A inovação entre o campo, a floresta e o futuro

No aparente conflito entre agronegócio e sustentabilidade, quem sela a paz é a tecnologia

Por Florian Hagenbuch

Entre os dez países mais ricos do mundo em recursos naturais, o Brasil vive hoje uma oportunidade histórica de ser líder global em dois setores que vivem em oposição: o agronegócio e a sustentabilidade. Das redes sociais ao Congresso, ruralistas e ambientalistas parecem falar idiomas diferentes, como se não pudesse existir um ponto de equilíbrio entre desenvolvimento e preservação, criando o risco de deixarmos passar gigantes oportunidades para o crescimento sustentável nacional.

Em ambas as frentes, o Brasil está numa encruzilhada. De um lado, o agronegócio — responsável por 21% do PIB nacional — luta para superar as demandas alimentares de uma população crescente. Do outro, uma população reflexiva busca redefinir hábitos históricos, demandando a conservação do meio ambiente. Enquanto o discurso público nos faz crer que as soluções são mutuamente exclusivas, a transformação digital no Brasil pinta o cenário oposto.

Todo ano, o fundo de venture capital, Atlantico, do qual sou sócio desde a fundação, detalha as transformações tecnológicas que florescem na América Latina. Na primeira edição, em 2020, o foco foi na aceleração catalisada pela pandemia. Agora, com o estudo recém-publicado, nos aprofundamos nos efeitos de segunda e terceira ordem surgidos dessa aceleração. A análise da equipe aponta um ponto de inflexão nas histórias da agricultura e sustentabilidade no Brasil — histórias que convergem e compartilham como protagonista a tecnologia.

O tema da intersecção entre agricultura e tecnologia é um que me interessa por ter alguns desafios e oportunidades paralelos aos do mercado imobiliário. Na Loft buscamos trazer a tecnologia e inovação a esse mercado gigantesco e que sempre será enraizado no mundo físico do tijolo e do concreto. A agricultura, que responde por 21% do PIB brasileiro, também é um setor enorme e onde essa intersecção de átomos com bits tem de ser igualmente harmônica para florescer.

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O relatório do Atlantico detalha uma pesquisa feita pelo fundo em parceria com a Atlas Intel, empresa de pesquisa e big data, onde foi levantado que 38% dos brasileiros consideram as mudanças climáticas a maior ameaça para o planeta, acima do colapso da democracia e de novas pandemias. Além disso, 60% estão dispostos a pagar mais por produtos sustentáveis. O desafio é grande, mas acredito que tanto o agro quanto a economia sustentável estão à altura.

Hoje, a América Latina é o celeiro do mundo: citando só dois exemplos, produz 22% da carne e 28% da soja consumidas no mundo. E a demanda aumentará: até 2050, estima-se que a produção de alimentos terá de crescer 60% para sustentar os 9,8 bilhões de habitantes do planeta. É uma tarefa que caberá à nossa região. Por outro lado, com mais de 24 milhões de hectares (equivalente ao território do Reino Unido!) desmatados no Brasil nas últimas duas décadas, aumentar a quantidade de terra não é mais uma opção.

Assim, a agricultura precisa ser mais produtiva com a terra que já usa, mais um paralelo com o mercado imobiliário, onde há uma busca por soluções mais sustentáveis e ecológicas. A comercialização de imóveis usados, como faz a Loft, por exemplo, evita a construção de novas unidades habitacionais. Estima-se que mais de mil unidades deixaram de ser construídas desde a criação da empresa, em 2018, o equivalente a mais de 90 mil metros quadrados. Estamos falando de menos geração de resíduos e redução no consumo de energia e água.

Em ambos os casos - agricultura e mercado imobiliário - , ser mais produtivo com o que já se tem é um feito que requer um empurrão tecnológico, improvável à primeira vista. Hoje, fazendeiros no Brasil enfrentam barreiras para se digitalizar — 48% têm dificuldade em se conectar à internet, enquanto 68% dizem que o valor de investimento em tecnologia é um dos fatores que inibe a sua adoção. Apesar disso, há grande vontade entre eles de adotar soluções tecnológicas, e a oferta segue a demanda.

Startups no setor agrícola (as chamadas agtechs, que triplicaram na última década) estão solucionando problemas históricos da cadeia de valor. A Terramagna, por exemplo, fornece dados para provedores de crédito rural e, só no último ano, cresceu em 27 vezes seu volume de crédito. Enquanto isso, disruptores e incumbentes se unem: Syngenta e Bayer já adquiriram plataformas que usam dados para aconselhar fazendeiros a aumentar a produtividade de suas terras; a startup Agrosmart, que usa inteligência artificial para monitorar condições ambientais, já potencializa safras em quase 50 milhões de hectares.

As proptechs (startups focadas no mercado imobiliário) têm a mesma ambição de solucionar problemas históricos do setor em que atuam e têm ajudado a trazer a compra e a venda de apartamentos para a era do e-commerce. Algumas das principais contribuições das proptechs até o momento são a diminuição da burocracia e o ganho de agilidade e eficiência. Hoje, já é possível comprar um imóvel em um processo 100% on-line, com assinatura digital da escritura, mas as mudanças vão além. A especulação imobiliária, uma dor frequente, encontrou um adversário forte na inovação. Isso porque a precificação de um imóvel já pode ser feita a partir do histórico de transações reais de apartamentos similares, tornando o processo mais transparente e menos vulnerável a suposições.

No campo, catalisada pela inovação, uma nova economia verde surge como resposta às demandas por sustentabilidade. O fato de 47% da nossa terra ser de área florestada (contra picos de 32% em outros continentes), nos deixa bem posicionados para iniciativas como compensação de carbono. Impulsionado por soluções como a Carbonext, plataforma que ajuda empresas a compensar emissões de gases do efeito estufa, o Brasil já é o quarto país com mais créditos florestais transacionados no mundo.

No consumo de alimentos, a preferência por fontes alternativas de proteínas animais, responsável também por emissões, coexiste com o crescimento da agropecuária. Hoje, 59% dos brasileiros consomem proteínas à base de plantas ao menos uma vez por semana — mais do que carnes de porco e de peixe. Além disso, startups brasileiras como a Fazenda Futuro, que inova ao produzir alimentos à base de plantas, já são um fenômeno internacional.

São possibilidades que renovam o horizonte não só da economia local, mas do futuro de um planeta que depende da América Latina para garantir comida na mesa e recursos naturais para seus habitantes. A tecnologia não tem a resposta para todos os desafios aqui postos. Mas ela já transforma a vida de fazendeiros e consumidores. Em um momento que repensamos não só a vida após a pandemia, mas também a recuperação (sustentável) de nossa economia, ela surge para dar fim a conflitos que não precisam existir, trazendo à luz resoluções ousadas e criativas — duas palavras que estão muito ligadas ao jeito latino de viver. Para quem quiser viver nesse futuro, temos uma boa notícia: ele já chegou.

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