fala por perguntas exploratórias. Mas têm que ser perguntas de verdade, ok? Não vale plantar pegadinhas para classificar a opinião do outro em certa ou errada, servindo ao que o professor Humberto Mariotti chama de mecanismo concordo-discordo. Perguntas exploratórias para que o outro siga falando e eu escutando.

 

Terceira armadilha: expectativa

E aí, depois da armadilha da culpa para a corresponsabilidade, do entendimento para a ação, chegamos à terceira e última grande armadilha que pode nos impedir de migrar para um modo mais centrado no escutar do que no falar: a expectativa de que o outro dê o primeiro passo. Essa talvez seja a armadilha que gera mais frustração, na medida em que coloca o poder sobre uma mudança que queremos realizar em nossa vida nas mãos de outra pessoa. Se o outro é sensível, está disponível e decide colaborar com esse pedido e dar o primeiro passo para que a mudança na coordenação entre vocês aconteça, maravilha! Só que você vira refém desse outro, o problema que lhe afeta só pode ser resolvido se ele assim o quiser.

 

Eu sei que você não quer depender de ninguém para ter uma vida mais saudável. E, mesmo que esse desafio só possa ser resolvido na relação com outras pessoas, pelo simples fato de você sentir-se responsável e fazer algo para resolvê-lo, você já será capaz de experimentar um estado emocional mais satisfatório do que experimenta quando disputa o lugar de fala. E, reconhecendo que a escuta produz efeitos terapêuticos, você ainda irá receber agradecimentos e se sentir bem consigo mesmo ao fazer bem para a vida de outras pessoas.

 

“É chegado o momento, não temos mais o que esperar”, escreve Rubem Alves. “Ouçamos o humano que habita em cada um de nós e clama pela nossa humanidade, pela nossa solidariedade, que teima em nos falar e nos fazer ver o outro que dá sentido e é a razão do nosso existir, sem o qual não somos e jamais seremos humanos na expressão da palavra.”

 

 

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