As lições de reinvenção de Marília Mendonça e cia.

Conhecida por ser a “Rainha da Sofrência”, artista bateu todos os recordes e fez a maior live da história do YouTube. Prova da oportunidade das crises

O dia 8 de Abril de 2020 entrou para a história da música. Neste dia, a cantora sertaneja Marília Mendonça, conhecida por ser a “Rainha da Sofrência” bateu todos os recordes e fez a maior Live da história do YouTube até então. Mais de 3,3 milhões de pessoas pararam em frente à sua televisão – ou seu celular – para ver o show dela ao vivo, via streaming. Até então, as maiores transmissões ao vivo tinham sido da cantora norte-americana Beyoncé, em seu show no Coachella, que teve 458 mil espectadores, do também sertanejo Gusttavo Lima, que teve pico de 720 mil e da dupla Jorge & Mateus, que atingiu 3,1 milhões. Das cinco maiores audiências do Youtube, 4 são brasileiras. O único cantor internacional presente na lista é o tenor Andrea Bocelli, com 2,8 milhões.

Completam o Top 5 os sertanejos Gusttavo Lima, que em sua segunda Live atingiu 2,7 milhões e a dupla Sandy & Junior, com 2,5 milhões. Essa tendência de shows ao vivo na quarentena, por conta do novo coronavírus, conta com estrutura profissional de qualidade tão boa, que é possível assistir em HD na TV e ainda tem a vantagem do vídeo ficar salvo no canal do artista, continuando a gerar audiência e receita, mesmo após o fim da transmissão. Neste dia, tivemos certeza que a indústria da música foi disruptada mais uma vez.

A música sempre passou por disrupções. No tempo de Mozart, por exemplo, música era privilégio de poucos. Só era possível escutar ao vivo, diante dos músicos. Após a sua morte, sua esposa – a soprano Constanze Weber – continuou o processo de comercialização de suas sinfonias por meio de uma série de concertos e da venda de seus manuscritos. Até que em 1877, Thomas Edison inventa o fonógrafo. Esse foi o primeiro dispositivo reprodutor e gravador de áudio, que causou a primeira grande mudança da indústria. Ao longo dos anos, os tocadores de música foram se tornando cada vez mais compactos, e as formas de armazenamento de áudio também foram sendo aprimoradas.

Vocês lembram da fita cassete, que reinou dos anos 1970 aos 1990? Era muito comum ficarmos gravando as músicas que tocavam nas rádios, tentando apertar o REC sem perder o começo da canção ou parar a gravação antes do locutor falar em cima da música. Depois vieram os CDs, que se tornaram o presente mais popular em aniversários e no Natal da família, com lojas exclusivamente dedicadas ao produto. A Virgin, do bilionário Richard Branson, era uma das grandes referências do setor. Ela tinha mega lojas em grandes capitais do mundo, chegando a ser “parada obrigatória” em qualquer ida a Nova York, por exemplo. Até que em 1997 padronizaram o formato MP3, transformando a música num conjunto de bits, o que facilitou muito a sua distribuição, mas também a pirataria.

Em 2001, Steve Jobs lançou o seu iPod e, mais uma vez, a indústria fonográfica era completamente sacudida. Além de ser um aparelho fácil de usar e prático de carregar, ele permitia que a pessoa levasse milhares de músicas no bolso. Mas mais do que isso, ele permitia, através do iTunes – o software que a Apple lançou para gerenciar as músicas – que você comprasse apenas aquelas que você gostasse. Acabava assim com todas as lojas de CD, afinal, por que você compraria um CD com 15 músicas pra ter acesso às duas ou três que você gostava mais, se pelo iTunes você podia comprar apenas suas preferidas? Até que o próprio Jobs lança o iPhone, e coloca o iPod dentro do telefone. Disruptou seu próprio produto, que era uma verdadeira febre mundial, antes que alguém fizesse isso por ele.

A Apple só não foi tão rápida para lançar seu streaming, permitindo que o Spotify dominasse com folga esse mercado. Pagando uma mensalidade, o usuário tem acesso a praticamente todas as músicas do mundo. Além disso, por meio de inteligência artificial e do machine learning, o software identifica suas preferências, sugere novas músicas que tenham o seu perfil musical, além de criar playlists para cada momento da vida. Quer correr? Quer namorar? Quer fazer uma festa? O app vira o teu DJ.

Com toda a facilidade de se gravar e ouvir músicas, a maior parte da receita dos músicos vem dos shows. No Brasil, os mais famosos fazem mais de 20 shows por mês, às vezes dois no mesmo dia e em cidades diferentes. Muitas vezes, ficam distantes da família e amigos por conta da agenda atribulada.

E no último dia 8 de Abril, mais uma vez a tecnologia veio mudar a dinâmica atual. Marília Mendonça fez um show para milhões de espectadores, arrecadou 200 toneladas de alimentos para pessoas em situação de vulnerabilidade, 500 litros de álcool em gel, contou com diversos patrocinadores e, isso tudo, sem sair de casa! Provavelmente ela ganhou muito mais dinheiro do que num show tradicional, onde consegue juntar e impactar no máximo algumas dezenas de milhares de pessoas. Com todo esse impacto, vocês acham que ela voltará a fazer tantos shows por mês após essa crise? Pessoalmente acho que não.

Por isso, como falei na minha última coluna, em épocas de crise surgem grandes oportunidades. Cabe a nós ficarmos atentos e tentarmos identificar os novos jeitos de fazer negócio, que podem ser até melhores do que o modus operandi anterior. Você pode até não gostar de música sertaneja, mas os cantores sertanejos provaram que é possível sim se reinventar. É hora de se reinventar você também!

*Frederico Pompeu é sócio do banco BTG Pactual responsável pelo BoostLAB, hub de negócios para empresas de tecnologia

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