Apertem os cintos, a atenção sumiu

Meu pai costumava dizer: “as pessoas não batem o carro na 1ª vez que dirigem, mas sim depois, quando já estão confiantes e acabam ficando menos atentos”

Por: Frederico Pompeu

Há muito tempo que não acontecia comigo, mas recentemente fiquei parado no trânsito atrás de uma pessoa que estava aprendendo a dirigir. Se isso já aconteceu com você também, vai se lembrar que acaba te dando um pouco de angústia, já que eles usualmente estão andando bem devagar, atravancando um pouco a fluidez dos carros. O motivo das pessoas andarem lentamente quando ainda estão aprendendo chama-se insegurança. Meu pai costumava dizer quando eu comecei a dirigir que: “as pessoas não batem o carro na primeira vez que dirigem, mas sim depois, quando já estão mais confiantes e acabam ficando menos atentos”.

Falando sobre confiança e sobre carros, lembrei-me do Efeito Peltzman, também conhecido como efeito da compensação de risco. Elaborada por Sam Peltzman, professor emérito da prestigiada Universidade de Chicago, essa teoria sugere que as pessoas normalmente ajustam o seu comportamento baseadas na percepção de risco que estão tomando. Sam buscou exemplificar a sua tese através de um estudo publicado em 1975, onde teorizava que a introdução de dispositivos de proteção, como cintos de segurança, podia não ter o efeito planejado da redução dos acidentes de trânsito. Segundo ele, como as pessoas dirigem mais rápido e com mais confiança quando usam o cinto, elas acabam dirigindo mais desatentas. Após a revisão dos dados relacionados à introdução da primeira geração dos cintos, constatou-se que o Efeito Peltzman era, na verdade, bastante real. No final, verificou-se que embora a proporção de fatalidades tenha diminuído, a taxa de acidentes aumentou o suficiente para compensar a redução da taxa de mortalidade.

A beleza do Efeito da compensação do risco é que ele é uma característica do ser humano, não sendo usado apenas nos acidentes de carro, mas também para diversas outras matérias, inclusive para aplicação de recursos. O economista Hyman Minsky desenvolveu uma teoria onde argumenta que “estabilidade gera instabilidade”, que pode ser traduzida como a versão do Efeito Peltzman para o mercado de investimentos. A ideia central de Minsky era que quanto mais tempo o mercado se sente estável e próspero, mais confortáveis os investidores ficam em assumir riscos maiores e o nível de risco continua aumentando, até que as coisas se tornem instáveis novamente.

O Efeito Peltzman pode se tornar perigoso, especialmente para pessoas físicas, depois de longos períodos de baixa nas taxas de juros, que fazem com que o mercado de ações – ou mais recentemente também o de criptomoedas - possam parecer menos arriscados do que realmente são. Quando os mercados diminuem sua volatilidade e as condições perduram por um período prolongado de forma que pareçam andar numa única direção, a tentação é tomar cada vez mais riscos, montando uma carteira cada vez mais agressiva. Isso pode ser bom se o investidor estiver ciente dos riscos que está correndo, mas pode também ser perigoso se ele não estiver preparado para tal.

A melhor forma de proteger o seu próprio portfólio contra esses riscos é ter o correto dimensionamento do tamanho e da diversificação total de suas posições, para que você não caia na tentação de ter excessiva exposição a uma única indústria ou setor.

Na verdade, nem sempre é ruim ter um portfólio concentrado. Alguns dos melhores gestores do mundo, por exemplo, se deram muito bem dessa maneira. Mas, como regra geral, quanto maior a concentração da sua carteira, mais cauteloso você deve ser na alocação.

Por fim, voltando ao Efeito Peltzman, tão curioso quanto saber que ele é um atributo humano, é perceber que ele se aplica a toda e qualquer idade. Afinal, quem nunca se desesperou quando sua filha mais nova, ainda sem saber nadar, pula alegremente na piscina, só porque está com bóia. Pois é, eu já.

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